PM do Rio que foi expulso da corporação negociava com chefão do tráfico

iG teve acesso a transcrições de diálogos de PM com bandidos. Em uma delas, ele negocia crack com o líder dos morros do Fallet e Fogueteiro: “Vê se o amigo vende pra mim por cinco”. Em julho deste ano, policial foi excluído

Mario Hugo Monken iG Rio de Janeiro |

Divulgação
Cartaz de procurado do traficante Paulinhozinho ou Paulinho do Fogueteiro. Recompensa por ele é de R$ 2 mil

Escutas telefônicas feitas pela PF (Polícia Federal) em 2010 flagraram o atual chefe do tráfico dos morros do Fallet e do Fogueteiro, no Catumbi, na região central do Rio de Janeiro, Paulo César Baptista de Castro, o Paulinhozinho ou Paulinho do Fogueteiro, negociando a compra de crack com um policial militar. O iG teve acesso ao processo da Justiça que traz parte das transcrições.

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Os grampos também captaram na época uma conversa em que o traficante reclamava com o PM sobre prejuízos que estava tendo com operações policiais em seus redutos. O PM suspeito concordava com o bandido e ainda teria criticado os colegas de farda. “Eles estão de judaria”.

O PM, segundo as investigações, vendia aos bandidos drogas que eram apreendidas em outras favelas, além de repassar aos traficantes informações sobre operações nas comunidades.

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O envolvimento do PM, que era lotado no 6º Batalhão (Tijuca), com o tráfico de drogas fez com que a 40ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça o condenasse no mês de março a quatro anos e seis meses de prisão. Em julho, ele foi expulso da corporação.

Ataque ao "caveirão"

Confira o trecho em que Paulinhozinho reclama com o PM sobre operações policiais em favelas que dominava. O traficante ameaça, inclusive, furar pneus de veículos blindados da PM, os chamados “caveirões”.

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PM: E ontem aí? Ficou tranquilo?

Paulinhozinho: Pô, ficou nada, mané. Pô depois queria até te dar um papo pessoalmente. Pô, nós não estamos nem fazendo nada mané, tá ligado?

Paulinhozinho: O caveirão já veio aqui agora...tá vindo com três, quatro cabeças dentro. Tipo assim, nós estamos evitando ao máximo, tá ligado?

PM: Parceiro, posso te dar um papo? Faz o teu trabalho peixe! Que eles estão de judaria! Faz o teu trabalho irmão.

Paulinhozinho: Então eu vou botar um bagulho na pista que fura ele. Tá ligado, parceiro? Então eu vou ter que botar um bagulho aqui na pista aqui que fura ele, aqui, mané! Eu não estou querendo essa parada não porque eu sei que nós vamos nos atrasar, mas pô, os caras estão desafiando nós. Nós estamos agindo na moral, os caras vão ficar nessa!

PM: Tenta amenizar e essa semana sai no zero a zero, entendeu?

Paulinhozinho: Olha só, deixa eu te dar um papo. Porque tipo assim, está atrapalhando legal aqui mané! Não está vindo ninguém (viciados comprar droga).

PM: Deixa eu te falar uma parada porque você sabe que eu sou parceiro, né irmão! Tá em nível geral, né peixe?

Paulinhozinho: Eu sei brother. Mas se liga só, não tem necessidade do cara com quatro cabeças ficar entrando aqui dentro. Aqui dentro onde tu vem parceiro! Dentro do bar aqui parceiro.

Divulgação/Prefeitura do Rio
Muro construído por traficantes do morro do Fogueteiro

“Vê se o amigo vende pra mim por cinco”

Em outra conversa, em que falam sobre a venda de crack, Paulinhozinho e o policial usam códigos, como Pelé e Ronaldo, para falar sobre a droga.

PM: Fala parceiro

Paulinhozinho: Tipo assim, aquele Pelé. Ele está razoável, mas dá para usar ele, entendeu?

PM: Ahann!

Paulinhozinho: Eu pago....assim....eu costumo pagar, tá ligado? Eu costumo pagar cinco e meio. Vê se o amigo vende pra mim por cinco.

PM: Não, está tranquilo Isso aí é barro mole. Deixa eu te falar...mas qual dos dois você está falando?

Paulinhozinho: Do Ronaldo...do Pelé, cara!

PM: Do Pelé?

Paulinhozinho: É. O outro eu ainda vou avaliar, ainda, e vou perguntar o amigo aqui quantos têm guardado. Porque interessa também.

PM: Entendi. Deixa comigo, me dá cinco minutinhos já que eu já estou te dando o retorno aí.

Ao ser questionado na Justiça sobre a sua voz nas gravações, o PM informou que estava tentando, na época, sem o conhecimento de seus superiores, trabalhar infiltrado no tráfico de drogas, versão que foi considerada fantasiosa.

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O inquérito da PF que apontou o envolvimento do policial com o tráfico apurava a conexão entre bandidos dos morros do Fallet, Fogueteiro, além da Mangueira, na zona norte da capital, e o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana. Onze pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Estadual.

As escutas telefônicas flagraram os traficantes negociando armas, munições e códigos. Chama a atenção os códigos usados por eles nas conversas para despistar: bolinhas, por exemplo, foi o nome usado para as munições; mecânico seria o armeiro da quadrilha; futebol (ocupação da polícia); branco (cocaína); caminhada (envio de drogas); jogador (crack).

Mansão em Itapoã

Paulinhozinho é um dos traficantes mais procurados do Rio. O Disque-Denúncia está oferecendo uma recompensa de R$ 2 mil para quem prestar informações que ajudem em sua captura.

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Reprodução
Mansão em Itapoã que estava em nome de suposto laranja de traficante no Rio

A polícia tem informações que, mesmo com a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) instalada no Fallet, o bandido se esconderia na própria favela há pelo menos quatro meses.. Ele dividiria o comando da comunidade com Flávio Pedro da Silva, o Kiko, que está preso.

Um outro processo que tramita na 21ª Vara Criminal da Capital do TJ apura o esquema de lavagem de dinheiro de Paulinhozinho e seus comparsas.

Segundo as investigações, um taxista era usado como “laranja” do bandido. O motorista tinha, em seu nome, uma mansão comprada por R$ 400 mil em 2009 no famoso bairro de Itapoã, em Salvador, na Bahia.

O mesmo taxista teria colocado, também em seu nome, oito veículos comprados com o dinheiro do traficante, entre eles uma Tucson 2010.

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