Meu encontro com Amarildo

Por iG Rio de Janeiro - Paulo Ghiraldelli Jr |

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Para o filósofo, a população se revolta contra o sumiço do ajudante de pedreiro porque todos correm o corre o risco de sumir, risco que ronda também os governantes

Onde está Wally? Essa brincadeira ocupou muita gente, não? Achar Wally em um multidão, em um desenho – quem não foi ganho por isso?

Onde está Amarildo? Você não quer participar desse jogo? Eu garanto: não é divertido, nada a ver com Wally. Mas também não é um jogo, não é uma brincadeira, é um imperativo que conquistou muitos cariocas.

Não estamos sob ditadura, ao menos oficialmente vivemos em uma situação de normalidade democrática e, agora, com câmeras espalhadas por todo canto. As câmeras mostraram Amarildo sendo levado pela polícia. As investigações denunciam que o carro que levou Amarildo rodou vinte e quatro horas! Amarildo não voltou para casa. A compreensão profunda desse acontecimento é necessária na proporção em que é significativa a dor dos familiares do Amarildo. A família chora por Amarildo, o ajudante de pedreiro, pai e marido. Como filósofo, tento estar ao menos no mesmo patamar de dignidade dos que vestem a camisa “Onde está Amarildo”, mas sinto que devo oferecer algo diferente.

Divulgação
Manifestantes questionam governo do Rio sobre desaparecimento de Amarildo

Tenho vergonha de teorizar. A teoria, seja sociologia ou filosofia, às vezes soa como um desrespeito à vida, a todos nós. O sumiço de Amarildo é de tal modo doloroso e chocante, que a voz do filósofo, nessa hora, por não ser a voz do poeta, pode soar como um sarcasmo. Mas talvez eu realmente não teorize. Pelo tipo de mobilização que vem ocorrendo, as pessoas que estão com a camisa “Onde está Amarildo” sabem filosofia política tanto quanto nós, filósofos, talvez até mais. Sabem que o Estado tem de ser tomado como uma instância que teria sido criada para a proteção da sociedade e, então, proteção de Amarildo, o ajudante de pedreiro sem antecedentes criminais. Sabem que se o Estado, por meio da polícia, leva alguém em um carro “para averiguação”, a vida e a integridade física e psíquica dessa pessoa passa a ser diretamente responsabilidade estatal, e então responsabilidade direta da polícia e indireta da sociedade, que com impostos faz funcionar o Estado. Essa é a regra. Ela vale para o criminoso e vale para o não criminoso, ou seja, Amarildo.

Os grupos de defesa dos Direitos Humanos existem para que cada um de nós, tendo cometido delito ou não, não entre em um carro policial e desapareça, ou reapareça ferido. Esses grupos não estão contra a polícia, como os setores conservadores e indivíduos ignorantes vociferam por aí. Ao contrário, ao atuar como atuam, esses grupos tornam a própria polícia mais digna, mais respeitada e, então, mais capaz de conquistar a sociedade no sentido de aumentar os salários dos policiais e forçar os governos a tratar desses funcionários públicos de um modo cada vez melhor. Desta vez, nem foi preciso que os grupos de defesa dos Direitos Humanos começassem uma campanha, a busca de Amarildo se impôs como um imperativo ético-político. Os cariocas, individualmente, tomaram a dianteira, porque o modo como as coisas estão organizadas no Brasil, estão erradas.

Do modo como as coisas estão, cada um de nós pode ser posto em um carro do Estado, com gasolina e motorista pago por nós mesmos, e não voltar mais. Não! É preciso exigir que os que puseram Amarildo no carro o devolvam. Caso isso não ocorra, não temos mais razão de pagar para esse carro continuar rodando, pois ele é uma roleta russa. Ora, mas se não vamos mais pagar o serviço desse automóvel que de veículo policial passou a ser carro fúnebre, o que estamos dizendo é que estamos abrindo mão de termos o Estado ou parte dele funcionando. Em certo sentido, estamos falando para nós mesmos e para o governo: acabou, não queremos brincar de Wally valendo vidas e, por isso mesmo, vamos para a barbárie completa, ou seja, não temos mais razão de sustentar o Estado.

Em parte, é como se cada um de nós estivesse consciente da célebre frase de Santo Agostinho: “sem justiça não há qualquer tipo de soberania, exceto a do roubo organizado”. Então, estaríamos dizendo: se já vale somente o “o roubo (de vidas) organizado” pelo próprio Estado, talvez seja menos pior nem ter o Estado. Mas essa frase é irônica, pois não sabemos viver em uma sociedade sem Estado.

Cada camiseta dizendo “Onde está Amarildo” também está informando o governador com algo como “Meu caro, seu tempo acabou antes das eleições”. O governo é posto como governo para fazer o Estado funcionar, sim, mas funcionar bem e a favor da sociedade, não contra. Bandido ou Amarildo, qualquer um que entra em um carro policial, tem de sair dele vivo e sem escoriações físicas ou danos psicológicos. Será que o próprio governador não percebe que ele mesmo, seus familiares, estão à mercê dessa roleta russa? Não? Ele se imagina imune porque anda de helicóptero? Ninguém está imune. Quando um governante começa a acreditar que o descontrole do Estado atinge só os que pagam impostos, mas não o próprio governante, ele não está entendendo nada. O governador do Rio de Janeiro, como vários outros políticos brasileiros, não está entendendo nada. Eles não sabem que nós tivemos um encontro com Amarildo, e que este nos contou tudo, e que não somos mais os mesmos depois disso.

* Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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