Cabral diz que `é guerra¿ e se refere a criminosos como `vagabundos¿

Em inauguração de UPP, governador promete recuperar territórios e usa jargão policial ao falar de traficantes. Sociólogo vê contradição no discurso

iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Sérgio Cabral, ao lado do secretário Beltrame, ri antes de usar tom inflamado para falar em 'guerra' e 'vagabundagem' na unidade de pacificação
O governador do Rio, Sérgio Cabral, disse que o combate ao crime no Rio “é guerra” e, em meio a operações das forças de segurança, tratou usou jargão policial para se referir a traficantes como “vagabundagem” e “vagabundos”, nesta terça-feira (30), na inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro dos Macacos, em Vila Isabel.

“Vamos recuperar todos os territórios. É guerra! Quando se luta por território é guerra, e quando se conquista território é paz”, afirmou, em tom inflamado, no evento de abertura de um posto de pacificação.

O governador falava em uma cerimônia para os moradores locais, acompanhado do vice-governador, do secretário de Segurança e do comandante-geral da Polícia Militar, Mário Sérgio Brito Duarte. Dirigindo-se a moradores do local, Cabral se referiu aos criminosos usando ao menos três vezes esta manhã os termos “vagabundos” e “vagabundagem”, correntemente usados por policiais ao se referem a criminosos.

“É a hora de mudar a cultura de convivência da comunidade e inibir aqueles que acham que a vagabundagem deve prevalecer. Vocês enfrentaram clima de guerra, em que o tráfico dizia a hora de subir e descer; de calar a boca e abrir, e pena para os que não se comportassem como eles determinavam”, disse o governador. “Antigamente o comando da comunidade era com o vagabundo cheirando cocaína, fumando maconha, como se fosse regra de convívio”, afirmou, em tom inflamado.

Comentando a implantação da UPP no Morro dos Macacos, a 13ª instalada no Rio, o governador lembrou que traficantes praticavam roubos nos bairros próximos, na Grande Tijuca, e fugiam para a localidade.
“Quantas motos já subiram esse morro trazidas por vagabundos que tratavam o Morro dos Macacos como refúgio? Quantas pessoas morreram, quantos perderam bens, tiveram impacto psicológico, foram feridos ou mortos? Quantos desses fuzis mataram inocentes?”, questionou Cabral.

Presente à cerimônia, o vice-governador, Luiz Fernando Pezão, ratificou o discurso bélico. “Queremos paz no Rio para sempre. Vamos vencer esta guerra.”

O chefe do Estado-Maior da Polícia Militar, coronel Álvaro Rodrigues, também repetiu a referência a guerra feita pelo governador. “Vamos atrás dos criminosos fugitivos. É uma guerra constante, uma briga de gato e rato”, afirmou o coronel.

Durante o evento, o militar – segundo na hierarquia da PM – foi definido pelo comandante-geral da PM como “o verdadeiro Capitão Nascimento”, em alusão ao personagem de Wagner Moura no filme Tropa de Elite. Questionado sobre a comparação e se admirava o personagem, o coronel Álvaro disse que a única semelhança entre eles é o fato de ambos terem passado pelo “Curso de Operações Especiais” do Bope.

Sociólogo aponta contradição entre discurso de guerra e unidade de pacificação

Na opinião do sociólogo Ignácio Cano, professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o uso do termo "guerra" não é novidade e tem "resultados desastrosos" porque "dá a sensação de que tudo é válido na guerra". "Falam assim como se houvesse um exército oponente e se tivéssemos conquistado seu quartel. Isso não existe: o tráfico é fragmentado, e o problema do tráfico é muito mais complexo que isso."

Para Cano, a utilização no discurso de expressões como "guerra" e "vagabundos" por Cabral cria uma contradição à política atual do governo, de pacificação. "O governo vive uma contradição permanente porque as UPPs são a aposta contrária, de pacificação e preservação da vida. Cria-se a UPP e se mantém o discurso anterior."

Segundo o sociólogo, "é lamentável", mas não uma surpresa que o governador use termos como 'vagabundos'. "Cabral deveria usar termos mais neutros e se afastar da ideia do bem e do mal. Lá fora não se usa essa linguagem moral", afirmou. 

    Leia tudo sobre: Cabralvagabundoscriminososguerra

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG