Árvores arrancadas do solo pelas raízes, casas destruídas, carros retorcidos guardam semelhanças com resultado de ataque militar

Carro arrastado pelas águas e paredes de casas destruídas em Vieiras, Teresópolis, faz lembrar cenário de conflito
Helio Motta
Carro arrastado pelas águas e paredes de casas destruídas em Vieiras, Teresópolis, faz lembrar cenário de conflito
Casas em ruínas, árvores violentamente arrancadas pelas raízes, galpões inutilizáveis, carros reduzidos a ferro-velho em meio a escombros ou enterrados. O cenário de devastação no distrito de Vieiras, na zona rural de Teresópolis, lembra a Faixa de Gaza na semana seguinte ao fim dos bombardeios.

Palestino caminha próximo a lugar onde ocorreu bombardeio na Faixa de Gaza
Reuters
Palestino caminha próximo a lugar onde ocorreu bombardeio na Faixa de Gaza
Não se trata de uma comparação esdrúxula. As causas da desolação são, é óbvio, completamente diversas – de um lado, as bombas, de outro, a força das águas –, mas a destruição se assemelha, no resultado.

Como repórter, estive no território no fim de janeiro e início de fevereiro de 2009 para cobrir as conseqüências de 22 dias de bombardeios. A ofensiva israelense resultou em 1.330 palestinos e 13 israelenses mortos. Então, como agora, impressiona o estrago, e a reconstrução parece distante. Provavelmente, os lugares não voltarão a ser como antes.

Nos dois locais, na zona rural, era possível ver no meio das ruas árvores retorcidas e com as raízes expostas, colchões, geladeiras, máquinas de lavar e televisões misturadas à terra. Na rua principal do centro de Vieiras, muitas casas tiveram pedaços destruídos pelas pedras que rolaram dos morros próximos e vieram trazidas pela força do rio, que subiu. Há também pedras de 1,5 metro junto a residências.

Escavadeira trabalha em Vieira, em meio a árvores arrancadas, sofás na lama e uma moradia destruída
Helio Motta
Escavadeira trabalha em Vieira, em meio a árvores arrancadas, sofás na lama e uma moradia destruída
Tanto em Teresopólis como em Gaza, a terra aparecia em muitos pontos revirada, com marcas de lagarta de veículos – aqui de tratores de reconstrução; lá, lembrança fresca dos veículos blindados israelenses no barro avermelhado. Faltava luz. “Passou um tsunami aqui. Acabou tudo, mas vamos reerguer, pode ter certeza”, disse o morador Jorge Santos.

As semanas seguintes a uma catástrofe parecem guardar semelhanças em diferentes partes do planeta. Gente recolhendo o possivelmente reaproveitável, contando os mortos e buscando se recompor. Caminhões e tratores mexem em entulhos, buscando reconstituir alguma ordem.

Esta semana, era possível ver a mobilização da população local, com vizinhos ajudando outros mais necessitados e moradores de outras áreas do município indo até Vieiras para ajudar. O distrito fica a 36 km do centro de Teresópolis, em um vale na estrada Teresópolis-Friburgo. Nos primeiros dias, a área com cerca de 30 mortos e muitos desaparecidos, ficou isolada pela queda de barreiras na rodovia. Pontes caíram e habitantes improvisaram três passagens com troncos de árvores.

Casa destruída em Gaza
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Casa destruída em Gaza
No tradicional hotel-fazenda São Moritz – que perdeu quatro funcionários na tragédia –, um bambuzal de cerca de 8 metros de circunferência foi arrancado do solo pelas raízes e parou a 100 metros de distância, onde ficou estirado no chão.

Em Gaza, a destruição obedeceu em parte a critérios estratégico-militares; em Teresópolis, a devastação não teve regra.

Tanto no Oriente Médio como no Rio, porém, chama a atenção certa resignação com a morte e a destruição, como se fosse uma fatalidade inevitável, fruto do destino.

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