Artigo: Colapso dos edifícios

Construções são feitas para ficar em pé. O que pode ter levado os prédios do Rio a desabar

Rubens de Almeida* |

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Rubens de Almeida é engenheiro e jornalista
A notícia do desabamento de um edifício é sempre chocante pelo volume da destruição, mas também por colocar em alarme toda população, já que em princípio as construções são feitas para ficarem em pé, servindo como local de trabalho, diversão ou moradia, supostamente para toda a vida.

A queda dos três edifícios de uma só vez no centro da cidade do Rio de Janeiro é um fato ainda mais incompreensível e desperta a ansiedade natural de saber as causas da tragédia. Até para entender em que medida cada um de nós estaria exposto a ocorrências desse tipo, apesar de acharmos que frequentamos ou habitamos edifícios seguros e bem construídos.

O primeiro comentário a fazer sobre a tragédia da Avenida Treze de maio, exatamente atrás do magnífico e recuperado Theatro Municipal do Rio de Janeiro, portanto, é sobre o caráter excepcional do episódio, diante dos milhares de edifícios construídos e usados todos os dias. Edifícios não caem, a menos que uma série de erros técnicos e decisões de negócio ponham em risco essa verdade.

Várias ocorrências em sequência nos últimos anos, desde a queda do famigerado Condomínio Palace II na Barra da Tijuca, passando por alguns prédios no Recife, explosões subterrâneas e desabamento de alguns prédios menores no próprio Centro do Rio de Janeiro e até de uma laje em construção em um futuro centro cultural em São Paulo - na semana passada -, porém, contestam a segurança dessa afirmação.

Os laudos técnicos decorrentes sempre apontam as causas e na maioria dos casos trazem explicações coerentes e promovem ações judiciais contra os responsáveis. Mas, como demoram muito a sair, não conseguem conter a população de construir suas próprias versões, o que contribui para a insegurança geral e coloca em cheque o conhecimento dos profissionais de engenharia, exatamente os mesmos que continuarão a construir nossas casas, escritórios, restaurantes etc.

Ainda é cedo para afirmar quais erros e decisões promoveram o desastre do desmoronamento de ontem, mas algumas pistas podem ajudar a compreender o porquê de três edifícios, aparentemente construídos e utilizados há pelo menos três ou quatro décadas, resolverem se espatifar juntos no início de uma noite comum - tomara que provocando um mínimo de vítimas fatais e grandes prejuízos patrimoniais.

O primeiro indício é o horário, após o expediente, quando a saída das pessoas em princípio deixaria os edifícios mais leves. É o momento também de em um edifício comercial permitir o reinício dos trabalhos de uma reforma, por exemplo.

O fato é que peso das pessoas usuárias de um prédio, em condições normais de uso de uma edificação, é quase desprezível perto do peso do próprio edifício. No cálculo do peso dos andares, importa muito mais o tipo de utilização dos ambientes, sendo que um escritório normalmente corresponde às mesmas características de uma moradia.

Nos edifícios em questão, certamente houve modificações de uso. De apartamentos para morar os espaços tornaram-se de uso comercial. Mas a menos que alguém tenha construído uma biblioteca ou um enorme arquivo secreto, dificilmente as estruturas seriam afetadas. Sobra a hipótese de alguém ter decidido fazer uma reforma radical, retirando colunas e paredes sem o devido cuidado em manter a estrutura original.

É importante saber que quando há retrofit (termo utilizado na arquitetura para nomear reformas mais amplas com modificação do uso dos edifícios), é recomendável que o executor solicite uma reavaliação estrutural. Nesses casos, um novo projeto precisaria ser aprovado junto às autoridades competentes e a chance de sair algo errado nessa situação seria minimizada pela rotina de aprovações e vistorias públicas.

O mesmo não ocorre em pequenas reformas, nem sempre comunicadas aos órgãos públicos. Geralmente decididas pelos próprios proprietários das unidades, é onde mora o perigo: uma construção de uso coletivo pode ser prejudicada pela decisão de apenas um dos usuários, na ânsia de ampliar suas instalações. Isso ocorre todos os dias, não só nos prédios que já desabaram, mas em qualquer edificação, quando as razões do dono podem levar pequenos empreiteiros a agir sem o devido cuidado técnico.

Pelas primeiras informações, aparentemente poderia estar acontecendo alguma reforma localizada em um dos andares. Há depoimentos de pessoas que "sentiram falta" de elementos estruturais (colunas e paredes) nos andares quando a porta do elevador abriu e a tal reforma pode ser observada. A explicação para a tragédia, portanto, será encontrada no registro de licenças de construção e reforma da municipalidade, se é que essa pequena obra foi comunicada aos órgãos competentes.

Se a decisão do proprietário de ampliar o seu próprio espaço à custa de demolições afetou, "sem querer", uma coluna sobre a qual se apoia a caixa d'água do edifício, outros pilares menos robustos não segurariam o sobrepeso e entrariam em colapso repentino. A perda do apoio nesse caso provocaria a queda sucessiva das lajes e qualquer inclinação decorrente acumularia entulho sobre as lajes dos outros dois edifícios que também não suportariam a sobrecarga e ruiriam. Aliás, esse era o segredo do mestre da implosão dos edifícios, o engenheiro falecido Hugo Takahashi, que desestabilizava primeiro os pilares abaixo das caixas d'água para que o peso da água acumulada ajudasse o prédio a vir abaixo.

Outra hipótese é ter ocorrido alguma explosão dentro do prédio. Há casos de armazenamento de fogos de artifício em edifícios mas neste caso teria havido descuido inacreditável da administração do edifício. Botijões de gás também causam explosões, mas de outro tipo: mexem com coisas soltas, móveis e pessoas; dificilmente ofendem as estruturas e paredes, pois a tendência do gás é espalhar-se rapidamente, promovendo uma grande e contínua destruição, jogando longe até telhados, mas nunca fraturando elementos estruturais.

Seja qual for a causa do acidente, a ser apurada nos próximos dias, após o resgate das eventuais vítimas e da retirada do imenso volume de escombros, será preciso prestar muito mais atenção às causas do desmoronamento, já que não é recomendável que as versões dominem novamente o imaginário da população e continuem promovendo a insegurança e a irresponsabilidade de alguns em prejuízo de todos. Se a culpa foi negligência de alguém em particular ou algum órgão público, a lição precisa ser aprendida e as correções efetivamente aplicadas.

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, cujas belezas naturais são tão bem combinadas com importantes exemplares de edifícios históricos ainda em uso, vale a pena ser transparente em relação às conclusões, para que eventuais descuidos particulares ou displicência de agentes públicos não prejudiquem os esforços que vêm sendo feitos para recuperar tantos edifícios históricos a um só tempo, uma imagem que impressiona e parece garantir um outro padrão de ocupação dos edifícios e do centro da cidade, dignos da ambientação necessária para receber a Copa 2014 e principalmente as Olimpíadas de 2016.


* Rubens de Almeida, diretor de Integração do iG, é engenheiro civil e jornalista

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