Desabrigados da enchente de Xerém: 'Não temos para onde ir'

Por Bernardo Besouchet - iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Quatro meses após tempestade, vítimas ainda padecem com falta de obras; iG visita a área, flagra esgoto a céu aberto e conversa com moradores que se recusam a sair da localidade

Nesta sexta-feira (3), terão se passado quatro meses desde a tempestade que destruiu diversas casas, deixou 3 mortes e 350 famílias de desabrigados no pequeno distrito de Xerém, município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

Sem infraestrutura adequada para suportar a força das águas, com montanhas de lixo acumuladas nas encostas, além de diversas construções irregulares que não respeitavam as faixas marginais de proteção dos rios, o cenário de tragédia, que estava desenhado, se tornou uma triste realidade.

Após quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo BesouchetCasa provisória do pinto Márcio Soares, 32 anos, no mesmo terreno em que sua antiga residência foi destruída. Foto:  Bernardo BesouchetÂngela Maria da Cunha, de 58 anos, perdeu não somente todos seus móveis, mas também seu bar. Foto:  Bernardo BesouchetÂngela alerta que a região já sofre doenças por causa da falta da presença de ações de recuperação da área.. Foto:  Bernardo Besouchet"Quem ficou aqui não tem para onde ir”, argumenta Ângela. Foto:  Bernardo BesouchetPrefeito de Duque de Caxias disse que poucas mudanças acontecerão enquanto o curso do rio não for estudado plenamente. Foto:  Bernardo BesouchetA única mudança, de acordo com o prefeito, será o início de construção de uma ponte nova em cerca de 15 dias. Foto:  Bernardo BesouchetA estrutura da ponte provisória, que funcionou nesses meses de maneira precária, é compartilhada por automóveis e moradores. Foto:  Bernardo BesouchetApós quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo BesouchetApós quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo BesouchetApós quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo BesouchetApós quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo BesouchetApós quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo BesouchetApós quatros meses da tempestade que deixou 3 mortos e 350 famílias desabrigadas, Xerém ainda vive sob cenário de tragédia. Foto:  Bernardo Besouchet

E mesmo tanto tempo depois, a verdade é que o cenário de destruição infelizmente não está presente somente na lembrança das pessoas. Pouca coisa foi feita até agora. Ou melhor, praticamente nada foi feito até agora.

O prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso, disse ao iG que poucas mudanças acontecerão enquanto o curso do rio, que se modificou com a tempestade, não for estudado plenamente e, consequentemente, um plano diretor de ação que envolva rio, solo e urbanização não for aprovado.

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Assista abaixo ao vídeo:

“Não é a prefeitura quem está desenvolvendo o processo de reurbanização. Contratamos a Unigranrio e a Uerj para desenvolver isso. E eles farão a primeira apresentação do projeto no fim de maio. Ainda tem a questão de estudo do solo, da mudança na bacia dos rios. Não existe como fazer um novo plano diretor para Xerém assim. Isso não se faz em seis meses. E enquanto não houver, não haverá construções sem o plano diretor. Nem mesmo o MP permitiria”, alega o prefeito.

A única mudança, de acordo com Alexandre Cardoso, será o início de construção de uma ponte em cerca de 15 dias. A estrutura, que funcionou nesses últimos três meses de maneira precária, atualmente é compartilhada por automóveis, ciclistas e moradores e funciona em uma única pista que tem o sentido invertido à base de um semáforo.

O prefeito informa que obteve verba de R$ 12 milhões para a reconstrução da ponte, oriunda do Ministério de Integração Social, mas revela que pediu para reprogramar o gasto, pois o orçamento ficou cerca de três milhões mais barato.

“A ponte já foi contratada. Dos R$ 9 milhões que é o custo total, R$ 4 milhões já foram depositados pelo Ministério. Vamos pagar a primeira parcela quando nos apresentarem a mediação”, informa Cardoso,

Sem ter para onde ir

Além dos problemas com a ponte provisória, os moradores também enfrentam o esgoto a céu aberto, focos do mosquito dengue e muito lixo. Apesar dos riscos, várias famílias se recusam a deixar a área. Alegam que não têm para onde ir. É o caso do pintor Márcio Soares, de 32 anos. morador da região de Cachoeira, que disse ter resgatado cerca de 20 pessoas e cinco cachorros no dia da tempestade.

Márcio vive com sua mulher e uma filha de 15 anos, que está gravida de sete meses, numa casa improvisada e construída por ele mesmo. Está recebendo o aluguel social no valor de R$ 500,00, assim como outras 308 famílias de acordo com dados citados pelo prefeito.

Ele conta que pretende deixar a região apenas quando a Prefeitura de Duque de Caxias indenizá-lo pelo terreno no qual construiu sua casa e que hoje não passa de destroços.

"Não estou aqui porque quero, mas sim por não ter para onde ir. Até ofereceram um apartamento em que terei de pagar um valor mensal por ele. Não posso pagar para morar. Construí minha casa e se querem que eu me mude daqui, que me indenizem. Aí sim poderei escolher para onde ir. E não para onde querem me jogar, que é uma área ruim” protesta Márcio, que na parede de sua casa provisória, no mesmo terreno em que sua antiga residência foi destruída, pintou sua confiança expressa pela frase: “Família Soares perde tudo! Menos a fé!”.


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Para fazer a remoção dessas pessoas que se recusam a sair de suas casas, a Prefeitura de Duque de Caxias, de acordo com Alexandre Cardoso, vai se apoiar em um decreto estadual que determina que exista uma faixa marginal de proteção dos rios que varia conforme o terreno e a área analisada, mas que, na maioria dos casos, é de cerca de 30 metros.

Ainda segundo o prefeito, os erros são das gestões anteriores por permitirem as construções nessas áreas sem a devida fiscalização.“São erros de dez ou 20 anos atrás. Não podiam ter permitido as construções. Eles fizeram. Agora estamos tentando corrigir tudo isso de forma abrangente. Tudo que estamos fazendo tem sido em parceria com o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e com o Ministério Público”, afirmou Cardoso.

“Foi surpresa não ter morrido mais gente”

O diretor de recuperação ambiental do Inea, Luiz Manoel de Figueiredo Jordão, acha que a questão de invasão da faixa marginal de proteção dos rios é um péssimo hábito cultuado em todo o país e não apenas em Xerém.

O Inea, ainda de acordo com Jordão, vem agindo na demolição de casas e no trabalho de proteção ao rio. Para ele, o volume de água proveniente da tempestade poderia ter causado tragédia ainda maior.

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“Foi surpresa não ter morrido mais gente pelo volume de metro cúbico de areia e de água que desceu. Isso é uma conta do passado e chegou a hora de ser paga. Lixo, falta de educação, falta de conhecimento das leis. Uma hora aconteceria. Aconteceu!”, lamenta o diretor, revelando ainda que a contratação da empresa para fazer o cadastramento das famílias que recebem o aluguel social foi feita pelo Inea.

Focos de dengue preocupam

Enquanto Prefeitura aguarda que a Unigranrio, universidade conveniada para desenvolver o plano de reurbanização da área, faça uma primeira apresentação de seu projeto – que acontecerá apenas no fim de maio–, e o Inea apresente uma solução sobre o novo curso do rio, as obras terão de esperar, pois, para que sejam aprovadas as verbas pelo Ministério de Integração Social, é preciso a aprovação da viabilidade deste projeto. Com tamanha espera, quem sofre com a burocracia é a população.

Outra moradora da região, Ângela Maria da Cunha, de 58 anos, perdeu não somente todos seus móveis como a única fonte de renda de sua família: seu bar que funcionava na rua Domingos, que hoje existe apenas pela metade. A outra parte da rua foi levada pela água. Ela reclama da falta de ação dos governantes e alerta que a região já sofre doenças por causa da falta da presença de ações de recuperação da área.

“Não estão fazendo quase nada. Só nos deram o aluguel social. Não tenho visto fazerem nada além de demolir casa. Já tivemos alguns casos de dengue aqui na vizinhança e o que eles estão esperando para começarem as obras? Uma nova chuva para que todos nós sejamos levados? Quem ficou aqui não tem para onde ir”, argumenta.

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