Grampos revelam que PMs acusados de executar Patrícia Acioli desviavam balas

Por O Dia , Adriana Cruz |

compartilhe

Tamanho do texto

Há suspeita de que para camuflar o desvio das balas do 7º BPM os policiais informavam que tinham dado tiros em ocorrências nas ruas. Crime ocorreu em agosto de 2011

Reprodução Facebook
Patrícia Acioli tinha 47 anos e foi morta quando chegava em sua casa, em Niterói

Um esquema de controle e desvio de parte de munições do 7º BPM, de São Gonçalo, estava nas mãos de integrantes do grupo acusado do assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011. Em gravações telefônicas obtidas com exclusividade pelo O DIA, o cabo Carlos Adílio Maciel Santos revela como deveria ser feita a reposição fraudulenta das balas em ações suspeitas de serem clandestinas.

Acusados de matar juíza usavam orelhão em unidade prisional para ‘negócios’

Sentença: PM é condenado a 21 anos de prisão pela morte da juíza

“Agora, os tiros que a gente tá (sic) dando, a gente tá (sic) botando no lugar”, afirma um PM identificado apenas como Ribeiro a Adílio. Ele responde que usou o mesmo método em uma ocorrência no Morro da Coruja, em São Gonçalo, na interceptação autorizada pela Justiça.

Adílio é um dos 11 acusados de participação na execução da magistrada com 21 tiros. Ele e o cabo Sérgio Costa Júnior - que confessou o crime e o primeiro a ser condenado a 21 anos de prisão pela morte de Patrícia - respondem pelo desvio das munições da unidade onde eram lotados, na Auditoria de Justiça Militar. A munição oficial do batalhão foi usada para matar Patrícia, atingida por 21 tiros, como revelou O DIA à época.

Entenda: Delegado e advogada de PM confirmam que juíza foi morta por prender policiais

Missa lembra um ano da morte de juíza Patrícia Acioli, no Rio de Janeiro

“Sem dúvida, eles usavam as balas da corporação para cometer crimes”, analisa o promotor do Ministério Público estadual Leandro Navega.

MARCOS DE PAULA/AGÊNCIA ESTADO/AE
Cartaz na Praia de Icaraí, no Rio, questiona a morte da juíza Patrícia Lourival Acioli (arquivo)

Terça-feira, os PMs Junior Cezar de Medeiros, Jefferson de Araújo Miranda e Jovanis Falcão Junior vão a júri popular, na 3ª Vara Criminal de Niterói, a partir das 8h, por envolvimento no assassinato da juíza. Outros sete réus, entres eles o coronel Claudio Luiz de Oliveira, então comandante do 7º BPM, e o tenente Daniel Benitez, presos em unidade federal, ainda não têm data para serem julgados.

Reposição fraudulenta

Na conversa entre Adílio e Ribeiro, eles deixam claro a preocupação com a reposição das munições do batalhão. A dupla cita ainda os nomes de Junior Cezar de Medeiros, Jefferson de Araújo Miranda e Jovanis Falcão Junior. Em um dos trechos, Adílio ressalta que Falcão é um dos responsáveis por dar mais tiros.

Leia a notícia completa no O DIA

No processo sobre o desvio de munição da Auditoria da Justiça Miliar, há suspeita de que para camuflar o desvio das balas da unidade, os policiais informavam que tinham dado tiros em ocorrências nas ruas. Outra faceta do esquema, a reposição fraudulenta, fica clara quando Adílio reclama com Ribeiro que era preciso mais ‘hombridade’ para assumir que sumiu com a munição. “Eu dei o tiro, mas não tenho a munição, acabou. (...) Depois vai à forra”, fala Adílio na conversa com Ribeiro.

Munição era guardada em casa

Até em casa, os policiais do 7º BPM, de São Gonçalo, guardavam os projéteis desviados da unidade. Um exemplo disso é o caso do PM Sérgio Costa Junior. Em ação na residência dele, agentes da Divisão de Homicídios (DH) encontraram munição do batalhão e ainda um cartucho de fabricação húngara.

Costa Junior foi o responsável ainda por fazer o levantamento do trajeto que Patrícia Acioli fazia do Fórum de São Gonçalo até onde morava, no bairro de Piratininga, em Niterói, local do crime. Um mês antes do assassinato, em 11 de julho de 2011, Costa Junior, Daniel Benitez, Jefferson Araújo e Handerson Lents se encontraram na Praça do Barreto, em Niterói. Dali, o grupo partiu no carro de Benitez, um Kia Cerato, para o condomínio onde Patrícia morava. A imagem do veículo foi captada por câmeras do circuito interno de TV.

No dia 11 de agosto, de 2011, dia do crime, Patrícia começou a ser seguida por Benitez e Costa Junior em uma moto e por um Fiat Palio, dirigido por Jovanis Falcão. No meio do caminho, Jovanis decidiu ir para o batalhão de São Gonçalo, enquanto a magistrada foi seguida por Benitez e Costa Junior na moto. Na porta de casa, a magistrada, que estava em um Fiat Idea, foi cercada. Sozinha, ela foi atingida por 21 disparos.

Trecho da escuta

PM Ribeiro: Pô, o Araújo falou o negócio de munição. Falaram que a gente está devendo munição
PM Carlos Adílio: Pô, cara, vou passar um rádio até para o Falcão. Porque o Coutinho falou que, quando recebeu o serviço do Falcão, recebeu faltando

PM Ribeiro: Essas munições de 40 estavam faltando há muito tempo. Não sei se alguém repôs. A gente não repôs

PM Carlos Adílio: Avisamos a todo mundo. Tá (sic) faltando, acho que são seis munições de 40. Quem tem coloca. Dei tiro e não tenho para colocar, é só falar. As dez que estavam faltando foram na nossa ficha

Leia tudo sobre: PMs indiciadosPatrícia Aciolijulgamentoniterói

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas