Pontífice defendeu, por exemplo, que a igreja “saia às ruas” e pediu para os jovens não desanimarem com a corrupção

O papa Francisco visitou o Complexo de Manguinhos, se reuniu com fiéis argentinos e discursou para uma multidão na praia de Copacabana nesta quinta-feira (25) no Rio de Janeiro, quarto dia do pontífice no Brasil por conta da Jornada Mundial da Juventude . O destaque, no entanto, foi para o tom político adotado pelo líder da Igreja Católica nos discursos aos peregrinos. Francisco defendeu, por exemplo, que a igreja “saia às ruas”, e pediu para os jovens não desanimarem com a corrupção. Apesar das mensagens sérias, ele também elogiou a hospitalidade carioca depois de brincar com expressões brasileiras.

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O dia do religioso começou com a visita ao Palácio da Cidade para a entrega das chaves pelo prefeito Eduardo Paes e bênção das bandeiras olímpicas e paraolímpicas, o que movimentou toda a rua São Clemente, em Botafogo, na zona sul. Na chegada, Francisco abençoou o ex-jogador da seleção brasileira de basquete Oscar Schmidt , que se ajoelhou diante do pontífice e atualmente está em tratamento contra um câncer.

Dia do papa:
Em tratamento contra câncer, Oscar Schmidt é abençoado por papa
"Sempre colocam mais água no feijão", diz papa sobre solidariedade 
“Papa trouxe bênção e asfalto para Varginha”, diz moradora da favel a
Em encontro com conterrâneos, papa pede que argentinos “vão às ruas”
Frio e chuva não intimidam e fiéis lotam Copacabana à espera do papa

Quem também aproveitou a passagem do líder religioso pelo bairro foram os comerciantes Eliana e Luiz Alberto Carvalho. Proprietários da padaria e restaurante Golden Bread, na rua São Clemente, eles tiveram motivo duplo para comemorar. Além de receberem peregrinos de todas as nacionalidades e aumentarem o faturamento também tiveram a honra de receber um aceno da santidade. ‘’Nossa, ele é uma pessoa extremamente simples. Nos passa uma mensagem de fé e esperança. Quando ele foi escolhido chorei de emoção’’, disse Eliana. Já o marido Luiz foi mais brincalhão: ‘’O Papa poderia vir aqui na rua todos os dias’’ .

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Complexo de Manguinhos

De lá, ele foi para a favela Varginha, no Complexo de Manguinhos. Sorridente e solícito com os fiéis, Francisco discursou fortemente contra as injustiças sociais e ainda passou mensagem que remeteu às manifestações.

“Vocês, jovens, têm uma sensibilidade especial diante das injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam da corrupção de pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram seu próprio benefício. Nunca desanimem, nunca percam a confiança. Não deixem que se apague a esperança, a realidade pode mudar. O homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a procurar o bem”, afirmou.

Para atrair fiéis, o papa também utilizou expressões do País como "colocar água no feijão" , citou que queria "pedir um cafézinho" e "não cachaça". "Quando planejava minha visita ao Brasil, tinha o desejo de visitar todos os bairros desse país e em cada porta pedir um copo de água fresca ou pedir cafézinho. E não um copo de cachaça", disse Francisco despertando risos entre os presentes.

Mas Varginha ganhou mais que a bênção do Santo Padre. A comunidade ganhou melhorias significativas para sua população . Segundo Jéssica Silva, de 23 anos, antes do anúncio da visita do papa, Varginha não era prioridade para as autoridades. “Vou te falar que nunca vi o campo de futebol tão cheio. Ele não deixa de ser uma celebridade, né? O melhor é que o papa vai deixar sua bênção em Varginha, mas também trouxe asfalto para as ruas, saneamento básico para as casas e até a poda das árvores, que estavam esquecidas”, explicou.

Reunião com argentinos e a Festa da Acolhida

Após deixar a favela, o papa se reuniu com cerca de 5 mil peregrinos argentinos na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Na reunião com os conterrâneos, o pontífice fez um pronunciamento que incitou os fiéis a “saírem às ruas” na Argentina. Apesar de não ter pedido abertamente manifestações contra a presidente Cristina Kirchner, o ex-arcebispo de Buenos Aires sempre foi um crítico do atual governo argentino. “Não se deixem excluir. Quero que a Igreja vá para as ruas”, pediu sem mencionar a atual presidente. O encontro com os fiéis argentinos foi um pedido do próprio papa.

Assista os peregrinos a caminho de Copacabana:

Após um breve descanso, Francisco voltou a usar o papamóvel para ir na Festa da Acolhida, que aconteceu na praia de Copacabana. Inicialmente, a celebração estava marcada para acontecer no Campus Fidei, em Guaratiba, na zona oeste, mas teve de ser transferida por conta das fortes chuvas que castigaram a cidade e deixaram o bairro completamente enlameado.

Apesar da confusão em torno do local onde iria acontecer a missa, o papa conseguiu arrastar uma multidão para Copacabana. A praia ficou lotada de fiéis, o que fez o pontífice elogiar agradecer a hospitalidade carioca e exaltar os jovens no Rio de Janeiro como “um exemplo para o mundo”.

"Sempre ouvi dizer que os cariocas não gostam do frio e da chuva, mas vocês estão mostrando que a fé de vocês é mais forte do que o frio e a chuva. Parabéns!", brincou o papa no começo de seu discurso. Depois de assistir apresentações de jovens, que encenaram a religiosidade nas cinco regiões do País, ele voltou a falar aos peregrinos. Francisco fez coro mais uma vez a um dos slogans da JMJ. "Bote fé e a vida terá um sabor novo. Bote fé, bote esperança e bote amor", disse.

"Mas o que podemos fazer? 'Bote fé'", pediu o Santo Padre, no discurso, no qual recorreu a uma imagem familiar - a preparação de comida - para expor seu pensamento. "A cruz da Jornada Mundial da Juventude peregrinou através do Brasil inteiro com este apelo. Bote fé: o que significa? Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então 'bota' o sal; falta o azeite, então 'bota' o azeite... 'Botar', ou seja, colocar, derramar."

Com reportagem de Nina Ramos, Paula Costa e Waleria de Carvalho

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