“Nossa língua em comum é a fé”, dizem franceses hospedados em morro no Rio

Por iG Rio de Janeiro - Nina Ramos |

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Grupo de jovens peregrinos se sente bem acolhido e já aprendeu algumas palavras em português

A premissa para ser um peregrino da Jornada Mundial da Juventude é conseguir acordar cedo sem drama. Para ser voluntário, então, é preciso pular da cama antes da cantoria do galo. A reportagem do iG encarou o desafio e participou do café da manhã de um grupo de franceses que está hospedado no Chapéu Mangueira, comunidade localizada no Leme, na zona sul do Rio.

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Voluntários preparam café da manhã para grupo de peregrinos franceses no Rio de Janeiro.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Bandeira da Diocese de Münster, da França.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Voluntários preparam 200 pães para café da manhã dos peregrinos.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Voluntários cortam e passam manteiga para café da manhã dos peregrinos.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Franceses se organizam em fila para retirar café da manhã.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Franceses retiram café da manhã do kit peregrino no pátio da igreja do Leme.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Peregrinos franceses retirando o café da manhã no pátio da igreja do Leme.. Foto: Vivian Fernandez/ iG O ponto de encontro para os jovens retirarem o café da manhã do kit peregrino é no pátio da igreja do Leme.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Grupo de peregrinos franceses em frente a igreja do Leme. Foto: Vivian Fernandez/ iG Peregrinos descem o morro para participar da catequese na igreja Nossa Senhora do Rosário.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Peregrinos e voluntários guardam colchonetes nos cantos de uma das salas da Associação de Moradores da favela.. Foto: Vivian FernandezPertences dos peregrinos franceses.. Foto: Vivian FernandezPeregrinos arrumando local onde estão hospedados no Chapéu Mangueira, comunidade localizada no Leme, na zona sul do Rio. . Foto: Vivian FernandezLocal onde peregrinos estão hospedados no Chapéu Mangueira, comunidade localizada no Leme, na zona sul do Rio. . Foto: Vivian Fernandez/ iG Priscila Magosso, 32 anos, nasceu em São Paulo, mas mora na França há cinco anos.. Foto: Vivian Fernandez/ iG Aurélia Venet, de 21 anos, faz parte do grupo de franceses.. Foto: Vivian Fernandez/ iG

Às 6h30, os 200 pães estavam cortados e com manteiga. Os voluntários aguardavam a chegada dos visitantes, que neste momento, no alto do morro, faziam fila para o banho e guardavam os colchonetes nos cantos de uma das salas da Associação de Moradores da favela. Até quem não é voluntário entrou na dança. Aguinaldo da Silva Santos, de 22 anos, é funcionário do local e tirou a semana para receber os franceses.

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“Eu sou um voluntário involuntário [risos]. Trabalho na Associação de Moradores e estou exclusivamente ajudando os peregrinos que estão hospedados na comunidade. Para mim está sendo muito bom. Eu só queria era conseguir me comunicar melhor com eles. Eu falo bem pouco de inglês, então não dá para conversar muito bem”, disse.

Àquela hora, era preciso descer o morro correndo, sob chuva fina, para participar da catequese na igreja Nossa Senhora do Rosário, que é comandada pelo pároco Frei José Almy Gomes. Antoine Fernet, padre da diocese de Beauvais, coordena os 12 rapazes que estão dormindo na associação.

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Francisco Paiva, coordenador da Nossa Senhora da Boa Viagem, define a favelacomo “grande feijoada”

“É uma experiência ótima, porque nós não conhecíamos o Brasil e só havíamos lido em revistas e jornais sobre a realidade das favelas e sobre a diferença social no País. Todas as pessoas são muito carinhosas conosco e a recepção foi muito boa”, garantiu o padre francês, que não vê problema na diferença das línguas na hora de se comunicar: “Não há problema para nós. E como estamos andando com camisetas do evento, as pessoas sabem que somos peregrinos. Eles nos ajudam, não há dificuldade na comunicação. Temos uma língua em comum que é a fé”.

Foi no pátio da igrejinha do Leme o ponto de encontro para os jovens retirarem o café da manhã do kit peregrino e ainda aproveitar um bom chocolate quente oferecido pelos voluntários. Maria Inez Nóbrega, coordenadora-geral da Nossa Senhora do Rosário, era uma das funcionárias felizes em ver o local cheio de jovens, já que a maioria dos moradores do Leme tem idade mais avançada. Para se ter uma ideia, do início do ano para cá, já foram realizadas seis missas para comemorar centenários de fiéis.

Segundo Antoine, a experiência da JMJ vai fazer com que os jovens fortaleçam sua fé. “O que estamos aprendendo aqui é a descoberta de um novo jeito de ser cristão. Esses jovens tiveram de fazer alguns sacrifícios para vir ao Brasil, porque eles gastaram muito dinheiro para estarem aqui (cerca de 2 mil euros). Na JMJ, nós podemos compartilhar as mesmas coisas com pessoas do mundo todo”, disse.

“Bonjour” e “merci”

Um dos responsáveis pela acolhida dos franceses no Chapéu Mangueira é Daniel Martins Santiago, de 19 anos. Junto com Mariana Dezemone, de 27 anos, o rapaz montou o esquema de hospedagem da paróquia do Leme. Fiel desde pequeno, esta é sua estreia na JMJ.

“Eu não sabia da existência deste evento. Ninguém nunca havia me dito, parado para contar do que se travava. Até que a Maria Inez me convidou para participar como voluntário. Só depois que fui entender o tamanho da responsabilidade que tinha em mãos. Por estar no setor de hospedagem, nós precisamos visitar e avaliar as casas de moradores da rua que se ofereceram para receber peregrinos. Como o número era baixo aqui na rua, pedi o apoio da comunidade”, contou Daniel, orgulhoso.

Estudante de Filosofia da Universidde Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Daniel disse que os peregrinos franceses estão sendo muito bem tratados na associação. E se de um lado eles já aprenderam a falar “bom dia”, “vamos” e “obrigada”, o carioca já colocou em seu vocabulário “bonjour” e “merci”. “Alguns sabem espanhol, eles entendem um pouco de português, traduzem e no final dá tudo certo. Um pouco de mímica ajuda também”, declarou.

“Eu percebo que nosso bairro tem um déficit de jovens participantes da igreja. E eu acredito que agora isso deve mudar. Os jovens que não frequentam a igreja, ou frequentam só uma vez ou outra, vão perceber a importância do movimento e vão querer se aproximar de Deus”, disse Daniel.

Tradutora e peregrina
Priscila Magosso, de 32 anos, também estava no grupo do café da manhã da Nossa Senhora do Rosário. Nascida no interior de São Paulo, ela mora na França há cinco anos e veio ao Brasil com um grupo de 19 francesas. “Eu acabei virando tradutora oficial do grupo de lambuja, mas meu objetivo é participar da Jornada como peregrina mesmo”, afirmou.

Vivian Fernandez/ iG
Priscila Magosso, 32 anos, é brasileira, mas mora na França e virou tradutora do grupo

Membro da comunidade católica Nossa Senhora da Vida, de leigos consagrados e sacerdotes, Priscila contou que a rotina anda agitada no Rio, mas que a experiência vale muito a pena. “Tenho uma vida profissional normal, mas uma vida de oração intensa. Nem sempre nós buscamos Deu no coração. E nós temos de ser testemunhas de Deus pelo mundo”, afirmou.

Já Aurélia Venet, de 21 anos, caprichou no “bom dia” para falar com o iG e não tirou o sorriso do rosto. “Estou muito contente. Conheci o Brasil e muitas pessoas do mundo todo graças a essa experiência com Deus”, finalizou.

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