Barra da Tijuca com cara de zona sul vira cenário de novela

“Barrinha” faz sucesso em "Fina Estampa" e ganha adeptos que antes rejeitavam o bairro dos shopping centers. Veja galeria de fotos

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

George Magaraia
Vista que se tem do quebra-mar, no começo da Barra da Tijuca
Os prédios são de, no máximo, quatro andares. Há lanchonetes para sucos naturais, comidas rápidas, além de novos e sofisticados restaurantes que têm, em sua maioria, varandas para a calçada. Bancas de jornal e quiosque de chaveiros completam o cenário emoldurado, ao fundo, pela pedra da Gávea.

Não parece, mas a descrição acima se refere a um pequeno trecho da Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do Rio onde imperam as dezenas de shopping centers e condomínios fechados e autossuficientes, muitas vezes criticado pela impessoalidade de suas ruas. A “Barrinha”, entretanto, foge à regra. Compreendido no começo da Barra da Tijuca, o quadrilátero entre as ruas Érico Veríssimo e Olegário Maciel está sendo chamado de “pedaço da zona sul” fincado no outro lado da cidade.

Não só por conter todas as características urbanistas acima citadas, que se opõem ao restante do bairro, mas também por apresentar um estilo de vida mais despojado, mais descontraído, mais carioca. A Barra, por vezes citada como a Miami brasileira, tem também, portanto, um pouco do Leblon e de Ipanema para chamar de sua.

AgNews
Lilia Cabral grava cenas de "Fina Estampa" no bairro

Em horário nobre

A novela “Fina Estampa” usa como cenário para suas externas parte da Barrinha, o que fez aumentar o interesse sobre o local. A personagem da Lilia Cabral, por exemplo, mora do lado do quebra-mar, em uma casinha simples mas compensada pela vista de tirar o fôlego. São estes contrastes que chamam a atenção de quem passa pelo local.

George Magaraia
Prédios baixos, calçadas largas e vida sossegada
Andar a pé, fazer compras sem usar carro e até mesmo a simples rotina de ir à esquina comprar um jornal são coisas impensáveis para quem mora ou circula diariamente pela Barra da Tijuca. Mas não para quem vive na Barrinha, entre a praia e a sempre engarrafada Avenida das Américas.

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Contrário ao termo “emergente”, usado para designar quem mora na região, o novelista Aguinaldo Silva escolheu aquele trecho do bairro para servir de locação de sua trama . “Sempre achei preconceituosa a maneira como o resto da cidade trata a Barra. Dizem que é um bairro de emergentes, mas na verdade quem mora lá é gente que ralou muito e ganhou dinheiro. Achei que uma novela ambientada lá ajudaria a mudar essa imagem preconceituosa que se tem do bairro”, diz ao iG .

Poder aquisitivo

O restaurante Gero acaba de ser inaugurado na rua Érico Veríssimo, mesma via que também abriga a pizzaria Bráz, importada de São Paulo, e a Academia da Praia, onde malham artistas e modelos. A propriedade de Alexandre Accioly e Rogério Fasano, que já se firmou como seleto reduto gastronômico em Ipanema, chega à Barra da Tijuca com a sofisticação arquitetônica assinada por Isay Weinseld. Foi um ano e meio de obras. “Quando meu sócio me falou da Barra como potencial, me veio à mente a ideia de restaurante de shopping, o que foge do que eu queria. Mas aí soube da Barrinha, que tem outro estilo, e fomos em frente”, conta Fasano.

Não foi só trecho que lembra a zona sul que agradou aos empresários. A Barra é a grande aposta do desenvolvimento do Rio, não apenas pelos investimentos imobiliários da região com também por abrigar boa parte das competições nos Jogos de 2016. Em frente à Barrinha, no outro lado da Avenida das Américas, está sendo construída uma estação de metrô, que deve desafogar o trânsito.

“A Barra é uma aposta, crescimento forte. É o momento de se posicionar junto à grande demanda local que existe ainda hoje. A população dali é de bom poder aquisitivo, ainda que carente de serviços perto de seu bairro”, afirma Accioly. O investimento para abrir o Gero foi alto, R$ 7,5 milhões. “É acima da média. É difícil você ver um restaurante com este valor”, continua ele.

A Casas Pedro, presente em outros lugares da cidade, também acaba de inaugurar filial na Barrinha. Especializada em temperos, frutas secas e produtos importados, a loja está no final da rua Olegário Maciel. Felipe Mussalem, um dos sócios do empreendimento, se surpreende com o movimento inicial. “Como tem gente que anda nestas calçadas! É algo impensável quando se fala em Barra da Tijuca, um bairro dominado pelos carros”, analisa Mussalem, que investiu R$ 400 mil no novo negócio.

George Magaraia
Gero agora na Barra: novos atrativos na região

Perfil: homem solteiro, até 40

Segundo dados da pesquisa realizada pelo Sebrae/RJ para o Polo Jardim Oceânico, que inclui a Barrinha, o perfil do frequentador do bairro é homem, solteiro, de 30 a 40 anos, morador da Barra e do Recreio e, o mais importante para o empresariado, com alto poder aquisitivo. “A gente até brinca dizendo que um bom slogan do bairro seria: “Mulherada, os homens solteiros e ricos estão aqui na Barra! Não procurem em outro lugar”, brinca Núbia Vigna, presidente do Polo Jardim Oceânico, união não-governamental de empresários e moradores.

A pesquisa, de junho passado, indicou ainda que, dentre os moradores, 69% utilizam tanto os restaurantes quanto os bares, cafés e lanchonetes da região e citam como características principais a tranquilidade, o acesso à praia e um bom comércio de rua.

George Magaraia
Restaurantes com varanda na calçada: clima de descontração e brisa do mar
Também na Barrinha estão os únicos bares de rua de toda a região. Típicos em outros pontos mais boêmios da cidade, os chamados “pés sujos” estão nas esquinas do quadrilátero da moda e ainda resistem ao avanço dos restaurantes que migram da zona sul rumo à Barra. De seus balcões é possível ver as moças que voltam, de biquíni, da praia no final da tarde.

Miami, não. Manhattan

Os casos de sucesso comercial são muitos no local. Desde o quiosque da Tia Augusta (que é alugado para as gravações da novela da TV Globo), vizinho ao já lendário quiosque do Pepê, no posto 2, à academia Contours, exclusiva para mulheres.

É no restaurante Balada Mix, na rua Érico Veríssimo, que os artistas costumam comer após as gravações da novela. Da varanda, eles são flagrados pelos paparazzi, os mesmos que antes só atuavam nas ruas do já tão badalado Leblon. Aguinaldo Silva acha que não só os paparazzi, mas também os telespectadores se cansaram da zona sul. “Ninguém aguenta mais stock-shots do Cristo Redentor, embora ele seja lindíssimo e nos abençoe dia e noite. Acho que a Zona Sul nas novelas já encheu o saco”, provoca.

Como se percebe, a Barra da Tijuca, que antes era vista como cenográfica demais, cercada pelas muralhas de seus condomínios (e vigiada por uma estátua da Liberdade de um shopping), ganha cada vez mais adeptos.

“Se você for no Gero Barra, vai achar que está em Manhattan. Dia desses havia quatro Porsches e outras tantas Ferrari na calçada. Você não vê isso na zona sul. É até bonito de se ver um engarrafamento desses”, exagera Accioly. Os Porsches e as Ferraris, neste canto do bairro, realmente não são cenográficos.

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