“Francisco é o cara que abre portas”, diz professor sobre perfil jesuíta do papa

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Barreiro Filho diz que pontífice terá diálogo atraente aos jovens e buscará quebrar a imagem engessada da Igreja

As decisões e as práticas humildes do papa Francisco chamam a atenção desde quando foi escolhido para assumir o mais alto posto de liderança da Igreja Católica, em março deste ano. E isso desperta o interesse e voltam os olhares da imprensa internacional para o Brasil, local que receberá o pontífice em sua 1º viagem ao exterior, nesta segunda-feira (22). Com a missão de reformar o Vaticano, Francisco vem ao País com diálogo atraente aos jovens e disposto a quebrar a imagem engessada da Igreja.

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Veja as fotos dos preparativos da JMJ 2013:

Papa Francisco é recebido por comissários durante embarque rumo ao Rio de Janeiro. Foto: ReutersPapa Francisco embarca nesta segunda-feira (22) no aeroporto internacional de Roma rumo ao Rio de Janeiro. Foto: APJovens aproveitam o domingo de sol na praia de Copacabana no domingo (21), em frente ao palco onde o papa Francisco celebrará a missa de encerramento da JMJ. Foto: Associated PressJovens jogam futevôlei em frente ao palco em que o papa Francisco realizará missa em Copacabana  . Foto: Associated PressJovens católicos se encontram na praia de Copacabana, no Rio. Foto: Associated PressVendedor aproveita movimento de peregrinos na praia de Copacabana, no Rio, para vender lembranças católicas no domingo (21). Foto: Associated PressJovens carregam cruz símbolo da JMJ na praia de Copacabana no domingo (21). Ela foi entregue aos jovens pelo Papa João Paulo II, na edição de 1983 do evento. Foto: Associated PressJovens carregam cruz símbolo da JMJ na praia de Copacabana no domingo (21). Ela foi entregue aos jovens pelo Papa João Paulo II, na edição de 1983 do evento. Foto: Associated PressPúblico observa a montagem do palco que receberá o papa Francisco na praia de Copacabana, no Rio. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomTrabalhadores montam o palco que receberá o papa Francisco na praia de Copacabana, no Rio. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomVoluntários da Jornada da Juventude orientam peregrinos nas estações de trem no Rio. Foto: Fernando Frazão/ABrCerca de 600 voluntários da Jornada Mundial da Juventude atuam nas estações de trem mais movimentadas para auxiliar os peregrinos estrangeiros. Foto: Fernando Frazão/ABrFranciscanos arrumam a sala que receberá o papa Francisco, no hospital São Francisco de Assis, no Rio de Janeiro. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomFranciscanos arrumam a sala que receberá o papa Francisco, no hospital São Francisco de Assis, no Rio de Janeiro. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomJovens esperam chegada do papa Francisco no Rio de Janeiro. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomFavela da Varginha, em Manguinhos, no Rio, onde o papa irá visitar a capela de São Jerônemo. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomPolicial da UPP de Manguinhos em frente à capela de São Jerônimo. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomTuristas tiram foto em frente à imagem do papa Francisco esculpida na areia da praia de Copacabana, no Rio. Foto: SERGIO MORAES/REUTERS/NewscomVista aérea do palco na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para a visita do papa Francisco.. Foto: APOutra vista do palco construído na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para a visita do papa Francisco.. Foto: APTendas para a visita do papa Francisco a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.. Foto: ReutersTrabalhadores preparando tendas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para a visita do papa durante a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: APPreparação na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para a visita do papa durante a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: APEscultura de areia do papa Francisco feita na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.. Foto: ReutersÂngulo diferente da escultura do papa Francisco feita na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.. Foto: ReutersIgreja São Jerônimo Emiliano, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, receberá visita do papa durante Jornada.. Foto: Futura PressBanner promovendo a Jornada Mundial da Juventude na Capela de São Jerônimo, no Rio de Janeiro, que será visitada pelo papa.. Foto: ReutersInterior da Capela de São Jerônimo, no Rio de Janeiro, que será visitada pelo papa Francisco.. Foto: ReutersBanner promovendo a chegada do papa ao Rio de Janeiro na Capela de São Jerônimo, que será visitada pelo papa Francisco.. Foto: ReutersCrianças empinando pipa em cima da Capela de São Sebastião, no Rio de Janeiro, será visitada pelo Papa durante a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: ReutersCrianças em cima da Capela de São Sebastião, na favela de Varginha, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, que será visitada pelo papa durante a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: ReutersPeças de latão e banhadas a ouro que serão usadas na missa do papa na Igreja São Sebastião, no Rio de Janeiro.. Foto: Futura PressFavela de Varginha, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, que será visitada pelo papa durante a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: ReutersCampo de futebol na favela de Varginha, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, que será visitado pelo papa durante a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: ReutersVeículo que será utilizado pelo papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro.. Foto: ReutersBonequinhos do papa Francisco vendidos por R$ 5 na Cinelândia, no Rio de Janeiro.. Foto: Futura PressRelógios digitais da avenida Paulista anunciando a Jornada Mundial da Juventude.. Foto: Futura PressPreparação dos kits para os peregrinos que acompanharão o papa durante a Jornada.. Foto: Futura PressVista aérea da casa em Sumaré, onde o papa Francisco ficará hospedado durante a Jornada no Rio de Janeiro.. Foto: Reuters

“Francisco é o cara que abre as portas”, diz o professor e historiador Roberto Barreiro Filho, de 55 anos. Para ele, que estuda a história e transformações do Vaticano há mais de 20 anos, a Igreja Católica oficializará sua nova postura no Brasil com a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), encontro com a comunidade jovem católica entre os dias 23 e 28 deste mês no Rio de Janeiro. “Como já dispensou o papamóvel blindado, não me surpreenderia se ele fosse para a galera durante a entrada oficial. Ele é o povo.”

O professor acredita ainda que a Igreja passa por um momento necessário de revisão e que a saída de Bento 16 ocorreu como uma resposta para como a instituição era conduzida. “O cenário de escândalos fortaleceu a parcela progressista de cardeais [para eleger Francisco] e foi fundamental para essa linha de pensamento voltar ao poder com força. Essa linha já foi defendida por outros papas, porém permaneceu abafada.”

Célia Gennari/PUCSP
Historiador Roberto Barreiro Filho. Estuda Vaticano e Igreja Católica há mais de 20 anos

Leia trechos da entrevista:

iG: Como definir a transformação da Igreja Católica?

Barreiro Filho: A mudança na Igreja Católica é visível e ela passa por um período de revisão. A saída do Bento 16 foi uma resposta para a condução da Igreja. O que aconteceu, ao contrário do que muitos falam, não é nada inédito, já foi visto ao menos dez vezes na história da Igreja. Os casos de má administração, pedofilia e corrupção levaram o Bento 16 a sair da governança do país Vaticano. A resposta a essa revisão foi a postura daqueles que - perdida a eleições do Bento 16 - se articularam, reuniram e voltaram com força para o poder. Essa linha de que a Igreja precisa estar voltada ao seu povo foi defendida pelos papas Paulo 6º, João 23 e incialmente por João Paulo 2º.

iG: Qual a base histórica da Companhia de Jesus, ordem religiosa do papa Francisco?

BF: Para entender isso, precisamos citar Ignácio de Loyola [o fundador da Companhia, em 1534] e o movimento de criação dos jesuítas. Com o Concílio de Trento, em 1545, ocorreu uma das mais importantes reformas da Igreja. A Igreja precisou dar uma reposta ao crescimento do mundo protestante na Europa. Desse Concílio, tivemos a adoração de Nossa Senhora e a criação dos jesuítas. Loyola recuperou uma ideia que estava no passado de São Agostinho: educar e fazer com que a catequese chegasse a todos. Os jesuítas viraram a maior congregação religiosa desse período. Fantasticamente poderosos. Eles foram até o Japão e catequizaram a América, do México ao Ushuaia. Eles foram os geradores de uma cultura católica mundial.

iG: E como era a convivência entre jesuítas e a igreja?

BF: A Companhia foi vítima de vários conflitos com a Igreja e investigada pela Inquisição. O primeiro momento ocorreu quando Loyola criou o caderno de Exercícios Espirituais. Esse feito iria resultar seu primeiro julgamento. Foi classificado como herege e se defendeu dizendo que estava apenas executando sua fé. Depois começa propagar seu caderno, enfrenta um segundo julgamento. Próximo a 1450, ele segue ao Vaticano para exigir o direito de pregar. Até que consegue fundar a Companhia em 1534.

Célia Gennari/PUCSP
Barreiro Filho é professor da Universidade Aberta à Maturidade da PUC, em São Paulo

iG: Não é curioso ver um método que foi perseguido ser visto como a esperança da instituição?

BF: Esse é ponto. A Companhia foi poderosa porque propagava a ideia católica no mundo e sofreu repressões porque seu poder chegou a ser maior do que o Vaticano. Tanto é que tem a história do “papa negro” – apelido que surgiu pelas vestes pretas dos jesuítas. Em um momento da história, eles eram mais importantes que o próprio papa. Sempre houve esse “ciuminho” com os jesuítas. Houve perseguição e por isso também eles nunca foram papa. Ter hoje um líder jesuíta é um feito completamente inusitado.

iG: Quais elementos jesuítas papa Francisco está empregando?

BF: O principal é o de “levar a ideia da fé aonde ninguém levou”. Esse é o lema dos jesuítas. Todas as ações dele após a eleição surpreenderam a especialistas e fiéis. Como por exemplo, a transparência do Vaticano, a aproximação da comunhão e libertação, esse despojar com as ideias de ostentação e vetar blindagem do papamóvel. Não está chegado ao Brasil como chefe de Estado, mas como padre. Passa a imagem de que não é papa, mas está papa. São atitudes revolucionárias.

iG: Recusar papamóvel blindado não oferece riscos ao papa?

BF: Mas Pedro, Paulo e Jesus fizeram isso [a aproximação com o povo]. Mais um sinal que o objetivo de Francisco é resgatar a essência da Igreja. Ele é um cara que abre as portas. Uma ameaça [de atentado ou fanatismo] é consequência do seu ato de fé e do seu caminhar. Na Jornada Mundial da Juventude, sua segurança deve ser feita pelo próprio povo.

iG: Quais são os maiores desafios internos de Francisco?

BF: Faxina e limpeza da imagem do Vaticano. Ele mesmo adotou esse nome para assumir a inspiração em Assis, autor da 1ª reforma da Igreja. Assis mostrou que a humildade do lado pobre era a grande reforma da Igreja. Quando um jesuíta assume o nome de Francisco é dizer que ele vai levar a fé aos mais humildes. E vai mostrar isso a partir dele, sem luxos. Com a escolha do nome, o papa mostrou ao mundo para o que veio.

Mas esse mudança não virá a curto prazo. Uma vez um monsenhor me disse que a Igreja é secular. “Um dia de igreja é um século”, dizia. É complicado porque envolve uma hierarquia mundial de papa a seminaristas. No passado, a instituição levou 300 anos para entender que precisava “reformar uma coisinha”.

iG: Essas ações de combate à corrupção e pedofilia refletem o jesuíta ou o próprio Francisco?

BF: Acredito que (refletem) o próprio ex-cardeal argetino. Escolheram um cara que é o oposto completo do que estava na Igreja até agora. Mas não podemos esperar que ele seja visto usando jeans amanhã ou que apoie o aborto, o casamento de padres e a permissão do uso da camisinha. 

iG: Qual a importância da JMJ no Brasil durante esse período da Igreja?

BF: É uma grata coincidência para a instituição. A primeira grande comprovação dessa transformação ocorrerá aqui. A JMJ pode se tornar o “Sermão da Montanha” de Francisco. A mudança não será feita em um Concílio, mas será oficializada diante de jovens, os responsáveis pela renovação da Igreja. Eu não conheço melhor marketing.

iG: Como lidar com a possiblidade de novas manifestações?

BF: Com naturalidade já que é o momento que o País está enfrentando. Existe a chance de novas manifestações sim. Mas isso não deve ferir a JMJ, mas reafirmar o caráter ativo dos jovens de hoje, que buscam justiça pelo lado pobre e humilde do povo.

iG: O que os fiéis podem esperar desse encontro?

BF: Podem esperar o contato de um papa que é o povo e não precisa de barreiras. Esses católicos podem presenciar Francisco descer do papamóvel e ir para a galera. E, se ele conseguir fazer isso, ele compra aquela multidão. Como fez isso a vida inteira na Argentina, essa ação não me surpreenderia. Também não me assustaria se ele sentasse no degrau do altar durante a pregação, assim como os primeiros representantes da fé.

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