Ainda era possível sentir o calor da menina, conta voluntário

População de Teresópolis se mobiliza para enfrentar tragédia e improvisa 'ambulâncias'. Moradores estimam mortos em centenas

Raphael Gomide e Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Cleide Araújo Correia viu quando o vizinho tirou uma criança da lama soterrada entre os escombros de uma casa no bairro Espanhol, em Teresópolis. Instantes depois, a criança morreu. “Ainda era possível sentir o calor do corpo da menina”, relatou Célio Santos, que está atuando como voluntário na cidade, como Cleide.

Willy Oliveira, filho de Cleide, ficou chocado ao ver cenas que lhe lembravam uma guerra, em sua definição. “Passou uma moto buzinando muito à frente de uma picape, que tinha um homem deitado, coberto, só com a cabeça de fora. Não sei se estava vivo ou morto”, disse ao iG. Willy também viu muita gente desesperada no bairro Espanhol, como a dona de uma casa que gritava aos prantos, em busca de seus três filhos, de 1, 5 e 8 anos de idade.

Atuando como voluntário nas buscas no bairro Fischer, o operário de máquinas Bruno de Oliveira ajudou a retirar dos escombros os corpos de três irmãos da mesma família.

“Cerca de 30 pessoas estavam cavando e, por volta das 11h, achamos os corpos de três irmãos sob uma cama nos escombros de uma casa. Era um menino de 10 anos, uma adolescente de 16 anos e uma jovem de 21 anos, que ia casar no próximo sábado”, relatou Bruno. “É muito triste. Estava tudo destruído”, completou.

Corpos são vistos em riachos. Duas igrejas estão cheias de corpos de vítimas da chuva e dos escorregamentos, segundo o relato de duas pessoas que falaram com o iG . O ginásio da cidade, Pedro Jahara, está funcionando como hospital de campanha para cerca de 500 pessoas. Algumas chegam mortas.

Cenário de guerra

Sirenes tocando, barulho de helicópteros, bombeiros por todo lado, médicos convocados para os dois hospitais da cidade e para o ginásio Pedro Jahara, para onde estão sendo levados desabrigados de Teresópolis.

Mesmo fora dos bairros mais afetados pelas chuvas desta terça-feira, esse é o cenário da cidade.

A população de Teresópolis se mobilizou diante da tragédia na cidade.

Centenas de moradores atuam como voluntários nas buscas e no socorro das vítimas, cada um da maneira que pode.

Empresários cedem galpões e reúnem mantimentos doados; outro emprestou um trator; médicos, enfermeiros e estudantes da área de saúde se apresentaram para cuidar dos feridos.

O fórum de Teresópolis cancelou audiências, suspendeu prazos e cedeu veículos para ajudar nas buscas.

Boa parte de Teresópolis ficou sem luz a partir das 2h desta quarta. No centro, região menos afetada pelas chuvas, a luz voltou por volta das 10h30, mas continua tendo quedas. N

as ruas, há pouca circulação de carros de passeio e ônibus públicos. Bancos e comércio estão fechados.

A área mais afetada do município é o bairro Caleme, onde existe uma barragem, que transbordou. A força da água derrubou casas modestas e de condomínios de luxo. “O Caleme acabou, acabou”, disse a advogada Fernanda Almeida.

Pontes e casas estão destruídas, especialmente na área distante do centro, na periferia. Moradores ouvidos pelo iG estimam que o número de mortes alcance as centenas.

    Leia tudo sobre: voluntário

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG