Até 2014, quase metade dos policiais formados no Rio terá de ir para UPP

Secretaria de Segurança planeja instalar 40 UPPs até o ano da Copa do Mundo

BBC Brasil |

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Divulgação/Governo do Rio
Sede da UPP do Morro São Carlos, no Estácio, no centro do Rio
Para cumprir as metas de expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio até 2014, quase metade dos policiais militares formados até então deverá ser alocada em UPPs. A Secretaria Estadual de Segurança Pública (Seseg) precisará alocar 8,8 mil novos policiais nas favelas para possibilitar a instalação de 40 UPPs até o ano da Copa do Mundo .

O contingente é quase metade dos cerca de 20 mil homens que a Polícia Militar (PM) pretende formar até 2014. Para cumprir a meta, a PM tem formado em média 500 homens por mês, afirma o coronel Robson Rodrigues, comandante da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP). Segundo ele, o tempo de formação de pessoal foi previsto na elaboração das metas de expansão da UPP.

"Lógico que os recursos humanos são condicionados pelo tempo de formação, que envolve lançar o edital, fazer a prova, a convocação, o teste físico e psicológico", afirma. "Desses 500 (policiais) por mês, temos uma previsão de atender também ao restante da corporação. O objetivo é chegar a 2014 com 12 mil homens na UPP e um total de 60 mil na PM", diz.

Oportunidade

Uma das promessas de campanha do governador Sérgio Cabral (reiterada após sua posse neste segundo mandato) era a de aumentar o efetivo da PM dos atuais 40 mil para 60 mil. Desse total, 12 mil - o equivalente a 1/5 dos policiais de todo o Estado - serão empregados no programa de ocupação das comunidades concentradas na capital. Hoje, o governo já tem 17 UPPs instaladas, com 3,2 mil homens trabalhando nelas.

O sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, vê com bons olhos o aumento da proporção de homens nas UPPs. "As UPPs são uma oportunidade única de transformar a polícia desde dentro, de reformular a doutrina, as estratégias, as táticas empregadas, o uso da força", considera.

Segundo o coronel Robson Rodrigues, a PM planeja e distribui os policiais formados de acordo com as necessidades da corporação. Ele afirma que a criação de UPPs alivia o policiamento em batalhões próximos a comunidades, liberando mão-de-obra para outras áreas.

Insatisfação entre policiais

Mas uma pesquisa divulgada na quarta-feira indica que o governo do Estado precisará trabalhar para tornar as condições de trabalho nas UPPs mais atraentes aos policiais. O estudo Unidades de Polícia Pacificadora: O que pensam os policiais, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, entrevistou quase 400 policiais e verificou que 70% prefeririam sair das UPPs e trabalhar em outros batalhões.

"Isso revela que ainda há resistências dentro dos batalhões", comenta Cano. "As UPPs ainda têm mais aceitação fora do que dentro (da corporação)". As principais queixas dos policiais se referem às condições de trabalho e dizem respeito sobretudo à remuneração e à infraestrutura das UPPs. Apesar de receberem gratificação por trabalhar em UPPs, quase 60% dos entrevistados consideram o salário ruim.

Após a divulgação do estudo, o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame disse que algumas práticas na instalação de UPPs serão alteradas. "A gente vai procurar inaugurar as próximas com o máximo possível de instalações, porque (atualmente) a gente coloca o pessoal nos terrenos com algumas instalações básicas, fundamentais, mas não tudo. Na medida em que vai avançando no programa, a gente vai fazer isso de uma maneira mais rápida", disse à imprensa na quarta-feira.

Formação

Enquanto se espera a formação de novos policiais, o Complexo de Alemão, na zona norte do Rio, permanece ocupado por homens do Exército em caráter temporário, desde novembro do ano passado. A instalação de UPPs no local, prevista para este semestre, foi adiada para março de 2012. O treinamento que policiais recebem é o mesmo para trabalhar tanto nos batalhões quanto nas UPPs e dura em média 7 meses, diz o coronel Carlos de Souza Alves, comandante do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP).

Segundo ele, os policiais encaminhados às UPPs passam antes por estágio de um mês na Coordenadoria de Polícia Pacificadora. De acordo com o coronel, o CFAP (quartel de formação da PM, na zona oeste do Rio) construiu duas novas instalações para abrigar o treinamento de policiais, com capacidade para atender 2,7 mil alunos ao mesmo tempo.

Apesar da urgência de se criar novos quadros para possibilitar a expansão das UPPs, especialistas cobram melhorias na formação de policiais. "Eu provocativamente venho dizendo que a gente precisa de menos policiais, mas mais bem treinados", diz Ignácio Cano. Ele concorda que o modelo das UPPs exige um alto contingente, mas teme que a demanda por novas contratações dificulte a solução de antigos problemas. "Fica difícil melhorar o salário e a formação dos policiais quando se quer contratar muitos policiais".

Vanderlei Ribeiro, representante de uma associação que reúne sete mil policiais do Estado, critica a pressa na formação de policiais e a estrutura hierárquica da Polícia Militar. Ele cobra maior preparo para que os policiais possam atuar com maior iniciativa e autonomia. "A formação é precária. Eles dão prioridade a um sistema adotado pela estrutura militar, transmitindo instruções militares, como marchar, bater continência, plantar, fazer faxina, para formar um cumpridor de ordem", diz Ribeiro, presidente da Associação de Praças da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (Aspra-PM/BM-RJ).

"A ação policial requer inteligência, ação imediata, habilidade profissional. O policial trabalha isolado e as ações dependem dele. Se não souber como reagir nas situações que aparecerem, vai fazer bobagem", afirma. De acordo com a Seseg-RJ, além de investimentos na infraestrutura do centro de formação, um novo currículo está sendo desenvolvido para a formação policial e deverá ser adotado em janeiro de 2012.

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