Faro de cães da PM multiplica por 20 as apreensões de drogas e armas no Rio

Por Raphael Gomide iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Transformação em batalhão e novo foco em operações fizeram disparar o volume de entorpecentes recolhidos em dois anos. Cachorro 'Boss' foi ameaçado por tráfico

“Pega o marronzinho, pega o marronzinho!”, disse um traficante da favela de Manguinhos a outro, pelo rádio. Marronzinho é o labrador cor chocolate Boss, do BAC (Batalhão de Ações com Cães, da Polícia Militar do Rio), e a ordem pretendia ser uma sentença de morte, felizmente não cumprida. Aos 6 anos, Boss (Chefe, em inglês) é, segundo os PMs, a “Ferrari” ou o “Romário” da unidade que, em 2012 bateu recorde e apreendeu 2,12 toneladas de drogas – em 2011, tinham sido 917 kg, e 105 kg, em 2010. O labrador passou a ser ameaçado depois que os cães encontraram 300kg de drogas em um dia.

Divulgação BAC
Cães apreenderam 300kg de drogas em Manguinhos

O enorme salto nas apreensões (de 20 vezes o volume, entre 2012 e 2010) tem menos a ver com o sempre excelente faro de Boss e colegas caninos do que com a reformulação estrutural da PM que otimizou o BAC e passou a aplicá-lo de modo mais eficiente, a partir de 2010.

Nesse período, a até então Companhia Independente de Cães se tornou batalhão, ganhando autonomia e estrutura, e passou a se focar em operações – não mais em policiamento preventivo, explicou o comandante, tenente-coronel Nogueira, há dez anos na unidade.

Em seguida, o Estado-Maior Operacional incluiu o BAC no COE (Comando de Operações Especiais), para apoiar principalmente ações do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e do Batalhão de Choque em favelas. A unidade participou de todas as ações de pacificação de favelas e hoje quase todos os dias tem missão.

Apreensões se multiplicam por 20 em dois anos

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Boss, ameaçado de morte, ao lado das placas de 35 kg de drogas que encontrou em mata

Com as mudanças, as apreensões de drogas e armas se multiplicaram. “Pegamos o BAC falido, no fundo de quintal do 16º Batalhão (Olaria), mal interpretado e mal aplicado. Definimos seu objetivo e cresceu, atuando no segundo momento, de uma varredura. Gera resultado, porque são especializados nisso”, contou o responsável pela alteração, coronel Pinheiro Neto, chefe do Estado-Maior Operacional da PM.

Por duas vezes, a última em agosto de 2012, o BAC venceu o prêmio da Secretaria de Segurança por superar indicador estratégico, na categoria unidades especializadas. “É impressionante: os cães entram no lugar e em um minuto já dão o sinal de que acharam a droga”, elogia o comandante do Choque, tenente-coronel Fábio Souza.

Hoje, tropa e cães ainda estão alojados no 16º Batalhão (Olaria), mas quando a futura sede do COE estiver pronta, provavelmente em 2014, o BAC terá área exclusiva e canil para 160 cães, o dobro do atual efetivo K-9 (pronuncia-se “canine”, canino, em inglês), 79. Serão comprados cães entre um e dois anos de idade, filhos de campeões de criadores reconhecidos na Europa, ao custo de cerca de 3 mil euros, cada. Na primeira leva, serão adquiridos 12 fêmeas e oito machos, que devem triplicar o número até a Copa do Mundo do Brasil, ano que vem.

Leia também: Faro policial experiente com apenas seis anos de idade

O cão deve ter características semelhantes às de um bom policial

Divulgação
Pastor malinois, raça versátil, ao lado de apreensão

Nem só de drogas e armas, munições e explosivos vive o BAC, embora essa venha sendo a principal missão. Os cães e PMs operam ainda em ações de intervenção tática e resgate de reféns (com o Bope), controle de distúrbios (com o Choque), busca e salvamento de pessoas perdidas e soterrados em áreas colapsadas.

Cada raça tem uma especialidade, embora quando se trata de cães, cada indivíduo tenha suas características próprias, explica o major Vitor Valle, subcomandante e na unidade há dez anos, desde tenente.

Em geral, os 79 cães são distribuídos da seguinte forma: Faro (armas, drogas, munição e explosivos) e Captura: labradores, pastores malinois e holandês; Controle de distúrbios: pastor alemão e rottweiller; Intervenção tática: pastor malinois; Busca de pessoas perdidas ou soterradas em áreas colapsadas: malinois e holandês.

Divulgação
Cão desce em helicóptero com PM do BAC em treinamento. Animal não pode ter fobias

O cão policial ideal tem as características que fariam um bom policial: é sociável, persistente, corajoso, tem agressividade controlada e ausência de fobias (ruído, altura, água). Na média, o pastor belga malinois é o mais adaptável, resistente, com faro excelente, ótima capacidade de mordida e neutralização e dificilmente tem alguma “tara” (defeito). Diante da droga, os cães se agitam, balançam a cauda e se sentam – a chamada “sinalização passiva” – à espera da recompensa: uma bola de tênis, um pano ou um carinho, além do elogio. Por vezes, arranha o local, na sinalização ativa, que o BAC está abandonando.

Faro encontra droga a 7 metros de profundidade e em gruta

Além de ameaças – desde a fundação, em 1955, porém, nenhum cão foi morto ou ferido em combate –, os traficantes respondem a tanta eficiência com criatividade ao esconder as drogas.

Divulgação
PM do BAC entra em buraco para tirar droga encontrada por cão

Antes, achávamos muito no primeiro piso, dentro de paredes que quebramos, fundos falsos, no chão, dentro de botijão de gás. Aí passaram a enterrar em tonéis de plástico, mas os cães encontravam do mesmo jeito. Uma vez apreendemos drogas a 7 metros abaixo da terra, na Rocinha! A moda agora é esconder no 2º e 3º andares. Só dá mais trabalho para subirmos...”, ri o major Vitor, 34 anos.

A apreensão mais emblemática se deveu à teimosia dos cães, que insistiam em seguir para a mata, quando os PMs pretendiam vasculhar a área urbana de uma favela, em 2012. Após 15 minutos de caminhada aparentemente infrutífera, em terreno difícil, os cães entraram em uma gruta. “Chefe, chega aqui!”, chamou-o o primeiro soldado a entrar. Eram montes de placas de 35 kg cada com drogas, no total de cerca de 300kg.

Cães atletas

Raphael Gomide
Labrador toma banho após chegar de ação em que BAC apreendeu 40kg

Os cães são as estrelas do batalhão e tratados como tais. Têm preparação física e acompanhamento médico. Preparam-se com exercícios aeróbicos, de resistência, natação, tração, trabalho funcional. Um dia treinam, no outro estão operacionais e no terceiro de folga, quando têm o dia livre para brincar.

O subcomandante refuta o mito de que os cachorros são viciados para se tornarem eficientes. “Isso é lenda! Como conseguiria então farejar um cadáver, sangue explosivos, uma pessoa perdida? Seria viciado em tudo isso também? Faro é 100% memorização, e nós recompensamos o cão quando ele acha algo, seja com um pano, bola de tênis ou carinho. Ele não sente estar trabalhando, mas brincando. Essa parte psicológica é importante, manter o espírito lúdico, feliz, alegre”, explica Vitor.

A clínica veterinária tem centro cirúrgico, farmácia e seis oficiais veterinários, comandados pelo capitão Luis Renato Veríssimo, além de enfermeiros e auxiliares veterinários – todos os PMs também são socorristas. Há atendimento ambulatorial, procedimentos cirurgias, prevenção a infecções, verminoses e parasitas.

Divulgação
Cães do BAC atuam soltos em favelas

Há ainda uma parte de reprodução, com banco genético. Segundo o capitão Veríssimo, os problemas mais comuns dos cães são intermação, por calor, e escoriações e cortes, pela atuação em áreas irregulares, com pedras, vidros, vergalhões e esgoto. Durante as operações, quando uma ambulância veterinária é levada, os condutores levam água em vasilhas portáteis de nylon para seus companheiros. Na volta, os caninos são avaliados e tomam banho caprichado.

Quando o cão chega aos 8 anos, é doado, castrado. Na maioria das vezes, fica com algum PM da unidade. O comandante Nogueira, porém, que sempre adorou cachorros e criava dobermanns e huskies siberianos, ri ao revelar que hoje tem em casa um cão nada policial: um pequeno yorkshire, comprado por sua mulher.

Curso e falta de gratificação

Para o curso de formação de cinco semanas do BAC, que começaria esta segunda-feira (25), houve 105 inscritos. Passaram 44 nos exames preparatórios, mas só há 30 vagas – hoje são 141 na unidade. O treinamento habilita PMs a conduzir cães para emprego policial – para integrar o BAC, é preciso ter este ou o curso avançado, de 16 semanas, de adestramento.

Raphael Gomide
Comandante do BAC, tenente-coronel Nogueira, na unidade desde 2003: 'orgulho de ser cachorreiro'

A aprovação varia de 40% a 60% dos inscritos, que passam a ter “orgulho de ser cachorreiro”, como diz inscrição no muro da unidade. Os alunos aprendem psicologia animal, doutrina de avanço sob fogo (com cão), a dar tiros, escalar e fazer travessias aquáticas, sempre acompanhados do cão.

O BAC ministrou quatro edições do curso de faro da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública) para polícias de todo o Brasil e recebe visitantes de países da América Latina e Europa. “Os policiais franceses ficam impressionados com a quantidade de drogas que apreendemos, porque lá as apreensões são de pequenas quantidade”, disse o major Vitor.

Apesar da excelência de resultados e de integrar o COE, os policiais do BAC são os únicos da elite da PM que ainda não recebem a gratificação de unidade especial, como o Bope, Choque, GAM e outras. Na sexta-feira, o assunto estava sendo tratado pelo chefe do Estado-Maior Operacional da PM, coronel Pinheiro Neto, que pede ao governo orçamento para acrescentar R$ 1 mil aos vencimentos dos 141 PMs da unidade.

Veja vídeo em que Boss, a "Ferrari" do BAC, busca arma em simulação no BAC:


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