Barreiro Filho diz que pontífice terá diálogo atraente aos jovens e buscará quebrar a imagem engessada da Igreja

As decisões e as práticas humildes do papa Francisco chamam a atenção desde quando foi escolhido para assumir o mais alto posto de liderança da Igreja Católica, em março deste ano. E isso desperta o interesse e voltam os olhares da imprensa internacional para o Brasil, local que receberá o pontífice em sua 1º viagem ao exterior, nesta segunda-feira (22). Com a missão de reformar o Vaticano, Francisco vem ao País com diálogo atraente aos jovens e disposto a quebrar a imagem engessada da Igreja.

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“Francisco é o cara que abre as portas”, diz o professor e historiador Roberto Barreiro Filho, de 55 anos. Para ele, que estuda a história e transformações do Vaticano há mais de 20 anos, a Igreja Católica oficializará sua nova postura no Brasil com a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), encontro com a comunidade jovem católica entre os dias 23 e 28 deste mês no Rio de Janeiro. “Como já dispensou o papamóvel blindado, não me surpreenderia se ele fosse para a galera durante a entrada oficial. Ele é o povo.”

O professor acredita ainda que a Igreja passa por um momento necessário de revisão e que a saída de Bento 16 ocorreu como uma resposta para como a instituição era conduzida. “O cenário de escândalos fortaleceu a parcela progressista de cardeais [para eleger Francisco] e foi fundamental para essa linha de pensamento voltar ao poder com força. Essa linha já foi defendida por outros papas, porém permaneceu abafada.”

Historiador Roberto Barreiro Filho. Estuda Vaticano e Igreja Católica há mais de 20 anos
Célia Gennari/PUCSP
Historiador Roberto Barreiro Filho. Estuda Vaticano e Igreja Católica há mais de 20 anos

Leia trechos da entrevista:

iG: Como definir a transformação da Igreja Católica?

Barreiro Filho : A mudança na Igreja Católica é visível e ela passa por um período de revisão. A saída do Bento 16 foi uma resposta para a condução da Igreja. O que aconteceu, ao contrário do que muitos falam, não é nada inédito, já foi visto ao menos dez vezes na história da Igreja. Os casos de má administração, pedofilia e corrupção levaram o Bento 16 a sair da governança do país Vaticano. A resposta a essa revisão foi a postura daqueles que - perdida a eleições do Bento 16 - se articularam, reuniram e voltaram com força para o poder. Essa linha de que a Igreja precisa estar voltada ao seu povo foi defendida pelos papas Paulo 6º, João 23 e incialmente por João Paulo 2º.

iG: Qual a base histórica da Companhia de Jesus, ordem religiosa do papa Francisco?

BF: Para entender isso, precisamos citar Ignácio de Loyola [o fundador da Companhia, em 1534] e o movimento de criação dos jesuítas. Com o Concílio de Trento, em 1545, ocorreu uma das mais importantes reformas da Igreja. A Igreja precisou dar uma reposta ao crescimento do mundo protestante na Europa. Desse Concílio, tivemos a adoração de Nossa Senhora e a criação dos jesuítas. Loyola recuperou uma ideia que estava no passado de São Agostinho: educar e fazer com que a catequese chegasse a todos. Os jesuítas viraram a maior congregação religiosa desse período. Fantasticamente poderosos. Eles foram até o Japão e catequizaram a América, do México ao Ushuaia. Eles foram os geradores de uma cultura católica mundial.

iG: E como era a convivência entre jesuítas e a igreja?

BF: A Companhia foi vítima de vários conflitos com a Igreja e investigada pela Inquisição. O primeiro momento ocorreu quando Loyola criou o caderno de Exercícios Espirituais. Esse feito iria resultar seu primeiro julgamento. Foi classificado como herege e se defendeu dizendo que estava apenas executando sua fé. Depois começa propagar seu caderno, enfrenta um segundo julgamento. Próximo a 1450, ele segue ao Vaticano para exigir o direito de pregar. Até que consegue fundar a Companhia em 1534.

Barreiro Filho é professor da Universidade Aberta à Maturidade da PUC, em São Paulo
Célia Gennari/PUCSP
Barreiro Filho é professor da Universidade Aberta à Maturidade da PUC, em São Paulo

iG: Não é curioso ver um método que foi perseguido ser visto como a esperança da instituição?

BF: Esse é ponto. A Companhia foi poderosa porque propagava a ideia católica no mundo e sofreu repressões porque seu poder chegou a ser maior do que o Vaticano. Tanto é que tem a história do “papa negro” – apelido que surgiu pelas vestes pretas dos jesuítas. Em um momento da história, eles eram mais importantes que o próprio papa. Sempre houve esse “ciuminho” com os jesuítas. Houve perseguição e por isso também eles nunca foram papa. Ter hoje um líder jesuíta é um feito completamente inusitado.

iG: Quais elementos jesuítas papa Francisco está empregando?

BF: O principal é o de “levar a ideia da fé aonde ninguém levou”. Esse é o lema dos jesuítas. Todas as ações dele após a eleição surpreenderam a especialistas e fiéis. Como por exemplo, a transparência do Vaticano, a aproximação da comunhão e libertação, esse despojar com as ideias de ostentação e vetar blindagem do papamóvel. Não está chegado ao Brasil como chefe de Estado, mas como padre. Passa a imagem de que não é papa, mas está papa. São atitudes revolucionárias.

iG: Recusar papamóvel blindado não oferece riscos ao papa?

BF: Mas Pedro, Paulo e Jesus fizeram isso [a aproximação com o povo]. Mais um sinal que o objetivo de Francisco é resgatar a essência da Igreja. Ele é um cara que abre as portas. Uma ameaça [de atentado ou fanatismo] é consequência do seu ato de fé e do seu caminhar. Na Jornada Mundial da Juventude, sua segurança deve ser feita pelo próprio povo.

iG: Quais são os maiores desafios internos de Francisco?

BF: Faxina e limpeza da imagem do Vaticano. Ele mesmo adotou esse nome para assumir a inspiração em Assis, autor da 1ª reforma da Igreja. Assis mostrou que a humildade do lado pobre era a grande reforma da Igreja. Quando um jesuíta assume o nome de Francisco é dizer que ele vai levar a fé aos mais humildes. E vai mostrar isso a partir dele, sem luxos. Com a escolha do nome, o papa mostrou ao mundo para o que veio.

Mas esse mudança não virá a curto prazo. Uma vez um monsenhor me disse que a Igreja é secular. “Um dia de igreja é um século”, dizia. É complicado porque envolve uma hierarquia mundial de papa a seminaristas. No passado, a instituição levou 300 anos para entender que precisava “reformar uma coisinha”.

iG: Essas ações de combate à corrupção e pedofilia refletem o jesuíta ou o próprio Francisco?

BF: Acredito que (refletem) o próprio ex-cardeal argetino. Escolheram um cara que é o oposto completo do que estava na Igreja até agora. Mas não podemos esperar que ele seja visto usando jeans amanhã ou que apoie o aborto, o casamento de padres e a permissão do uso da camisinha. 

iG: Qual a importância da JMJ no Brasil durante esse período da Igreja?

BF: É uma grata coincidência para a instituição. A primeira grande comprovação dessa transformação ocorrerá aqui. A JMJ pode se tornar o “Sermão da Montanha” de Francisco. A mudança não será feita em um Concílio, mas será oficializada diante de jovens, os responsáveis pela renovação da Igreja. Eu não conheço melhor marketing.

iG: Como lidar com a possiblidade de novas manifestações?

BF: Com naturalidade já que é o momento que o País está enfrentando. Existe a chance de novas manifestações sim. Mas isso não deve ferir a JMJ, mas reafirmar o caráter ativo dos jovens de hoje, que buscam justiça pelo lado pobre e humilde do povo.

iG: O que os fiéis podem esperar desse encontro?

BF: Podem esperar o contato de um papa que é o povo e não precisa de barreiras. Esses católicos podem presenciar Francisco descer do papamóvel e ir para a galera. E, se ele conseguir fazer isso, ele compra aquela multidão. Como fez isso a vida inteira na Argentina, essa ação não me surpreenderia. Também não me assustaria se ele sentasse no degrau do altar durante a pregação, assim como os primeiros representantes da fé.

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