Laudo do Inea aponta contaminação cancerígena em bairro de Volta Redonda

Por Raphael Gomide iG Rio de Janeiro |

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Reportagens do iG revelaram que MPF movia ação contra a CSN, que doou o terreno para o Sindicato de Metalúrgicos, depois de a área ter sido um depósito de resíduos perigosos

Helio Motta
Meninos caminham em praça, em Volta Grande 4, bairro contaminado de substâncias cancerígenas

Um laudo do Inea (Instituto Estadual do Ambiente) constatou a contaminação, com substâncias cancerígenas, do terreno onde fica o bairro Volta Grande 4, em Volta Redonda, área doada pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) ao sindicato de trabalhadores. Segundo o estudo, há ainda substâncias perigosas, como os metais pesados cádmio e cromo total e ascarel, cancerígena.

Leia mais: Vazamento de resíduos da CSN atemoriza bairro em Volta Redonda

Há 770 famílias morando no local. O iG revelou o caso em 2011, mostrando que o vazamento de resíduos perigosos de depósitos irregulares da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) contaminou o bairro inteiro e causava medo e insegurança aos moradores. O Ministério Público Federal, que move ação sobre o caso, afirmava existir ameaça à saúde dos moradores do bairro e cobrava da CSN estudos de risco, por serem desconhecidas as possíveis consequências para a saúde da população. Por conta do problema, os habitantes não plantavam para consumo nem captavam água subterrânea no local.

Reprodução
Área contaminada de Volta Grande 4, segundo Inea

Há mais de 2 mil moradores no bairro, cuja área é de 255 mil metros quadrados. O local com maior grau de poluição ocupa terreno de 10 mil metros quadrados.

O iG mostrou ainda que o MPF pede condenação da CSN ao pagamento de R$ 87,1 milhões – R$ 43,5 milhões por dano extrapatrimonial e R$ 43,5 milhões por danos ambientais coletivos, considerados irreversíveis, e pelo funcionamento do depósito sem licenciamento ambiental entre 1986 e 1999. O procurador da República Rodrigo Lines, desistiu de tentar um acordo extrajudicial com a empresa, após tentativas de fazer com que a CSN assumisse responsabilidade pelo local.

Leia ainda: CSN manteve quatro lixões tóxicos clandestinos por duas décadas

Segundo a Secretaria de Saúde, a CSN pode ser multada em até R$ 50 milhões. Uma reunião na segunda-feira entre o secretário Carlos Minc e a direção do Inea vai definir o montante.

A Secretaria Estadual do Meio Ambiente recomenda que as 750 famílias deixem suas casas no bairro imediatamente, devido ao alto risco de contaminação tóxica. O Inea pede à Justiça estadual que a CSN remova as substâncias tóxicas do terreno, descontamine o solo e apresente estudos técnicos. O laudo deve ser anexado ainda ao processo movido pelo MPF, na esfera federal.

CSN tinha licença apenas temporária para depositar resíduos perigosos, diz MPF

De acordo com o MPF, a CSN tinha licença apenas temporária da Feema (hoje Inea, Instituto Estadual do Ambiente) para manter naquele local células de resíduos perigosos (em uma escala com três níveis de risco, este é o mais alto). No entanto, os resíduos deveriam ser removidos posteriormente.

De acordo com o MPF, a CSN tinha licença apenas temporária da Feema (hoje Inea, Instituto Estadual do Ambiente) para manter naquele local células de resíduos perigosos (em uma escala com três níveis de risco, este é o mais alto). No entanto, os resíduos deveriam ser removidos posteriormente – o que não foi feito.

Terreno de resíduos perigosos foi doado por empresa ao sindicato

Helio Motta
Sérgio Alves, do Inea, que aponta existência de material perigoso no despósito Márcia 1

O terreno hoje ocupado pelo bairro Volta Grande pertencia à CSN e foi doado ao Sindicato dos Metalúrgicos no fim dos anos 90. Durante a construção do condomínio, uma célula – caixa de resíduos do processo industrial – foi perfurada e vazou. O material tóxico se espalhou pelo solo, contaminando todo o bairro, que tem cerca de 770 casas de classes média-baixa e baixa.

“Trata-se de uma região de nascentes. O material percolou (se espalhou por dentro do solo), atingiu o lençol freático e afetou a área. A CSN precisa apresentar projeto de recuperação total da área e fazer o monitoramento de poços”, disse ao iG o assessor técnico do Inea Sérgio Alves.

“A CSN ainda doou e autorizou a construção de casas na área sob risco de contaminação. As pessoas não podem conviver com células de resíduos ao lado. A CSN não cumpriu sua licença provisória, que se tornou ‘definitiva’ e ainda doou o terreno onde ocorreu o vazamento, sabendo que seria dada alguma destinação para a área. Ninguém ia ganhar o terreno para contemplá-lo”, afirmou o procurador da República Rodrigo Lines.

Helio Motta
Morador Leonardo cobrava estudos mais aprofundados da contaminação do bairro

Após o acidente, as células foram lacradas. Hoje, um muro separa o condomínio 225, com 58 casas, do terreno com o depósito. Na área mais diretamente atingida pela contaminação, o lote 225 – do outro lado do muro –, quatro casas foram compradas e demolidas pela CSN. Deram lugar a uma quadra poliesportiva. O acesso às células é feito por um pátio de escória de alto-forno, também vizinho ao condomínio. Das ruas do Volta Grande 4, é possível ver uma montanha de escória com cerca de 25 metros de altura, perto do muro que divide os terrenos.

A CSN informou, em nota, não ter conhecimento do conteúdo do laudo, e informou já ter contratado cinco estudos nos últimos 13 anos. Segundo a empresa, nenhum apontou perigo ou risco iminente à saúde dos moradores.

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