"A comemoração este ano é minha", diz mãe de vítima

Carla de Souza contou ao iG sobre os planos da família para o Dia das Mães, no domingo (8), e disse que o filho ainda está se recuperando física e psicologicamente

Priscila Bessa, iG Rio de Janeiro |

Fabrizia Granatieri
Carla de Souza comemora o fato de estar ao lado do filho, Carlos Matheus, no dia das mães

Mãe de Carlos Matheus Vilhena de Souza, de 13 anos, uma das crianças atingida pelos disparos durante o ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona norte do Rio, Carla de Souza garante que esse dia das mães é, antes de mais nada, uma comemoração sua.

“Chegamos a pensar que o Matheus poderia não estar mais aqui. Não dá nem para dizer que vai ser mais um dia das mães. Vai ser ‘o’ dia das mães”, diz ela, que tem outro filho (Carlos Alberto de Souza, de 14 anos).

A celebração para o domingo (8) na casa da família já está programada. “Vou ver o que o Matheus quer almoçar. Já que a comemoração esse ano é minha mesmo. Então o que ele quiser a gente faz. O prato que ele mais gosta é lasanha”, conta Carla. Apesar da animação, ela e o marido, Carlos de Souza, têm observado que Matheus, atingido por dois tiros no braço e um de raspão no peito, guarda sequelas maiores que a dor física.

“Fala demais à noite e quando pergunto o que é diz que não é nada”, diz Carla, que passou a colocá-lo para dormir em seu quarto desde o incidente. Agora, aconselhada por psicólogos, está preparando o filho para voltar a dormir com o irmão. O menino deve começar a fisioterapia na mão esquerda na próxima semana e não usa mais a tala que protegia o braço.

“Conversei hoje com o pai da Larissa Atanázio (uma das crianças mortas no massacre) e foi terrível. Tenho que dar graças a Deus porque estou com o meu filho do meu lado”, afirma.

iG: Esse dia das mães vai ser diferente?
Carla de Souza: Vai porque chegamos a pensar que o Matheus poderia não estar mais aqui. Quando vimos que ele estava bem... Não dá nem para dizer que vai ser mais um dia das mães. Vai ser “o” dia das mães. Tenho mais um filho, o Carlos Alberto, que é outro presente porque estuda à tarde então, se estivesse na escola de manhã, também poderia ter acontecido alguma coisa com ele.

iG: Como pretende comemorar a data?
Carla de Souza: Normalmente fazemos um almoço, nós quatro e, também, vamos até a casa da minha sogra. Mas acho que esse ano vamos ficar só aqui, mais juntinhos. Vou ver o que o Matheus quer almoçar. Já que a comemoração esse ano é minha mesmo, então o que ele quiser a gente faz. O prato que ele mais gosta é lasanha.

Fabrizia Granatieri
Carla de Souza: "O prato que ele mais gosta é lasanha"

iG: Como está administrando os cuidados com os dois filhos, especialmente com toda essa atenção sobre o Matheus?
Carla de Souza: Procuramos equilibrar. Um escolhe a sobremesa e o outro o almoço, por exemplo. Porque todo mundo só quer conversar com o Matheus. As pessoas chegam aqui perguntando sempre por ele. Sentimos que o outro fica meio com ciúmes. O que é normal, mas aí conversamos com ele, brincamos e ele acaba rindo.

iG: Você disse que a família estava dormindo junta depois de tudo que aconteceu. Continua assim?
Carla de Souza: Não. O mais velho já não está mais dormindo conosco. E, se Deus quiser, essa semana o Matheus também, né? Vai dormir com o irmão. Só estou esperando ele ficar mais seguro agora que tirou a tala. O pai não aguenta mais dormir no chão (risos).

iG: Um mês depois do episódio na escola, como vê a recuperação psicológica dele?
Carla de Souza: O humor dele ainda oscila muito. Fala demais a noite e quando pergunto o que é diz que não é nada. Mas a gente vê que ele tem tido sonhos agitados. Às vezes o chamamos para fazer alguma coisa e ele diz que quer ficar deitado. Só que ele era bem ativo. Nunca deitaria no meio do dia. Eu chegava em casa cansada e me lembrava que precisava lavar o uniforme do Carlos. Na mesma hora o Matheus avisava: “Mãe, já lavei”. Ele sempre foi de tomar a iniciativa. Sentimos falta desse Matheus. Agora só fica deitado, ou um pouco no computador.

iG: Como se sente ao vê-lo assim?
Carla de Souza: É difícil. Hoje mesmo estávamos na escola para a homenagem de dia das mães e ele estava rindo e brincando com todo mundo. Conversou com o Ian e um ficou mostrando as cicatrizes para o outro no maior papo. De repente, demonstrou que queria ir para casa. Mas percebeu que se saísse iria chamar muita atenção e desistiu. As pessoas pensam que ele está ótimo, mas quem convive vê a diferença. E pensar que meu filho poderia estar bem.

iG: O que mais te revolta?
Carla de Souza: Ele estava na escola e, em tese, não tem lugar mais seguro para uma criança. A propaganda do Governo diz que lugar de criança é na escola. Aí mando ele para lá e acontece um negócio desses? E ainda temos que ser gratos. Conversei hoje com o pai da Larissa Atanázio (uma das crianças mortas no massacre) e foi terrível. Tenho que dar graças a Deus porque estou com o meu filho do meu lado.

Fabrizia Granatieri
Carla tenta equilibrar a atenção para os dois filhos. "Um escolhe a sobremesa e o outro o almoço"

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