Aos 50, médica troca carro por bicicleta elétrica: 'é como um antidepressivo'

Por BBC |

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Katia Rebello percorre de dez a quinze quilômetros por dia, entre sua casa no Humaitá e os consultórios em Copacabana

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Aos 50 anos, a médica carioca Katia Rebello adotou um novo meio de transporte. Desde abril, ela deixa o carro na garagem e vai de bicicleta elétrica para o trabalho.

Percorre de dez a quinze quilômetros por dia, entre sua casa no Humaitá e os consultórios em Copacabana e Ipanema, na zona sul do Rio.

A opção pelo modelo elétrico foi uma forma de driblar o calor. Mas ela garante que pedala. Sua bike, que custou cerca de R$ 2.000, pode ser usada de três formas: apenas na bateria, apenas no pedal e no modo misto, seu favorito.

No modo misto, a energia produzida quando ela pedala é aproveitada pelo motor, reduzindo o esforço necessário para se locomover. Assim, Katia consegue chegar ao consultório - onde não há vestiário - pronta para receber os pacientes.

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Katia optou pelo modelo elétrico para driblar o calor do Rio de Janeiro, mas garante que pedala também


A médica ginecologista conta que decidiu trocar o carro pela bicicleta para fugir do trânsito do Rio de Janeiro, poluir menos e praticar exercício. Mas ela diz que foi surpreendida por outro efeito: o novo estilo de vida fez muito bem para a cabeça, reduzindo o estresse e o mal humor. "É um comprimido de antidepressivo", compara.

Em meio à polêmica em torno da construção de novas ciclovias em São Paulo, a médica defende que mais espaços destinados ao ciclistas sejam implementados também no Rio de Janeiro.

O trajeto que ela percorre para o trabalho é quase todo coberto por ciclovias. "Quando preciso ir pela rua, me sinto com a vida ameaçada", conta.

Mais ciclovias

Eu trabalho na Rua Xavier da Silveira, em Copacabana, uma das poucas que tem uma ciclovia. Eu mesma já andei por ela de carro e pensei: "para que isso existe? Não passa ninguém aqui. Poderia passar mais um carro e fica esse inferno de engarrafamento". E aí de repente eu virei uma pessoa que anda de bicicleta e é engraçado ver pelo outro lado.

Porque o problema da ciclovia é quando não tem bicicleta. É claro que, se você está no carro e olha para um espaço inutilizado, pensa que isso está atrapalhando a sua vida.

Mas é o problema do que vem primeiro, o ovo ou a galinha. Você tem que colocar ciclovia para as pessoas poderem andar. E vai ter um momento em que vai ter ciclovia, não vai ter muito ciclista e muitas pessoas vão pensar: "para que isso está aqui só atrapalhando?".

Se tivesse um monte de gente andando, ninguém acharia essas coisas. Então, eu consigo imaginar exatamente a reação de algumas pessoas em São Paulo contra (as ciclofaixas que estão sendo construídas).

Eu acho que tem que ter mais ciclovia, pois isso permite que mais pessoas se sintam seguras para começar a andar de bicicleta. E aí, se mais pessoas andarem, vai ficar melhor, porque as pessoas vão ficar mais educadas sobre o uso da bicicleta e a convivência entre motoristas e ciclistas nas ruas vai melhorar.

Já é assim em outros países. Eu andei de bike alugada em cidades da Dinamarca e da Noruega e lá é um mar de bicicleta. O carro é a minoria.

Perigo

Eu tenho a sorte de, no meu caminho entre a casa e o trabalho, sempre ter ciclovia, ou à beira da praia ou à beira da Lagoa (Rodrigo de Freitas). Mas eu sei que quase ninguém da população tem isso.

É muito perigoso andar no Rio de Janeiro sem ciclovia. Quando vou à aula de ginástica em Botafogo, preciso ir de bicicleta pela rua e eu me sinto com a vida ameaçada. Mas eu vou porque gostei muito de andar de bicicleta, fez muito bem para mim.

Antidepressivo

É engraçado como a bicicleta me fez tão bem. E eu não sou uma pessoa atlética, eu trabalho pra chuchu, eu fico estressada, meu tempo é curto. Mas a bicicleta fez eu chegar no mesmo tempo ou mais rápido nos lugares e me faz muito bem fisicamente e também para a cabeça. É um negócio absurdo. Como médica, eu sei que exercício faz bem para cabeça, mas eu nunca pensei que pudesse ser tanto.

É um comprimido de antidepressivo. Passa o mal humor, o cansaço. É essa coisa de pegar um ventinho, de estar ao ar livre. Eu percebi que nunca estava ao ar livre. Hoje em dia todo mundo tem vitamina D baixa porque a gente passa o tempo todo dentro de quatro paredes.

Na verdade, agora, quando tenho que pegar o carro, ou porque está chovendo ou porque eu tenho levar meus filhos em algum lugar, eu acho muito ruim. Agora me sinto muito estranha dentro daquela "banheira". E penso: "O que eu estou fazendo com esse carro enorme aqui, ocupando esse espaço todo?".

A maioria das pessoas está sozinha no carro, naquele engarrafamento. Na realidade, as pessoas sofrem dentro do carro, mas elas estão ali porque não têm outra opção.

É triste, mas é real, na nossa sociedade as pessoas não se mobilizam pelo coletivo, o que no final das contas acabaria revertendo positivamente para elas. Minha escolha não é só pelo coletivo, eu ando de bike principalmente pelo meu bem-estar. Isso que é o mais incrível e o que pode mais facilmente mobilizar as pessoas.

Bike tradicional x elétrica

A primeira vez que eu pensei em usar a bicicleta para voltar do trabalho era porque eu chegava a ficar uma hora no trânsito de Ipanema até a Humaitá, que é um trajeto curto, de cerca de cinco quilômetros. O trânsito no Rio de Janeiro piorou muito nos últimos anos.

Eu pensava: "Poxa, eu podia ir de bicicleta, assim não poluiria o mundo, não gastaria dinheiro com gasolina, não me estressaria com engarrafamento e ainda faria exercício, com uma vista linda da Lagoa e da praia".

Mas com a bicicleta tradicional, eu fico melada de suor e não dá para eu trabalhar assim. Mas então apareceu a perspectiva da bicicleta elétrica e eu pensei: "Que bom! Posso ir no modo elétrico e voltar pedalando".

Em geral eu uso o modo misto. Eu pedalo e a energia gerada é aproveitada pela própria bicicleta.

Vaga, só para carro

Nada é feito realmente para bicicleta. Eu tenho um consultório alugado em um prédio comercial em Ipanema que tem uma garagem. Apesar de no meu aluguel eu ter direito a uma vaga, eu posso botar um carro, mas não posso botar minha bicicleta.

Eu tentei criar um caso, mas depois desisti de brigar. Como eu sou inquilina, não queria criar problema para o meu locador. Então eu paro na rua, tranco e rezo (para ninguém roubar).

Sem medo

Eu sempre tive essa ideia de andar de bike, mas quem me deu muita força foi uma paciente que é fonoaudióloga e usa a bicicleta elétrica para visitar os pacientes em Copacabana, Ipanema e Leblon.

Talvez quando você é jovem, você é mais audacioso, mas eu tinha medo. Eu pensava: "Será que vai dar certo? Será que as pessoas vão olhar para mim? Será que eu vou achar os caminhos?". Então ela me incentivou e eu finalmente comprei a elétrica.

Quando eu falo para as pessoas que troquei o carro pela bike, a maioria fica espantada. Um grande número acha legal e se interessa pela ideia. E tem um número que fica apavorado e que fala: "Mas, você anda na rua? Você não tem medo?". As pessoas têm medo do trânsito e de ser roubada. Há alguns anos, minha filha teve a bicicleta roubada na Lagoa. Eu nunca tive problema algum.

A polêmica das ciclovias

A prefeitura de São Paulo, comandada pelo petista Fernando Haddad, planeja construir 400 km de ciclovias até 2015, sendo metade disso ainda este ano.

Até agora 78,3 km foram implementados, elevando a rede da cidade para 141,3 km.

A iniciativa despertou críticas de alguns moradores e comerciantes das regiões afetadas, mas pesquisa do Instituto Datafolha realizada em setembro revelou que 80% dos paulistanos aprovam a novidade.

O Rio de Janeiro tem cerca de 370 km de malha cicloviária, a maior do país, e o prefeito Eduardo Paes (PMDB) promete ampliá-la para 450 km até 2016.

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