Ações desastradas, acidentes e fraudes expõem descontrole histórico do Saer

Por Raphael Gomide iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Relatórios e ação penal mostram falta de procedimentos, de segurança e fiscalização da unidade da Polícia Civil nos últimos 20 anos. Supercâmera de US$ 10 mi deu poder à equipe, mas fuzilamentos e indisciplina operacional minaram confiança junto a outros órgãos

Ale Silva/Futura Press
Helicóptero do Saer, da Polícia Civil, avariado após nova queda, em 2 de maio, no Rio de Janeiro


Fuzilamentos do alto, quedas de helicópteros, uso de carteira falsa por pilotos e de aeronave para aulas, fraudes para encobrir acidentes, empréstimos ilegais de peças para empresas privadas e ações operacionais desastradas expõem o descontrole histórico do Saer (Serviço Aeropolicial, da Polícia Civil), nas últimas duas décadas.

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O iG fez um levantamento de casos operacionais e administrativos polêmicos do Saer desde a década de 1990, e teve acesso a relatórios de acidentes e a um processo criminal que revelam que ilegalidades em operações, como os fuzilamentos revelados por vídeos este mês, não são aleatórias no Saer; ao contrário, integram uma sequência de irregularidades no órgão, desde ao menos 1993, o que denota a falta de procedimentos e de fiscalização da unidade de elite pela Polícia Civil.

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Um relatório do Sipaer (Serviço de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) publicado em 2001, sobre três acidentes de 1997, já identificava “inexistência de uma cultura de segurança de voo na organização”, “clima de informalidade e de descaso com relação à regras básicas de segurança”, “onde poucas regras existem e podem, mesmo assim, ser quebradas sem que haja sanções ou reprovações”.

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Fernando Quevedo/Agência O Globo
Carro fuzilado de Matemático

Um filme mostra a perseguição aérea e o fuzilamento do carro onde estava o traficante Márcio Pereira, o Matemático, morto por disparos de uma metralhadora MAG 7.62mm, de uso restrito das Forças Armadas. No outro, policiais civis atiram do helicóptero, desfazem o local da morte e removem um corpo até um bar, onde estariam traficantes armados e mortos, para forjar um auto de resistência.

Os episódios revelam o desgoverno do Saer, que funciona com autonomia maior que a de outras unidades da Polícia Civil, praticamente à margem da fiscalização da corporação, e alheio às diretrizes atuais da Secretaria de Segurança, cujo primeiro item da lista de “princípios e valores” é a “preservação da vida e dignidade humana”. A própria chefe de Polícia, Martha Rocha, admitiu a falta de controle e procedimentos, em entrevista, ao afirmar que “não havia protocolo de uso do equipamento nem análise das filmagens”; o subchefe operacional, Fernando Veloso, dizer que assistira a trechos editados, mas só viu o vídeo completo da morte de Matemático “no Fantástico”.

Na definição de um policial que conhece bem o órgão, “o Saer é a cara da Polícia Civil”. Outro disse ao iG que “a doutrina do Saer é não ter doutrina”.

Ação criminal mostra empréstimos de peças a empresa

Reprodução
Cautela do Saer para peça emprestada a empresa particular

Uma ação criminal sobre o Saer na Justiça que trata originalmente do empréstimo de inúmeras peças "caríssimas" de helicópteros da Polícia Civil à Riana Táxi Aéreo, empresa privada, entre 1996 e 2002, revela inúmeras outras irregularidades do órgão. Os membros do então CGOA (Coordenadoria Geral de Operações Aéreas, hoje Saer) emprestavam peças e faziam uma “cautela” a mão, sob o “título de empréstimo”, como comprovantes, diz o MP. O Ministério Público pede a condenação de dois ex-integrantes, Antônio Hermsdorff Maia e Antônio Carlos Graça. Eles alegaram que as peças eram enviadas para manutenção, apesar de os recibos relatarem “empréstimos” e do depoimento de um técnico de manutenção de aeronaves, conforme quem a manutenção era feita no CGOA (hoje Saer) e não fora.

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Segundo o MP, os dois desviaram “diversas peças de helicópteros em proveito de empresas de táxi aéreo privada sem qualquer contraprestação para o Estado e comprometendo a manutenção das aeronaves, eis que as horas de voo particulares não tinham qualquer tipo de controle/contabilização”. Para o MP, “como fartamente noticiado nos autos, as diversas irregularidades perpetradas pelos denunciados no comando do CGOA colocaram em risco as atividades daquele departamento, valendo-se ressaltar que o empréstimo das peças vulnera por completo a manutenção das aeronaves, eis que esta é contada por horas de voo, sendo as circunstâncias e motivos do crime inteiramente danosas e reprováveis.”

Assistente sem carteira de voo pilotava e destruiu helicóptero que caiu

Reproduação
Cópia de carteira falsa de funcionário sem habilitação para pilotar helicóptero do Saer, nunca checada

Ao longo do processo, porém, ficam evidentes as muitas irregularidades no serviço aéreo da Polícia Civil, a partir da década de 90. Um caso flagrante de descontrole foi a queda de um helicóptero AS 350 BA, após decolar, em novembro de 1997, com “danos materiais graves” à aeronave, de R$ 2,1 milhões (valor atualizado).

No comando, embora sem formação de piloto e com carteira falsa - nunca verificada -, estava o assistente do CGOA, José Carlos Nogueira. Apesar de não ser qualificado, Nogueira integrava a escala de pilotos de operações. Ao seu lado, o piloto não era qualificado como instrutor de voo, portanto não podia fazer voo em comando duplo; a bordo, ainda estava um servente, para um passeio em missão operacional, o que é proibido.

O resultado foi a destruição da aeronave, com “danos irreparáveis no rotor principal, cone de cauda, trem de pouso, estabilizadores, rotor de causa e assento dianteiro traseiro”, além de gravemente danificados a transmissão principal, a estrutura e a cabine”. Para piorar, afirmou o Saer, “a organização agiu no sentido de acobertar os verdadeiros fatos, coagindo tripulantes, emitindo documentos com uma versão falsa do acidente, removendo os destroços do helicóptero do local e retirando as evidências de que o aparelho estaria sendo operado duplo-comando e por pessoa não qualificada”, afirmou o Sipaer.

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Mais acidentes, morte e furto de ferramentas

Reprodução
Documento interno do Saer trata de sumiço de ferramentas

Em 98, em outro acidente, um detetive morreu em descida de rapel de um helicóptero do CGOA durante treinamento. Em abril de 2002, um gancho de transportes de carga abriu acidentalmente durante voo. Em 27 de dezembro do mesmo ano, o diretor de apoio aéreo Antônio Carlos Graça, informa ao CGOA em documento que tinha desaparecido cinco ferramentas e “ferramentas especiais dos helicópteros FH-1100”. Esse tipo de situação não era novidade no órgão. Documento de 1993 já informava “a falta e a troca de ferramentas por outras de qualidade inferior”.

Em agosto de 2002, a Corregedoria Geral Unificada instaurou investigação sobre “diversas irregularidades no CGOA, tais como desvio de material, com conivência da Coordenação e Assessoria, (....) falhas na manutenção de aeronaves, (...) acidente com um guarda-vidas há dois anos, que um indivíduo identificado como José Carlos Nogueira teria permissão do coordenador para treinar nas aeronaves”.

Operação da Favela da Coreia

Na área operacional, o problema era semelhante. Em 2007, outra operação do Saer, na favela da Coreia (zona oeste), provocou polêmica. Uma filmagem da TV Globo flagrou o assassinato, a tiros de fuzil, de dois homens que corriam em fuga, desarmados, da perseguição de policiais no helicóptero. Foram cenas parecidas com as exibidas na morte de Matemático e de outros cinco homens, na favela do Rola, quando mudam o corpo de lugar para simular auto de resistência de ao menos um homem, que não tinha arma consigo.

Supercâmera e operação Marcelinho Niterói

Agência O Globo
Marcelinho Niterói, morto em ação do Saer, quando preso no Paraguai, em 2006

Em 2010, a Polícia Civil ganhou da PM uma disputa política interna na Secretaria de Segurança e assegurou ao órgão o uso de uma supercâmera de US$ 10 milhões, com capacidade para filmar com precisão a mais de 4 km de distância, a única da Seseg. A mesma câmera que daria poder ao Saer e o tornaria mais relevante para operações interagências gravaria a morte de Matemático e geraria a crise que derrubou o coordenador, Adonis Lopes de Oliveira.

Mas foram a atuação operacional desastrada, o excesso de iniciativa e o desrespeito ao planejamento operacional do Saer que irritaram parceiros, queimando pontes e desgastando sua imagem externamente. Em novembro de 2011, a Polícia Federal, após sofisticada investigação da área de inteligência, localizou o traficante Marcelo da Silva Leandro, o Marcelinho Niterói, e solicitou o apoio aéreo do Saer para uma delicada operação de prisão. O criminoso, braço-direito de Fernandinho Beira-Mar e principal fornecedor de drogas do Comando Vermelho, atuava no Complexo da Maré, cercado por dezenas de seguranças.

Reprodução
Usada pelo Exército dos EUA, metralhadora MAG, exclusiva das Forças Armadas, foi empregada para matar Matemático

A parte tática caberia ao Bope, da Polícia Militar. O Saer apenas apoiaria com imagens a ação, cujo objetivo era capturar o criminoso, pela relevância de suas informações. Apesar da função de observação, o helicóptero do Saer, diferentemente do planejamento, antecipou-se às equipes policiais de terra, avançou, e matou Niterói. Desde então, a PM e a PF passaram a evitar, quando possível, o apoio do Saer.

Na morte de Matemático, novamente tratava-se de operação do 14º Batalhão da PM, com apoio do Bope. A antecipação voltou a ocorrer e mais uma vez a equipe do helicóptero matou o criminoso, em vez de passar as informações da câmera para os policiais em terra, como previsto. Em entrevista ao Fantático, o próprio Adonis admite que “o combinado era o 14º Batalhão prender Matemático”, mas alega que a equipe foi alvejada e reagiu – diferentemente do que mostra a filmagem.

Confusão, disputas internas de poder e queda de mais um helicóptero, este mês

Reprodução
Helicóptero do Saer pousou na praia de Copacabana para prender suspeitos

Em dezembro de 2011, o Saer protagonizou mais uma confusão. Alunos da Academia da Polícia Civil (Acadepol) treinavam tiro no estande da corporação quando uma equipe no helicóptero disparou contra um barranco no local. Os tiros foram próximos ao lugar onde estavam os alunos e provocaram correria e medo. A diretora da Academia considerou a ação imprudente e temerosa e fez reclamação formal.

Em junho de 2012, mais uma ação pouco ortodoxa: o helicóptero desceu e pousou na areia da praia de Copacabana para deter dois suspeitos.

Ao longo dos anos, sempre houve rivalidades internas, como identificado em relatório do Sipaer sobre acidente de 97, publicado em 2002, na Revista Sipaer. “Verificou-se também a falta de integração entre os diversos grupos que constituem a organização, uma vez que possuem formações diferentes e se colocam frequentemente em clima de rivalidade e conflito de interesses”, diz o relatório.

Recentemente, o Saer vivia uma disputa política interna, exposta pela divulgação dos vídeos. O chefe do órgão por muitos anos, Adonis Lopes de Oliveira, 49 anos e 27 na polícia, havia afastado em julho de 2012 o piloto Ronaldo Ney Barboza Mendes, 60. Nos últimos meses, sofria pressão de superiores para reincluir na escala Ney, em funções administrativas na Core. Adonis não aceitou e soube que o órgão receberia uma intervenção, com a designação de um delegado.

Reprodução/O Dia
Helicóptero do Saer que caiu em 2 de maio

Em 26 de abril, pediu exoneração. No dia 2 de maio, a queda de um helicóptero do Saer, em treinamento, deixou cinco feridos, um deles, Cláudio Cobo, em estado grave.

Segundo a Polícia Civil, Adonis só foi afastado oficialmente por Martha Rocha em 6 de maio, dia seguinte à divulgação no Fantástico do vídeo da morte de Matemático, quando era o comandante da ação. Nesse dia, assumiu o delegado Pablo Sartore.

O piloto Ronaldo Ney também é investigado, desde 25 de abril, pela 32ª Delegacia de Polícia (Taquara), por suspeita de vender aulas de pilotagem irregularmente, “mas não há informação de que aeronaves do Saer eram utilizadas”, disse a polícia.

Polícia Civil determina correição e cria protocolo para supercâmera do Saer  

No dia 13, após outro vídeo de operação, na Favela do Rola, ser divulgado, a Polícia Civil informou que a chefe, Martha Rocha, determinou uma correição da Corregedoria Interna no Saer, com produção de relatório. No mesmo dia, houve inspeção no órgão.

Isabela Kassow
Martha Rocha reconheceu erros e determinou correição no Saer

Martha Rocha, também condenou o procedimento das ações de Matemático e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) com o Saer, na Favela do Rola. “A Chefia de Polícia Civil não compactua com erros nem excessos que terão punição exemplar, a partir do trabalho da Corregedoria Interna da Polícia Civil. Para dar agilidade ao caso, a Corregedoria também assumiu a investigação dos cinco homicídios provenientes de auto de resistência. Laudos periciais e depoimentos serão analisados com rigor, assim como o tipo de armamento utilizado, o socorro aos feridos e a não preservação do local do crime. O papel do policial é proteger vidas e agir dentro da lei. O princípio da Polícia Civil é prender e não matar”, afirmou, em nota.

Em resposta ao iG, a assessoria de imprensa da polícia informou que Martha Rocha “já admitiu que houve falha por não haver um mecanismo de controle das imagens”. Uma comissão foi criada para estabelecer, em 30 dias, protocolos e diretrizes para a “captação, armazenamento e análise das imagens captadas pelas câmeras dos helicópteros da Polícia Civil”.

O iG ligou para Antônio Hermsdorff Maia, mas o telefone tocou e ninguém atendeu. A reportagem não conseguiu contato com Antônio Carlos Graça, outro réu na ação penal sobre empréstimo de peças de aeronaves, e deixou recado em telefone celular da Riana Táxi Aéreo, mas não teve resposta. 

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