Surfistas deficientes se aventuram em ondas do Leblon

Por AP | - Atualizada às

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ONG carioca ensina pessoas com diversos tipos de deficiência a surfar, ao mesmo tempo que promove autonomia e inclusão social

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De uma hora para outra instante, Renata Glasner que estava apenas observando as ondas na praia do Leblon, Rio de Janeiro, Brasil, sentada em sua cadeira de rodas, se encontrava nadando sobre uma prancha de surfe especialmente adaptada.

Glasner, uma designer gráfica de 35 anos de idade que foi diagnosticada com esclerose múltipla quatro anos atrás, é uma das dezenas de pessoas com deficiência nesta região do Rio de Janeiro, que estão conquistando as ondas. Homens e mulheres com paralisia cerebral, síndrome de Down, pessoas sem um membro, cegos, surdos e até mesmo pessoas que sofreram paralisia geral, estão se aventurando por estas águas.

Cada um exige um tipo de assistência diferente dependendo de suas deficiências e manobram suas pranchas de jeitos diferentes - alguns de pé, alguns de joelhos, outros, como Glasner, deitam-se de barriga para baixo e utilizam seu peso corporal para manobrar as pranchas. Mas cada um deles emerge do oceano radiante.

Um dos fundadores da Adaptsurf, Henrique Saraiva, não deixou que sua paralisia parcial o impedisse de praticar o esporte. Foto: AP Photo/Felipe DanaAlunos da ONG praticam os movimentos básicos antes de entrar no mar. Foto: AP Photo/Felipe DanaRenata Glasner, que sofre de esclerose múltipla, é levada à água por voluntários em uma cadeira de rodas especial. Foto: AP Photo/Felipe DanaVoluntário da ONG acompanha MOnique Oliveira, outra aluna da Adaptsurf. Foto: AP Photo/Felipe DanaA aluna Camila Fuchs se prepara para surfar acompanhada de voluntário da ONG. Foto: AP Photo/Felipe Dana

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"O sabor da água salgada não tem preço", disse Glasner, que começou a perder o controle de suas pernas logo após o nascimento de seu primeiro filho e que agora precisa de um ajudante para sair de sua cadeira de rodas anfíbia para a prancha. "É o gosto da liberdade. Depois que você é diagnosticado com uma doença como a minha, você imagina que nunca mais vai poder ter uma experiência como esta."

Glasner é capaz de saborear essa experiência semanalmente graças à AdaptSurf, uma organização não-governamental do Rio de Janeiro que tem como objetivo tornar as praias acessíveis a pessoas com deficiência e incentivá-las a praticar esportes aquáticos.

Em um país onde a falta de rampas e elevadores para deficientes, a má condição das calçadas e a falta de faixas de pedestres tornam o ato de sair de casa algo perigoso para muitas pessoas com deficiência, fazer lobby para que tenham acesso a praia pode parecer fútil.

Mas, no Brasil, com sua costa de quase 7.500 quilômetros de extensão, a praia é o centro para as interações sociais de diferentes tipos: é lá que as famílias se reúnem, que as amizades são forjadas, que casais se unem ou se separam e negócios são realizados. Privar os deficientes dos benefícios físicos da praia e também de toda a socialização que ocorre nela é isolá-los ainda mais, disse o co-fundador da AdaptSurf, Henrique Saraiva.

"Imagine-se em um país que é cercado por praias, onde a praia é um lugar quase místico. Mas quando você está confinado a uma cadeira de rodas, o mais perto que você irá chegar dela é a calçada, e ficará lá suando sob o sol e apenas assistindo todo mundo se refrescando no mar”, disse Saraiva. "É uma experiência muito frustrante".

Ele e dois amigos criaram a organização em 2007, cerca de 10 anos depois que um assalto o deixou parcialmente paralisado.

Apesar de sua perna direita ter ficado completamente atrofiada, Saraiva pegou sua antiga prancha e tentou surfar novamente.

"Foi mágico. A água é o único lugar onde eu consigo esquecer da minha deficiência", disse Saraiva. "É o único lugar onde eu consigo sentir que eu sou igual a todo mundo."

Em uma tentativa de compartilhar essa experiência com outros, Saraiva fundou a AdaptSurf com a ajuda de dois amigos. Organizações similares já existiam em outros lugares com culturas de praia vibrantes, como Califórnia e Austrália, mas Saraiva disse que a AdaptSurf foi a primeira no Brasil. E funciona todos os sábados e domingos do ano, se o tempo permitir, acrescentou.

Hoje várias dezenas de pessoas com deficiência vêm de toda esta metrópole de seis milhões para comparecer à AdaptSurf, alguns até mesmo enfrentam horas de viagem de ônibus para estar lá todos finais de semana. O grupo também recebeu pessoas que vieram da capital do país, Brasília, a 1.170 quilômetros de distância do Rio.

Embora eles tenham montado seus guarda-sol em frente de um posto de salva-vidas, a AdaptSurf nunca precisou de seus serviços - um fato que Saraiva atribui ao cuidado que o grupo tem com seus praticantes. Quando o mar está muito agitado ou a ressaca muito ameaçadora, eles não entram na água e praticam seus movimentos em terra. Mesmo quando a água está calma, os participantes geralmente surfam um de cada vez, com pelo menos um ajudante sem deficiência.

Andre Souza, 33, que ficou paralisado da cintura para baixo em um acidente de moto em 2001, nunca tinha surfado antes de ter se deparado com a AdaptSurf. Hoje, ele espera entrar no Livro Guinness de Recordes Mundiais como o surfista com deficiência que passou a maior parte do tempo em uma onda. Enquanto um surfista deficiente comum passa uma média de cerca de 10 a 15 segundos em uma onda, no ano passado, Souza passou pouco mais de três minutos surfando uma pororoca, uma onda gigante que varre rios na região amazônica em certos momentos do ano. Ele disse que quer surfar outra pororoca ainda este ano.

"A primeira vez que eu peguei uma onda, eu só consigo descrevê-lo como o momento mais feliz da minha vida", disse Souza, um homem magro e forte, com um grande sorriso e olhos escuros e brilhantes. "É o lugar onde me sinto mais livre desde o meu acidente. Todo dia, toda noite, você é prisioneiro de sua cadeira de rodas, de sua cama, de seu corpo. Eu não tenho palavras para descrever a sensação de liberdade que eu sinto quando estou na minha prancha de surf. "

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