Mais de 200 pessoas fizeram protesto no Leblon, perto da casa do governador Sérgio Cabral

Manifestação no Leblon
Nina Ramos/iG Rio de Janeiro
Manifestação no Leblon

Mais de 200 pessoas realizaram protesto na zona sul do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (25). A manifestação começou no bairro do Leblon, nas imediações da residência do governador Sérgio Cabral (PMDB), que foi fortemente protegida por policiais e dois carros blindados da Polícia Militar. No entanto, o ato seguiu pela avenida General San Martin, em direção a Copacabana, onde estava o papa Francisco por conta da Festa da Acolhida. "Peregrinar, peregrinar, vamos para Copacabana", cantavam em coro.

Antes de chegar à avenida San Martin, os manifestantes passaram pela avenida Ataulfo de Paiva, perto da loja Toulon, que foi saqueada na última manifestação no bairro. No local, os participantes encenaram de forma irônica uma missa de 7º dia para os manequins da loja, que foram as únicas coisas que sobraram. Eles justificam a brincadeira explicando que para a Toulon "a única coisa que importa é o lucro". O ato não durou nem 10 minutos, mas uma moradora do bairro atirou um ovo no grupo.

O estudante Thiago Lopes, de 23 anos, foi, inclusive vestido de padre para "rezar a missa de 7º dia". "Sempre sonhei em ver o povo brigando pelos seus direitos", afirmou, feliz. Durante toda a passagem do grupo, a loja ficou protegida por policiais.

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Novo método

Hoje, a polícia colocou em prática uma nova iniciativa para conter confusões. Cinco equipes com 20 policiais cada estão usando coletes numerados atrás. Segundo o tenente-coronel que se identificou como Mauro à reportagem do iG , eles vão circular entre a multidão para evitar delitos. É a primeira vez que essa prática é utilizada desde que começou a recente onda de protestos no Rio de Janeiro.

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“Encontramos uma lacuna nas manifestações. A linha (de policiais) não evita confusões. A proximidade é necessária para prevenir delitos”, disse o tenente-coronel, que explicou que esses policiais podem evitar roubos, tumultos e identificar pessoas carregando coquetéis molotov. Os homens que vão andar entre manifestantes não estão armados.

A atriz Luiza Curvo, que participa do protesto, disse que ficou assustada em ver os policiais circulando entre manifestantes. Para ela, a identificação deveria ser pelo nome e não por números e letras. "Eu acho um absurdo a gente chegar aqui e encontrar um monte de policial sem identificação. Isso para mim não existe. Eles pedem a minha identidade se eu chego aqui e sou revistada, e eles também precisam ter a identificação deles", disse.

A resposta do tenente-coronel Mauro sobre a ausência de nomes em algumas fardas é porque não deu tempo de confeccionar as tags de velcro para botar no uniforme. A tropa diz que recebeu a nova farda na quarta-feira (24).

Algumas pessoas também foram revistadas na região. O tenente-coronel Mauro disse que a PM tem autorização para fazer isso, amparada pelo artigo 244 do código penal, que prevê revistas quando houver “fundada suspeita”.

No meio do corre-corre na General San Martin, por exemplo, o estudante João Dalvi, de 24 anos, foi revistado e teve uma faca apreendida. "Eu uso para cortar frutas na faculdade", disse, confirmando que o objeto era de sua posse. Na mochila do rapaz a PM encontrou ainda tabaco.

Policial disfarçado

O que se viu esta quinta também foi uma “patrulha” aparentemente mais poderosa para identificar quem é P2 (policial disfarçado). Rafael Vilela, de 24 anos, é um dos participantes do Mídia Ninja, grupo que transmite os protestos ao vivo pela internet, e disso que isso pode ser consequência do que aconteceu nas Laranjeiras na última segunda-feira (22), quando um estudante foi preso acusado de portar um coquetel molotov.

Isso porque, depois de ser detido, a PM negou que ele estivesse com qualquer material suspeito. Além disso, manifestantes acusam um policial militar infiltrado de ter atirado o primeiro coquetel molotov contra a barreira PMs, o que provocou a confusão ao final da manifestação.

“Nós sabemos da intenção dos P2. Não que ninguém ainda não soubesse, mas está rolando essa onda de incentivo para identificar os caras na multidão. Quem incita a violência é a polícia, e a grande imprensa compra essa discussão e apenas exibe o lado da confusão. Por isso nosso trabalho é muito forte e sem corte. Nós mostramos o que acontece do lado de dentro”, disse.

Para quem não sabe, Rafael explicou que a Mídia Ninja partiu do coletivo Fora do Eixo, que acompanha há dois anos pautas que ficam fora do holofote da grande imprensa. “Com as manifestações, a gente eclodiu. Temos muitos parceiros e o grupo cresce cada vez mais. A rede é aberta e qualquer um pode chegar”, avisou.

Gritos de guerra

Os manifestantes, durante todo o trajeto percorrido, entoaram gritos de guerra como: "O povo tá na rua, Cabral, a culpa é sua"; "Como pode, molotov foi lançado pelo Bope?" e "O Cabral é ditadura".

"Eu acho que a gente tem que lutar por nossos direitos em todas as circunstâncias, não só o direito de ir e vir, mas os direitos de ter saúde, educação, de ter transporte decente. Eu não confio em quem está governando esse estado. Acho que tudo que está acontecendo [violência nos protestos] é bizarro, é desumano, é animal, é uma ditadura. Eu acho intolerável isso. Quem tiver amor por sua liberdade precisa descer para a rua e gritar por ela, porque em lei ela já está valendo pouco", disparou a atriz Luiza Curvo.

Organizado pelo grupo "Fiscalização Popular do Governo do Rio de Janeiro", o ato desta quinta-feira pede a desmilitarização da polícia e a revisão das licitações em vigência no Estado, entre outras reivindicações. Eles também pedem explicações do governo quanto à possível participação de policiais no incitamento à violência na segunda-feira (22).

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