"Acreditei na pacificação, mas é de mentira", diz mãe de mototaxista morto no RJ

Por BBC | - Atualizada às

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Denize Moraes da Silva afirma ter testemunhos segundo os quais seu filho de 20 anos foi morto por agentes da polícia

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"Quando a morte bate na porta da sua casa, você começa a ver as coisas de uma maneira muito diferente. No começo eu acreditei quando se falava em UPP com objetivos sociais, colocando esportes, trazendo iniciativas para aproximar a comunidade, mas não foi isso que aconteceu. É uma pacificação de mentira. A gente não está na África nem em Israel, mas vivemos uma guerra também, e aqui no Alemão não se usa bala de borracha e não tem primeira abordagem. Aqui você morre logo."

Arquivo pessoal
Denize Moraes da Silva e o filho Caio Moraes da Silva - que foi morto durante protesto

Denize Moraes da Silva, 49 anos, nasceu e cresceu no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. A comerciante perdeu em 27 de maio o filho Caio Moraes da Silva, 20 anos, atingido por uma bala no peito quando tentava sair de um tumulto gerado por uma manifestação na favela em que trabalhava como mototaxista. A investigação ainda está em curso, mas ela acusa a polícia e diz ter testemunhas. Para Denize, o clima nas UPPs está ficando cada vez mais tenso.

"Para mim não resta dúvidas de que foi a polícia. Há testemunhas, até mostraram para o meu cunhado o policial que atirou. Foi um tiro no tórax, com a clara intenção de matar. E meu filho era trabalhador, sempre foi. Nunca tinha se envolvido com nada", afirma.

Consultada, a Delegacia de Homicídios (DH), que investiga o caso, diz que o inquérito ainda está em andamento. "Foi realizada perícia de local. Familiares e testemunhas foram ouvidos, além dos policiais militares. As armas foram apreendidas e encaminhadas para confronto balístico, e a delegacia aguarda o resultado dos laudos da perícia", informou em nota.

Ocupado há quase quatro anos pelas Forças Armadas, o complexo de favelas vive hoje o pior momento desde que recebeu quatro bases de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Com o retorno da lógica de guerra, tiroteios, entrada de tropas do Bope e do Batalhão de Choque, e uma elevação de mortes de civis e de policiais, o momento vivido pela comunidade é emblemático de uma situação que afeta diferentes unidades do programa de pacificação desde o começo do ano.

Somente nas últimas semanas a Rocinha registrou tiroteios frequentes. Nas proximidades do Complexo do Lins (zona norte) houve ônibus incendiados e trocas de tiros numa importante avenida que liga o centro à zona oeste, fechada por mais de cinco horas.

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No início da semana o corpo de um policial do Alemão foi encontrado carbonizado dentro do seu carro na Baixada Fluminense. Além disso, três policiais da UPP Jacarezinho (zona norte) estão respondendo por acusação de estupro coletivo, e a lista continua, com denúncias de abusos policiais e a elevação dos números de PMs assassinados e de pessoas que morreram em confronto com a polícia.

"O programa de pacificação no Rio de Janeiro está em crise, e não é nos últimos dias não, é nos últimos meses. Só não vê e não admite isso quem está com a responsabilidade do governo, porque a população não nega, os policiais não negam e a opinião pública também não nega", diz o sociólogo Ignacio Cano, do Laboratório de Análise de Violência da UERJ.

"É verdade que há uma situação diferente em cada unidade. Em algumas ainda há uma situação positiva, em outras há problemas já bem complicados, e em outras, como no Complexo do Alemão, há um descontrole. A situação lá está fora do controle mesmo."

Para ele, apesar do cenário mais ou menos grave em cada unidade, é indiscutível que a política de pacificação no Rio de Janeiro se encontra num momento de fortes revezes: "A questão é que o projeto foi desenvolvido para solucionar o problema em todas as comunidades, não só em algumas, e apesar de ainda haver impacto positivo em certos locais, é possível afirmar, sim, que o programa como um todo está em crise".

Para Denize Moraes da Silva, o que restou após a morte do filho foram os dois netos, de três anos e um ano, que se converteram em sua maior fonte de força. Para ela, a dor a transformou numa defensora dos direitos dos moradores da comunidade.

"Aqui todo mundo está muito desconfiado. Meu avô foi um dos fundadores do lugar onde eu moro, e a gente já viu vários períodos de violência, mas agora estou muito preocupada. Com o tráfico era difícil, mas hoje temos medo da polícia. Medo e antipatia. Tem muito morador inocente morrendo em becos, vielas, eles matam mesmo. E eu não posso me calar, tenho que ajudar a mudar essa história. Hoje sou uma outra pessoa, virei uma guerreira", conta.

Crise, desafios e tráfico
Além do retorno da lógica de guerra a algumas comunidades, a cidade tem amargado mortes de policiais, seja em serviço ou de folga. Só em 2014 já foram 73.

Já o número de "autos de resistência", como são caracterizadas as mortes de civis em confronto com a polícia, também sofreu elevação. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), houve 139 homicídios do tipo no primeiro semestre de 2014, contra 115 no primeiro semestre de 2013.

Apesar do cenário negativo e do retorno de cenas de confrontos que têm assustado os cariocas, para o coronel Frederico Caldas, coordenador das UPPs que chegou a ser ferido num tiroteio na Rocinha no começo do ano, o momento não é de crise, mas sim de "grandes desafios".

"Em março nós tivemos uma sequência de mortes de policiais no Alemão, uma crise aguda, muito pior. Numa análise do todo, das 38 UPPs, pode-se dizer que hoje a gente vive um momento de estabilidade, mas ainda com esses desafios pontuais no Alemão e na Rocinha, e que não dá para caracterizar isso como uma crise do processo de pacificação, mas sim um desafio proporcional à importância que esses lugares tiveram para o tráfico de drogas", afirma.

Caldas diz que é preciso lembrar que o Alemão é uma região muito extensa e complexa, com topografia difícil, e que até 2010 era um lugar tido como intransponível e inacessível, funcionando como o quartel-general do Comando Vermelho.

Questionado sobre os ataques recentes, o coronel diz que trata-se de uma "nova geração" de traficantes. "Especificamente no Alemão a utilização da mão de obra jovem é algo feito em larga escala. Muitos dos principais líderes foram mortos, presos ou fugiram e com isso a gente observa que houve uma renovação. Nós temos relatos dos nossos policiais, de jovens de 13 anos de idade com pistola na mão. Isso é uma tragédia social".

Quanto ao controle que o Estado detém sobre as regiões que vêm apresentando confrontos e tiroteios, Caldas admite que em alguns pontos há um "controle relativo".

Críticas, futuro e eleições

João Trajano Sento-Sé, doutor em Ciência Política e Sociologia e pesquisador da UERJ, relembra outro fator que coloca em dúvida o futuro das UPPs.

Para ele, o programa tornou-se uma bandeira política do atual governo do Rio de Janeiro, que comandou a Segurança Pública por dois mandatos. Essa lógica política acabou primando pelo que ele avalia como uma "expansão exagerada e não planejada", a ponto de afirmar que a ocupação do Alemão foi um "tiro que saiu pela culatra".

Além da crise atual e das eleições em outubro, outro desafio é iminente para o Rio: a pacificação do Complexo da Maré, ocupado pelas Forças Armadas em março deste ano, onde o Exército vem registrando fortes confrontos. Para especialistas, é preciso aprender com as lições do Alemão e da Rocinha antes de iniciar o processo na Maré.

Na visão de Trajano a ocupação do Complexo do Alemão poderia ter tido um planejamento melhor e deveria ter sido aguardada - o argumento oficial do Estado é de que a tomada do Alemão foi antecipada devido a uma onda de ataques. "Fica difícil você querer um novo padrão de policiamento, sem hostilidade, sem enfrentamento, sem violência. É até irresponsável. Acho que foi um mau passo para o programa como um todo. Surgiu esta crise", diz.

Apesar de mostrar apreensão com o futuro, Trajano diz que não vê outro modelo melhor neste momento e que acredita que as UPPs sejam "o melhor experimento de policiamento do Rio de Janeiro dos últimos 30 anos", mas que acabaram adotando uma lógica política, e não técnica.

"Por isso houve esse crescimento desordenado, para o qual a polícia sequer tinha recursos humanos para responder. Hoje em dia há setores da própria Polícia Militar descrentes do programa, então o novo governo que assumirá a partir de janeiro terá que fazer ajustes necessários para planejar essa expansão, conter um pouco o crescimento, protegendo as UPPs até mesmo do fogo amigo", diz o especialista, que não acredita que um novo governo interrompa o programa.

"Tudo o que um novo governador não precisa é a volta das altas taxas de homicídios", avalia.

Já o coordenador das UPPs, coronel Frederico Caldas, admite a necessidade de um aperfeiçoamento e de uma lógica de expansão que não coloque em risco o programa como um todo, mas cobra do governo mais investimentos em programas sociais e melhorias nas comunidades pacificadas.

"É preciso que ocorram os investimentos sociais, que sejam levados também os serviços essenciais, porque senão fica injusto demais que o policial permaneça sozinho ali sendo o responsável por tudo. Então o futuro da UPP é fazer esses ajustes no processo, avançar com a cautela necessária, para que a gente não perca a possibilidade de controle ou que os problemas se tornem tão grandes a ponto de tornar o programa como um todo muito vulnerável. Já são 9.500 policiais em 38 UPPs, e o lixo continua sendo acumulado, ainda há questões como a vala negra, a escola, a saúde, e sobretudo os empregos. É preciso que haja um futuro, uma ocupação para estes jovens, porque muitos estão sendo cooptados pelo tráfico".

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