Combate à pedofilia é prioridade em delegacia de crimes de informática

Injúria, extorsão, furtos e fraudes são os crimes mais comuns apurados pela unidade especializada em violações legais na rede

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Helen Sardenberg prioriza os crimes de pedofilia na delegacia
Uma tentativa de golpe por e-mail recebido pela chefe de Polícia, Martha Rocha, ocupava a tela de muitas polegadas do computador da delegada titular da Delegacia de Combate a Crimes de Informática (DRCI), Helen Sardenberg, na tarde de terça-feira (22). Na véspera, chegara à DRCI pedido de investigação de uma mensagem anônima em que um secretário de Estado do Rio foi alvo de ameaça e injúria pela internet. Na era do anonimato permitido pela internet, ninguém está livre de golpes ou ameaças virtuais.

As mensagens com o intuito de enganar para ter lucro são a mais freqüente ocupação dos policiais da DRCI, inaugurada em 2000. Porém o crime que mais mobiliza os policiais da delegacia é outro, não tão freqüente: a pedofilia. São cerca de cinco ou seis casos por mês, de acordo com Helen, mas têm prioridade, pela gravidade. Pais de crianças, os agentes se identificam com as vítimas e se empenham ainda mais nesses casos, pela importância social. “Quando chega pedofilia, para todo o resto”, disse a delegada.

A última denúncia chegou segunda-feira. Uma equipe de investigadores já está em contato com o pedófilo, usando perfil falso como “isca”, passando-se por uma menina pequena.

“O policial já disse que tem só 8 anos, mas o cara respondeu que não tem problema. Aí a gente já vê que está com maldade. Os pedófilos pretendem ganhar a confiança das crianças, falando sobre coisas íntimas, ouvindo, eles têm uma paciência inacreditável, conversam sobre joguinhos, ficam meses nesse processo. Passam-se por outra criança, dizem que são meninas, usam estratagemas; perguntam se a outra menina já tem seios. E aí pedem que mostre, na webcam. A menina mostra, como se estivesse no banheiro, com uma amiga.”

Anonimato da internet facilita pedofilia

Raphael Gomide
Helen Sardenberg comanda delegacia que apura crimes como extorsões pela internet
De acordo com a delegada, é uma investigação lenta. “A pedofilia migrou muito para a internet, porque encontra um campo ‘perfeito’: conta com anonimato (pode se passar por outra pessoa) e com crianças sozinhas, sem acompanhamento dos pais. É um crime silencioso.. Se um pai não deixa os filhos conversarem com estranhos na rua, deve valer a mesma regra na internet”, disse ela, mãe de um menino de 8 anos e de uma menina de 4.

Helen defende as lan houses. “São ótimas, porque tem uma fiscalização relativa: ninguém tira a roupa na lan house. Mas pode tirar em casa... É mais perigoso ter uma criança sozinha na internet que na rua, às 22h, porque na rua alguém sempre vai perguntar se está perdida e tentar ajudá-la.”

De acordo com a delegada, não basta que as crianças estejam em um site seguro. Em um caso investigado pela DRCI, a vítima foi contactada a partir de um site infantil.

“Não basta um site seguro, é preciso que a criança esteja acompanhada sempre. Na internet, elas estão muito mais vulneráveis a um pedófilo. Antes da internet, era um caso a cada seis meses, agora são cinco, seis por mês. Pais atentos identificam o problema rapidamente e evitam um dano maior”, afirmou Helen.

Extorsão

Tanto na pedofilia quanto em outras situações, um crime freqüente é a extorsão, com ameaça de divulgação de dados pessoais (foto, filme ou informação) extraído pela internet ou de um computador. Um caso investigado pela DRCI foi de uma menina de oito anos que se achava gordinha. Ela tirou a blusa e o homem captou a imagem e passou a chantageá-la, dizendo que mandaria para todo mundo do colégio se ela não fizesse tudo o que ele quisesse.

Outro, com final mais feliz, foi o de uma mulher, que registrara fotos íntimas no celular, logo perdido na rua. O homem que encontrou o telefone contatou a dona por e-mail, disse ter visto as fotos e a considerado muito bonita. Avisou que só devolveria o aparelho se ela aceitasse ir com ele a um motel. “Ela veio à delegacia e orientamos a simular que aceitaria a proposta, por e-mail. Marcaram um encontro e nós pegamos o cara. Descobrimos que ele tinha um mandado de prisão por roubo”, disse Helen.

Crimes mais frequentes

Em primeiro lugar nos registros de crimes na DRCI estão os crimes contra a honra: injúria, calúnia e difamação, por e-mail. Só são investigados os casos e, envolvendo remetentes ocultos – enviados por e-mail ou em sites de bate-papo ou redes sociais, por exemplo. É a situação de uma vítima de injúria racial: em sua página do Orkut, escreveram ofensas como “macaco, horroroso, crioulo, seu lugar é na senzala”. Ou do ex-marido chamado no Facebook de “broxildo” e “enganador” pela ex-mulher.

Em seguida, vêm os crimes patrimoniais, de furto, ou mediante fraude, ou extorsão. Trata-se principalmente de furtos de contas bancárias e estelionato em compras de produtos pela internet. Uma pessoa registrou queixa na DRCI após comprar um iPhone 3G desbloqueado em um site. Ao clicar no produto, entusiasmou-se com o desconto de 20%, se pagasse por boleto bancário. Mesmo com a cotação da empresa no site “excelente”, ele chegou a pesquisar o nome da empresa no site da Receita Federal, e o CNPJ estava ativo e regularizado. Como o produto nunca chegava, descobriu que o CNPJ tinha sido clonado e estava sendo usado em fraudes. Já tinha perdido o dinheiro.

“Nunca compre produtos em sites que não conhece. É melhor comprar no site de uma loja ou empresa com locais conhecidos, onde você pode reclamar se houver algum problema”, sugere a delegada.

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