Vídeo da morte de Matemático não era segredo para Polícia e autoridades do Rio

Dezenas de pessoas, da Secretaria de Segurança e de outras forças, já haviam assistido a imagens do helicóptero mostrando morte a tiros do traficante. O próprio piloto e comandante da operação, Adonis Lopes de Oliveira, agora afastado das funções, exibiu a muitos

Raphael Gomide iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

Fernando Quevedo/Agência O Globo
Carro onde o corpo do traficante Matemático foi achado, após ser atingido por tiros do helicóptero da Polícia

O vídeo do helicóptero da Polícia Civil que mostra a morte a tiros do traficante Márcio José Sabino Pereira, o Matemático , não era segredo nem desconhecido entre as autoridades de Segurança Pública do Estado nem dentro da Polícia Civil. Inúmeras pessoas da corporação e da Secretaria de Segurança já o haviam assistido antes de o Fantástico, da TV Globo, revelar as imagens de policiais metralhando o carro de Matemático. Para muitos, houve uma "execução".

Leia mais: Civil matou Matemático com metralhadora Mag 7.62mm, restrita às Forças Armadas

Divulgação
Matemático tinha contra si onze mandados de prisão por tráfico e homicídios

Desde maio do ano passado, poucos dias depois da operação, dezenas de pessoas já tinham visto o vídeo, muitas vezes exibido pelo próprio piloto e comandante da operação, Adonis Lopes de Oliveira, agora afastado das funções pela cúpula da Civil, depois da divulgação.

Leia mais: MP pede que inquérito sobre morte de Matemático seja desarquivado

Policiais civis afirmam que as filmagens de toda operação aérea relevante é sempre assistida pelas cúpulas da Polícia Civil e da Secretaria de Segurança.

É essa suposta "hipocrisia" dos superiores que está gerando grande indignação e contrariedade entre os policiais as reações da chefe de Polícia Civil, Martha Rocha - que classificou a operação de "desproporcional" e afastou Adonis -, e do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, segundo quem o "setor especializado nessas ações tem que dar uma resposta à sociedade e quem teve a responsabilidade de agir tem que ter a responsabilidade de arcar com as consequências".

Os tiros foram disparados com uma metralhadora MAG 7.62mm, de uso restrito às Forças Armadas. Dois interlocutores da equipe aérea da Polícia Civil informaram que o armamento teria sido emprestado pela Marinha do Brasil, embora a corporação não tenha autorização para empregá-la. A Polícia Civil informou que apura o uso irregular da arma.

Adonis foi advertido a não exibir o vídeo

Após mostrar as imagens a algumas pessoas, Adonis chegou a ser advertido por superiores de que não deveria mais fazê-lo, por conta do risco de vazamento para a imprensa.

A essa altura, muita gente já tinha assistido ao vídeo, e alguns o haviam até copiado, de forma que as imagens originais saíram do controle dos seus "donos" iniciais, a equipe de ataque do helicóptero, comandada pro Adonis.

Reprodução
Usada pelo Exército dos EUA no Iraque, a MAG foi empregada para matar Matemático

Ainda nos meses de maio e junho de 2012, o iG já tinha conversado com ao menos cinco pessoas de instituições diferentes que tinham assistido às imagens: uma da PM, uma do Ministério Público, uma da Polícia Federal e duas do Exército Brasileiro, inclusive em outro Estado.

Mais recentemente, em 2013, esse vídeo era difundido até entre alunos do curso de formação da Acadepol (Academia de Polícia Civil). "Geral já tinha visto", contou um policial ao iG .

Nas redes sociais, é latente, em posts no facebook, a hostilidade de policiais civis e até de policiais militares em relação à reação de Martha Rocha, de Beltrame e também à reportagem da TV Globo. Um grupo de policiais civis agendou para a tarde de sexta-feira um protesto em frente à sede da emissora, no Jardim Botânico.

Segundo polícia, Martha Rocha só viu vídeo após receber da Corregedoria

A assessoria de comunicação da Polícia Civil afirmou que as imagens não tinham chegado à época ao conhecimento da chefe de Polícia Civil, Martha Rocha, que só as viu após serem encaminhadas à Corregedoria Interna - à Globo, ela disse que isso ocorreu há 15 dias. A Corregedoria Interna está apurando o caso, que deve estar concluído em 30 dias.

O iG enviou uma série de perguntas à Secretaria de Segurança, que não as respondeu. A asessoria reafirmou nota de domingo: "O secretário, José Mariano Beltrame, entende que há um setor especializado nessas ações que tem que dar uma resposta à sociedade. Quem teve a responsabilidade de agir, tem que ter a responsabilidade de arcar com as consequências".

A reportagem também enviou e-mail à Marinha do Brasil, para saber se houve empréstimo formal do armamento FN MAG 7.62mm. O Centro de Comunicação informou que já está apurando o caso e deve ter uma resposta nesta quarta-feira.

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