Com saída do tráfico da Rocinha, cai venda de bebidas e voltam brigas de bar

Consumidores de fora da favela atraídos por droga deixam de ir e moradores evitam as ruas. “Leis” dos criminosos impediam rixas

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
No bar Amarelinho, um dos grandes da Rocinha, movimento caiu à metade após ocupação

A ocupação da Rocinha pela polícia fez despencar o comércio local em bares e restaurantes, que antes se beneficiavam do intenso movimento de visitantes à favela – parte deles em busca de drogas. Também há relatos de aumento das brigas de bar, antes praticamente inexistentes, porque proibidas pela “lei” do tráfico.

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Os comerciantes celebram a ocupação, mas experimentam um efeito colateral negativo para seu negócio.

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Antônia aproveita a tarde de pouco movimento para fazer uma faxina no bar
“Antes era muito melhor o movimento, até de dia era bom. As pessoas vinham de fora consumir (drogas) e agora não vem mais. Aos sábados eram oito caixas de cerveja, em média; agora é uma ou duas. Para mim, caiu muito, mas acho que vai voltar ao normal. Se Deus quiser, melhora”, disse a comerciante Antônia Martins, 25 anos, sócia do marido no Bar da Bahia em uma travessa da Via Ápia, um dos principais centros comerciais da Rocinha.

Evaldo Souza, há cinco anos no Boteco Betânia, na mesma viela, corrobora o que disse Antônia. Segundo ele, os melhores dias de venda eram as noites de bailes, promovidos pelos traficantes da favela. Nessas ocasiões, o bar funcionava de 15h às 5h, 6h do dia seguinte, e eram vendidas até 12 caixas de cerveja na noite.

Nas últimas semanas, ele deu por falta de um grupo de visitantes da favela Rio das Pedras e outro do Centro do Rio, que antes estavam toda semana na Rocinha.

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Além do sumiço dos visitantes, os comerciantes imaginam que os moradores também estão cautelosos, evitando sair às ruas. “O pessoal está com medo de ficar na rua de bobeira. Daqui a pouco, quando sair o Bope e botarem os postos da PM, volta ao normal o movimento”, opina Evaldo.

No ponto de mais intenso movimento nas noites na Rocinha, no “miolo” da Via Ápia, onde ficam os restaurantes Trapiá e Amarelinho, “agora dá até para jogar bola”, brinca Evaldo.

“Nossa clientela é a maioria de fora, e a venda caiu à metade, porque não vem mais gente de fora nos fins de semana. Mas vai melhorar, quando passar o medo”, disse Maria Claudina, que trabalha há dois anos no caixa do Amarelinho.

Brigas de bar voltam

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Com obar vazio, Evaldo conta que venda de bebidas caiu após o fim do tráfico
Os frequentadores de bares já identificaram o surgimento de brigas nos estabelecimentos à noite, como a que aconteceu no Bar Pixote. “Foi uma briga feia, às 4h de domingo”, contou ao iG um homem que pediu para não ser identificado.

As brigas de bar eram proibidas pelo tráfico, que atuava como uma espécie de “justiça” informal na favela. O objetivo dos criminosos era evitar qualquer tipo de atividade ou crime que atraísse a polícia ao local e atrapalhasse a venda de drogas.

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“Agora tem briga de bar, que antes não existia, porque o pessoal tinha medo dos caras (traficantes). Na época, não iam brigar, porque os homens botavam moral. Uma vez, dois bêbados brigaram neste bar (Boteco Betânia) e um quebrou o vidro do balcão. Um traficante veio e avisou que tinham que dividir o prejuízo. Deu R$ 90 para cada um. Precisava ver os dois correndo: ‘Está aqui a minha parte!’”, relatou o mesmo homem.

“Tem uns ‘caboclos’ que não vacilam e querem briga. Mas se ficarem um ou dois PMs rodando por aí, não vai ter mais”, disse um rapaz, que bebia cerveja na tarde de terça-feira.

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