Alegria e receio marcam retorno das atividades na Tasso da Silveira

"Tudo mudou. Agora é uma nova vida", avalia aluno

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Cláudia Dantas
Guardas municipais organizam entrada de alunos na Escola Municipal Tasso da Silveira
O retorno das atividades na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, na tarde desta segunda-feira (18), foi marcado por receio e alegria, após o massacre ocorrido no último dia 7.

Ansiosa em rever os amigos, a aluna Tayanara Faria, de 14 anos, disse estar muito feliz pelo retorno do dia-a-dia escolar. Para ela, o ocorrido foi uma tragédia que vai ficar para sempre na memória, mas “a vida tem que continuar”.

“Quando disseram que a escola podia ser fechada, fiquei muito triste. O que aconteceu foi uma fatalidade, mas podia ter acontecido em outro lugar. Temos que encarar a realidade”, lamentou a jovem, que, assim como seus colegas, foi à escola sem mochila, a pedido da direção.

Ao contrário de Tayanara, Danilo Hotz, de 14 anos, mostrou-se mais receoso com o retorno às atividades.

Fica uma sensação de insegurança. Tudo que aconteceu foi muito triste, não tem como esquecer facilmente”, avaliou o adolescente, que perdeu a amiga Géssica Guedes na tragédia. “Já fui da sala dela uma vez. Ela era uma menina muito legal, divertida”, relembrou.

Cláudia Dantas
"Não tem como esquecer facilmente", diz Danilo Hotz
Nova decoração

As atividades na Escola Municipal Tasso da Silveira duraram aproximadamente 2h30. Cerca de 80 alunos - dos 140 que compõem o nono ano - compareceram e fizeram desenhos variados no muro do pátio e na parede do refeitório da instituição de ensino. A pintura das ilustrações está prevista para começar amanhã, com a presença dos estudantes das demais séries.

“O retorno foi muito bom. Aos poucos, vamos superar a tragédia. Amanhã, estarei de volta”, garantiu Victor Prates, de 14 anos. “Ninguém falou sobre o ocorrido. Isso faz a gente esquecer tudo o que aconteceu”, completou Raíssa Freire.

Cláudia Dantas
"Aos poucos, vamos superar a tragédia", avalia Victor Prates
Pais com medo

Se alguns alunos apresentaram um pouco de receio na volta às atividades escolares, o mesmo aconteceu com os pais. Os responsáveis que quiseram puderam entrar e acompanhar o retorno ao lado dos filhos. Foi o caso de Cíntia Evangelista, que foi levar o filho Igor, de 14 anos, à Escola Municipal Tasso da Silveira. Ao entrar na rua onde está a instituição de ensino, o adolescente ficou reticente, com lágrimas nos olhos. Decidido a superar o trauma, ele secou as lágrimas e seguiu em frente.

“No primeiro momento, ele se recusou. Conversei para ver se criava coragem, disse que tinha sido um fato isolado e ele acabou vindo. Mesmo assim, ficamos preocupadas pelo o que aconteceu. Infelizmente, a gente sabe que algo relacionado à violência pode acontecer ao redor da escola, mas, dentro dela, a gente nunca espera”, disse a mãe. “Apresentaram um projeto de modificar a escola para que os estudantes se sintam bem. Se continuar assim tem tudo para dar certo”, completou.

A irmã de Igor também estuda na escola e seu retorno está previsto para amanhã. Yasmin Evangelista, de 11 anos, estava no local no dia do massacre e não quer retornar. Igor, que estava reticente em seu retorno, aprovou o retorno e agora vai incentivar a ida da irmã. “Vou dizer para ela que a tragédia não irá acontecer novamente. Tudo mudou. Agora é uma nova vida”, avaliou.

Agência Estado
Alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira se emocionam na volta às aulas

Cronograma

Nesta segunda-feira, voltaram apenas os alunos do nono ano. A partir de amanhã, todas as séries terão seu dia-a-dia escolar retomado. Segundo a secretária municipal de Educação, Cláudia Costin, as atividades programadas para a recepção dos estudantes têm como objetivo fazê-los esquecer do ataque do dia 7, quando 12 crianças morreram.

“Essas atividades podem ajudá-los a se sentirem mais seguros. Queremos dar uma sensação de recriação do espaço escolar”, disse Cláudia, que entrou na escola com um coelho de pelúcia nas mãos. “Estamos perto da Páscoa, que significa ressurreição. Vou dar esse coelho para os professores e mostrá-los que essa é a nossa chance de reinventar a escola para que a ressurreição aconteça”, completou a secretária.

De acordo com o diretor da escola, Luís Marduk, as atividades de amanhã serão o grande desafio deste recomeço. “Com todos os alunos presentes, teremos a avaliação se a atividade coletiva programada atende às necessidades deles ou se vamos precisar de algo mais específico”, disse. “Cada passo tem que ser dado com muito cuidado”, finalizou.

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