''Uma mãe pode repetir milhões de vezes o que sente sem ser recriminada''

Por iG Rio de Janeiro - Waleria de Carvalho |

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Mulher que perdeu filha conta ao iG motivações para criar o grupo Mães Sem Nome, que receberá a bênção do papa

Arquivo pessoal
Márcia Noleto (à esquerda) ao lado de uma das integrantes do grupo Mães Sem Nome

Mãe de Mariana, de 20 anos, a secretária do cônsul-geral da França, Márcia Noleto, quase viu seu mundo ruir ao saber da morte da filha em 2011, vítima de um acidente de helicóptero em Trancoso, na Bahia. À época, a jovem namorava um dos filhos do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e até hoje muitas perguntas estão sem respostas sobre as circunstâncias da morte.

Para amenizar a dor da perda, Márcia Noleto, que tem outro filho, resolveu criar o grupo Mães Sem Nome. Nesta sexta-feira (26), 83 integrantes desse grupo serão abençoadas pelo papa Francisco em Copacabana.

Em entrevista ao iG, Márcia fala da importância deste ato para as mães que perderam seus filhos: “Quero que, quando uma mãe sofra a perda de um filho, alguém diga que tem um grupo de mães que faz um trabalho de acolhida e que existe um espaço para compartilhar a dor e trocar experiências”.

O Mães sem Nome surgiu em uma página no Facebook, mas agora já realiza encontros presenciais, como shows e debates. Um vídeo que será divulgado no Youtube sobre essas mães foi gravado na Praia da Joatinga, no Rio de Janeiro. Quem quiser procurar apoio, deve pedir autorizaão para entrar no grupo no Facebook.

Entenda: Mães que perderam filhos serão abençoadas pelo papa
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Leia trechos da entrevista

iG: Qual a importância da bênção do papa para as 83 mães do grupo?
Márcia Noleto: O papa traz uma palavra de esperança aos corações sofredores. Nós sofremos de saudade, sofremos com a ausência dos nossos filhos, sofremos com a impunidade, com o descaso, com os processos que duram anos e anos sem solução. Sabemos que vamos sofrer dessas dores até o último dia de nossas vidas. Francisco, com seu carisma e generosidade, renovará a nossa fé. Muitas mães perdem a vontade de viver e brigam com Deus. Estar perto do papa é poder resgatar o conceito da vida eterna.

iG: E para o grupo “Mães Sem Nome”?

MN: Tenho trabalhado muito para que o “Mães Sem Nome” seja uma referência como é o Alcoólicos Anônimos. Quero que, quando uma mãe sofra a perda de um filho, alguém diga que tem um grupo de mães que faz um trabalho de acolhida e que existe um espaço para compartilhar a dor e trocar informações e experiências. Juntas, sofremos muito menos. Esse é o princípio da caridade. Já dizia São Francisco de Assis que é dando que se recebe. Quando abraço uma mãe que sofre, recebo de volta uma energia inigualável. É a energia do amor fraterno.

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Grupo Mães Sem Nome durante encontro no Rio de Janeiro

iG: Qual é o maior objetivo do grupo?
MN: O maior objetivo do grupo é ser um espaço neutro, onde as pessoas nem precisam se identificar, se for o caso. E um confessionário virtual. Ali a mãe pode repetir milhões de vezes o que sente sem ser recriminada por isso. Ao contrário, na página, o que ela diz, é compreendido na mesma sintonia por todas as outras mães. Com o tempo, as pessoas dos nossos círculos de amizade se afastam porque não querem mais ouvir a mãe se lamentando. No “Mães Sem Nome” isso não acontece.

Arquivo pessoal
Mariana Noleto, filha de Márcia que morreu após acidente em 2011

iG: Como ele sobrevive?
MN: O grupo não tem nenhuma verba. Todos os eventos são patrocinados pelas mães. Gostaríamos muito de ter uma casa para fazer uma sede.

iG: O que mudou em você após receber o telefonema sobre a notícia do acidente com sua filha?
MN: Tudo mudou, tudo. Eu morri naquele dia. Fiquei morta por um bom tempo. Mergulhei em um processo de busca espiritual. Li livros de todas as crenças. Indaguei milhões de vezes sobre a existência de deus. Revi todos os meus conceitos. Descobri o quanto era egoísta. Para quanta coisa se dá importância inutilmente! Quantas brigas podem ser evitadas? Quantas coisas podemos evitar de comprar? Quantas coisas podemos doar? Quantos gestos de carinho podem ou deixam de ser expressados? Quanto tempo perdemos com pequenas preocupações? O mundo está gritando por mudanças. O mundo inteiro precisa rever os seus conceitos. O mundo está muito doente. Quanta guerra, quanto conflito, quanta violência, quanta corrupção, quanta injustiça...

Veja imagens da Festa do Acolhida em Copacabana

Neide Silva e Francisco na festa de Acolhida do papa Francisco. Foto: Vivian FernandezAntonio, vendedor autorizado. Foto: Vivian FernandezPaula Silva, Fernanda Matheus e Odete Souza Silva na Festa da Acolhida. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFabiane Bobeck e Simone Koscioreczko na acolhida do papa Francisco. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezItalianos ouvindo a transmissão por rádio da festa de Acolhida. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezLuis Felipe, Harlene de Jesus, Jaberson Mendes, Suellen Mara e Gilson Colares, família de Santarém/PA. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezLuis Felipe na fFesta de Acolhida do papa Francisco. Foto: Vivian FernandezA família Cristina Grivelli, João Pedro, Douglas Trindade, Valéria Maranhão e Maria Clara. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezMaria Alzira (bege) e Maria da Graça (pink) na festa de Acolhida do papa Francisco. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezNa festa de Acolhida do papa Francisco, os índios Pataxó: Pageci, Arapaú e Pagé Turê. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezFesta de Acolhida do papa Francisco, nesta quinta-feira (25), na praia de Copacabana. Foto: Vivian FernandezEmily Pereira e Natasha Reis na festa de Acolhida do papa Francisco. Foto: Vivian Fernandez

iG: Em algum momento você se revoltou?

MN: Sim, inúmeras vezes. Isso é muito normal no nosso caso. Só o tempo ajuda. Ficamos esperando que o inesperado do bem volte acontecer em nossas vidas.

iG: Em algum momento você se culpou por ter deixado sua filha fazer o passeio?
MN: Várias vezes me culpei por ter deixado ela fazer aquela viagem. Mas hoje acredito em destino e busco exercitar a “aceitação”. Busco humildemente entender que não cabe a mim, mesmo sendo mãe, traçar o destino da minha filha. Ela tinha a sua história. Não controlamos nada, por mais que pensemos que podemos protegê-los e salvá-los dos sofrimentos da vida, o caminho é individual.

iG: Você tem outro filho. Acha que é possível ser feliz mesmo com essa enorme perda?
MN: Acho que aprenderei a viver com a tristeza que eu carrego e carregarei para a vida inteira. E que terei alguns momentos de alegria. O importante é não deixar a tristeza se instalar. Isso serve para todo ser humano. Temos sempre os dois lados da moeda: a alegria e a tristeza, o bem e o mal, a esperança e a descrença.... Nossas escolhas podem mudar nossas vidas. E o livre arbítrio. Mas hoje eu sei que a felicidade passa pela simplicidade, pelo convívio com a família, pelo amor que tenho no coração e que posso distribuir para as pessoas que estão ao meu redor. A estrada da vida é longa pois é eterna, mas o nosso tempo aqui é curto. Passa muito rápido. Em breve descobrirei o grande mistério. Por isso tenho que viver o que me resta na Terra com dignidade, aceitação e saboreando delicadamente cada segundo como se fosse o último.

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