Guia Gastronômico apresenta comida com personalidade em favelas do Rio

Por Raphael Gomide iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Chefs carismáticos fazem culinária de qualidade em cantinhos com charme, entre vielas e lajes, em comunidades pacificadas da cidade

Marcos Pinto/Divulgação
Adriana usa o carisma e paródias de funk para vender suas empadas no Complexo do Alemão

Com o programa de pacificação do Rio, os cariocas romperam a cidade partida e passaram a circular mais livremente em espaços antes considerados fora dos limites de segurança, devido ao domínio de favelas por traficantes armados. Ao começar a gravar um documentário sobre esses locais, o cineasta Sérgio Bloch, um apaixonado por comida, buscou lugares charmosos e com comida boa para se alimentar durante as gravações.

Encontrou sabores surpreendentes, e a procura inspirou o “Guia Gastronômico das Favelas do Rio”, o terceiro livro em parceria com a jornalista Ines Garçoni, responsável pelas entrevistas e textos, e o fotógrafo Marcos Pinto, autor das fotos – os outros são duas edições do Guia Gastronômico de Comida de Rua. “Acabei descobrindo que era possível encontrar coisas boas nas próprias favelas”, deu-se conta Bloch.

Marcos Pinto/Divulgação
O pernambucano Glimário faz carnes exóticas, como rã e avestruz em plena Rocinha

Provavelmente pela profissão, a produção do livro teve um processo semelhante ao daquela de um documentário, com pesquisa, entrevistas para valer, a partir da seleção inicial dos produtores e prazos apertados. “Sérgio concebeu e editou como se estivesse fazendo um filme”, contou Ines.

A equipe de produção visitou 97 estabelecimentos nessas oito favelas pacificadas – entre restaurantes, bares, biroscas e “lajes”, terraços. Há de tudo, de botecos com pastéis deliciosos a japoneses comandados por nordestinos e até a carne de caça, com sabores exóticos, como javali, capivara e avestruz, que brotam de um “freezer mágico” do Glimário, em plena Rocinha, a maior favela do Brasil. Há dicas no Morro da Providência, Santa Marta, Tabajaras, Chapéu Mangueira, Vidigal, Rocinha, Morro dos Prazeres e Complexo do Alemão.

Mas para fazer parte do livro, não bastava ter uma comida gostosa e ficar em uma ladeira, rua ou beco de favela pacificada. Para os autores, era fundamental que os estabelecimentos fossem de fato operados por “crias” locais, abrissem com frequência e não só ocasionalmente, dependendo do humor do dono, além de serem em comunidades seguras, que não exponham a risco os leitores/frequentadores. 

Mas um fator crucial, como nos documentários, era o carisma e a personalidade do proprietário. Precisava ter um sorriso aberto, como o de Fábio Freire, do BarLacubaco, no Vidigal, apelido e cara de craque de futebol, como o cearense Garrincha – dono de restaurante de comida nordestina, na Rocinha – ou ter uma laje.

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Marcos Pinto/Divulgação
Sanduíche "big favela", de Jorge Ribeiro, sucesso no Alemão

"Precisa ter um bom personagem, com uma história interessante, ser de 'raiz' e estar estabelecido há algum tempo", explicou a paulista Ines, autora também do livro "100 anos de Botequim, a história de vida do inventor do Bar Urca". 

Outro hit são as lajes com vistas impressionantes da Cidade Maravilhosa, como a histórica “laje do Michael Jackson”, onde o cantor gravou clipe em 1996, ou a laje do César, no Morro da Babilônia, vizinho do Chapéu Mangueira, no Leme.

As fotos do livro trazem humor, como a de Henricão, vendedor de cachorro-quente em barraquinha, “carrasco” ao lado de dois cães; a da “cara de pau” Tia Léa, de mãos na cintura; ou a de Adriana do Complexo do Alemão, anunciando em plenos pulmões suas empadinhas, de jaleco impecavelmente branco e isopores térmicos nas mãos. Para vender os quitutes, Adriana canta paródias de canções de funk, enquanto a molecada local faz passinho.

Há os já conhecidos, como o Bar do David, terceiro lugar em concurso de comidas de botequim com o tropeiro carioca. Mas em geral, são lugares com pouco estrutura e muita cor local, seja a comida caseira e familiar – como feijoada, frango à passarinho ou bolinho de abóbora – ou mais sofisticada, como sushi, codorna ou carne de rã.

Guia de territórios retomados pelo Estado e pela cidade – que patrocinaram o projeto –, o livro conta ainda a história das favelas e traz texto em inglês, ao final, para apresentar os points também aos gringos e permitir que desfrutem desses lugares menos turísticos do Rio.

Marcos Pinto/Divulgação
Laje do César no Chapéu Mangueira, no Leme


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