Cinco anos após tragédia no Morro do Bumba, famílias vivem em áreas de risco

Por Agência Brasil |

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Moradores que permanecem nas moradias que não caíram no Morro do Bumba alegam que o motivo de continuarem no local é a dificuldade de encontrar lugar para morar na região

Agência Brasil

Morro do Bumba após a tragédia que deixou pelo menos 48 mortos; chuva causou deslizamentos
Helio Motta
Morro do Bumba após a tragédia que deixou pelo menos 48 mortos; chuva causou deslizamentos

Cinco anos depois de a cidade de Niterói, na região metropolitana do Rio, sofrer uma tempestade que causou deslizamentos e deixou dezenas de mortos, parte das pessoas atingidas pelo desastre ainda não conseguiu uma nova moradia definitiva, muitas continuam a receber aluguel social e algumas ainda moram em áreas de risco, incluindo o próprio Morro do Bumba.

Milhares de famílias foram afetadas pela tragédia e, após promessas de moradia, segundo a Associação de Vítimas do Morro do Bumba, 30 famílias continuam a viver em área de risco no morro que desabou no bairro do Cubango, mesmo com as casas interditadas. As casas haviam sido construídas em uma área de risco que abrigava um lixão e, com a chuva forte, muitas foram destruídas ou soterradas pelo deslizamento no dia 7 de abril de 2010.

Os moradores que permanecem nas moradias que não caíram alegam que o motivo de continuarem no local é a dificuldade de encontrar um lugar para morar na região, com os R$ 400 de aluguel social que são pagos pela Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. A família do porteiro Vinicius Silva é uma das que voltaram para as áreas de risco. Sua casa não desabou no deslizamento, mas foi condenada pela Defesa Civil do município.

"A gente mora na mesma casa, porque não tem como sair daqui com R$ 400. Para conseguir um lugar de um quarto para morar com a minha mulher e um casal de filhos em São Gonçalo [cidade vizinha e de menor renda per capita], é no mínimo R$ 700, fora água, luz, gás. Só eu trabalho, e não temos possibilidade de pagar isso", conta Vinicius.

A costureira Dima Cabral, de 66 anos, recebe o aluguel social, mas também não conseguiu sair do Morro do Bumba com a filha e a neta, que se mudaram para a casa dela depois da tragédia. A casa das duas ficava ao lado, e mais perto de um barranco com risco de deslizar.

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"Se você me disser onde tem uma casa por R$ 400 de aluguel, eu fico feliz. Minha filha não recebe o aluguel social e veio morar comigo, e não temos condições de ir para outro lugar", diz ela, que não conseguiu alugar nada há cinco anos e tem ainda menos esperança de encontrar agora: "Os preços sobem todo ano, e o aluguel social, não", alega a moradora.

Depois de ver a casa ser tomada por lama, Maria José dos Santos, de 62 anos, não conseguiu voltar a morar nela, apesar de pedir para os filhos sempre conferirem se não foi invadida. Com a filha e o neto, ela já trocou de endereço quatro vezes porque os locais que conseguiu alugar sempre apresentavam problemas: "O último deu tanto mofo que tivemos que sair. Sempre é assim, aparecem esses problemas", reclama. "Tive câncer no ano passado, estou debilitada e cada vez isso piora mais a minha saúde".

Antes, Maria José trabalhava como costureira de capas e estofados para embarcações, mas agora depende dos filhos e lamenta ter abandonado a casa que deixou para trás no Bumba: "Se eu tenho uma casa de três quartos, moro de aluguel e para tudo dependo dos filhos, não deixa de ser um desamparo", reclama.

Vinicius, Dima e Maria José estão entre as pessoas afetadas pela tragédia que continuam a esperar que sejam entregues os conjuntos habitacionais prometidos. O presidente da Associação de Vítimas do Morro do Bumba, Francisco Carlos, critica a demora em providenciar moradia e o valor do aluguel social, que considera baixo: "Cinco anos seriam tempo suficiente para que todo mundo pudesse estar morando em suas casas, em um lugar tranquilo. Muitas pessoas tentaram alugar casas, mas houve problemas de atraso, e os proprietários pediram as chaves de volta. Se naquela época já era difícil alugar com R$ 400, imagine agora".

Para Francisco Carlos, uma prova de que o valor do aluguel social está defasado é o acordo que a prefeitura fez para conseguir retirar as famílias que passaram mais de três anos em abrigos no 3º Batalhão de Infantaria (BI). "Eles pagaram um complemento de R$ 600 para que as pessoas pudessem encontrar um lugar para morar, e só assim elas saíram". A prefeitura confirmou o acordo e afirmou que só as 92 famílias que estavam nos abrigos receberam a complementação.

O presidente da Associação mora em um dos 147 apartamentos do Condomínio Viçoso Jardim, vizinho ao morro, que receberam desabrigados do Bumba. Outras 93 famílias foram para um condomínio no bairro de Várzea das Moças, e o conjunto habitacional Zilda Arns, no Fonseca, receberá outras duas famílias do Bumba entre suas 374 unidades habitacionais.

Segundo a Prefeitura de Niterói, 30 famílias do Morro do Bumba estão entre as 2.859 em toda a cidade que ainda recebem aluguel social e aguardam a entrega de apartamentos de programas governamentais para se mudarem. A Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, que paga os benefícios, afirma que o total é de 2.285.

Ainda de acordo com o município, neste semestre serão entregues as 372 unidades habitacionais na Rua Teixeira de Freitas, onde dois prédios foram condenados antes de ficarem prontos. Há dois anos, o condomínio assustou os futuros moradores ao serem divulgadas fotos de rachaduras em dois prédios que ainda não estavam prontos. Os blocos comprometidos foram demolidos, e o total foi reduzido de 11 para nove.

No segundo semestre, mais 1.472 moradias devem ser entregues nos bairros de Caramujo e Baldeador, e a meta da prefeitura é contratar até o fim do ano 5 mil unidades habitacionais.

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