Bope cria equipe de médicos de preto para saúde preventiva dos 'caveiras'

Com enfermeiros, psicólogos, dentistas e nutricionistas, grupo minimiza doenças e lesões com exames, acompanhamento clínico e alimentação. Iniciativa é laboratório para a PM

Raphael Gomide e iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

Raphael Gomide
O Bope montou equipe médica completa para prevenir problemas de saúde nos homens de preto

Médicos vestidos de preto, só no Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM) . Apesar da presença de médicos na tropa de elite para atender feridos em combate há três décadas, neste ano o batalhão inovou e – além do atendimento emergencial na rua –, criou uma equipe de saúde completa, com 26 integrantes, para prevenir doenças, lesões físicas, psicológicas e até problemas dentais.

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Contando com médicos, enfermeiro, paramédicos, dentistas, psicólogos e nutricionistas, o grupo já promoveu uma bateria de exames clínicos e laboratoriais de saúde com os policiais da unidade: sangue, eletrocardiograma, pressão, raio-X de tórax, urina e fezes, entre outros. Todos foram vacinados para febre amarela, gripe, hepatite e tríplice.

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Capitão Porto coordena a equipe médica do Bope

Sendo o Bope um “laboratório de testes” da PM, como define o chefe do Estado-Maior Operacional, coronel Alberto Pinheiro Neto, o sucesso do modelo pode ser repetido no resto da corporação, a começar por unidades especiais, como o Batalhão de Choque, por exemplo.

“Este programa no Bope é um embrião (para a PM). Sendo uma unidade relativamente pequena, ficou mais fácil aplicar os exames e iniciar essa medicina interna preventiva”, afirmou ao iG o capitão médico Edgard Porto.

Os dados obtidos, a partir de janeiro, permitiram à equipe avaliar os profissionais com sobrepeso ou lesões ortopédicas e tratá-los separadamente, com uma abordagem holística.

A equipe identificou que cerca de 20% dos “caveiras”, ou 80 PMs, tinham “parâmetros alterados” nos exames – obesidade, pressão alta, alteração cardíaca –, que poderiam levar a problemas de saúde futuros. Com a nova abordagem preventiva, esses PMs de “maior risco” passaram por avaliação cardiológica e acompanhamento nutricional individualizado. Segundo os médicos, ao menos dez do grupo já lhes mostraram os novos exames, melhores.

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Há 30 anos na unidade, a médica Aleluia leva a caveira do Bope na orelha

“Tendo a equipe médica no batalhão tudo fica mais fácil, porque diminuímos a distância entre a tropa e a saúde. Por vezes, o PM tinha consulta marcada no Hospital Central da PM, mas aí havia uma operação, e ele perdia, demorava a remarcar e desistia”, contou a médica Aleluia Matteotti, misto de mito e anjo do Bope e policial mais antiga da unidade – lá desde os anos 80.

“Tenho uma foto de jornal da dra. Aleluia e PMs do Bope em que apareço ao fundo, menino. Eu dizia ao meu pai que entraria para cá”, explica o comandante, tenente-coronel Renê Alonso .

Na unidade desde que se chamava Nucoe (Núcleo de Operações Especiais) Aleluia se lembra de quando a tropa se espremia em “um corredor” do Batalhão de Choque e vibra com a nova área médica estruturada. Já começou a obra para a construção de um centro médico, que deve estar pronto em dois meses, com dois consultórios – um médico e outro odontológico.

Lesões nas articulações, sobrepeso e bruxismo afetam “caveiras”

Homens de operações especiais, os policiais do Bope sofrem frequentemente com lesões causadas pelo desgaste de articulações – principalmente de joelho, coluna e quadril. A grande carga de peso carregado em longas ações (mochilas com 25 quilos, coletes à prova de bala, etc.) correndo e pulando em ambientes operacionais desfavoráveis, como morros com escadarias e ladeiras, resultam em problemas crônicos nessas articulações.

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Agência O Globo
Pelo excesso de peso e esforço em operações, PMs têm problemas nas articulações

Por conta da intensa demanda de pronta-resposta operacional, com alta exigência de performance física, os PMs tendem a ser jovens e bem preparados fisicamente – embora haja até cinquentões, em forma. “São atletas de alta performance, mas sofrem com o desgaste excessivo”, disse o capitão Porto.

Na unidade, há ainda policiais dedicados de fato ao esporte de competição: lutadores, maratonistas, mergulhadores e paraquedistas, que participam de competições e também têm acompanhamento individual da equipe médica.

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Curiosamente, não é só nas articulações que esse esforço e estresse são sentidos. “Percebi uma alta incidência de desgaste por bruxismo (ranger de dentes) e de pequenas fraturas nos dentes, muito acima da média do resto da PM. Pode ser sintoma de estresse”, avaliou o capitão dentista Márcio Ribeiro, integrante do time há um mês. Aleluia relatou já ter ouvido em treinamentos em Itatiaia, o ranger de dentes de policiais à noite, em alojamento vizinho.

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Equipe médica do Bope tem 26 profissionais

A reação física mais comum em situações de estresse – como durante um tiroteio, por exemplo – é a contração muscular: os dentes se travam, a audição se aguça, a visão fica em túnel, mais focada e aumenta a circulação sanguínea.

Para a capitão psicóloga Alexandra Vicente, entretanto, o PM do Bope “não é estressado, do ponto de vista patológico” e lida muito bem com situações de crise. “Ele não pode ir apático para a rua, sob risco de se ferir. Os policiais daqui conseguem ligar e desligar. O processo seletivo e o nível de exigência rigoroso dos cursos já selecionam o perfil mais preparado para lidar com isso e eles são muito motivados”, afirmou Alexandra. Com a capitão psicóloga Maristela, ela atende a PMs com psicoterapia e organiza palestras sobre liderança, ética e autoconhecimento.

“Aqui é voluntariado, o PM vem porque quer. Com prazer é mais fácil. Não lembro, em 30 anos, de ver um policial e um grupo saírem de cara amarrada para a rua. Saem parecendo que vão receber um prêmio”, disse Aleluia.

Foi observando que um sniper (atirador de precisão) vinha errando o alvo em treinos, sempre para baixo à direita, que Aleluia lhe sugeriu fazer exame oftalmológico, que constatou um problema. A correção visual tornou a pontaria mais precisa.

Morte de PMs em helicóptero derrubado leva a identificação odontológica

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Banco de dados odontológico do capitão dentista Márcio vai servir para identificação dos PMs

Um acontecimento trágico deu origem a outra inovação, do serviço odontológico: a identificação odontológica por raio-X dos PMs. O motivo foi a dificuldade de identificar policiais mortos e carbonizados no helicóptero derrubado por traficantes do Morro dos Macacos, em 2009.

“Infelizmente, temos de pensar no pior. Esse banco de dados nos ajuda a saber com precisão quem é quem, se preciso. Essa iniciativa é pioneira na PM. Todos terão uma ficha”, afirmou o capitão dentista Márcio.

O tenente nutricionista William é o responsável pela alimentação dos “caveiras”, no “rancho” (jargão militar para refeitório) e no terreno, em operações, como o iG mostrou na ocupação da Rocinha . É, “literalmente”, comida para um batalhão. 

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Com a chegada do nutricionista, os almoços passaram a ser mais saudáveis e balanceados, e a tropa ficou mais hidratada e bem alimentada no terreno. Além do Bope, o Choque é o único outro batalhão com nutricionista próprio na PM. A medida rendeu o prêmio Sistema Integrado de Metas da Secretaria de Segurança, por inovação.

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Tenente William no ônibus-refeitório na Rocinha. Ao lado, isopores com bebidas

“Já havia restrições, mas a alimentação ainda não era totalmente equilibrada, não tinha salada, legumes todo dia, como agora. O café era manteiga e queijo amarelo. Agora é queijo branco e requeijão”, exemplifica William.

Em grandes operações, são levados um ônibus com capacidade de manter comida quente e grandes coolers para bebidas energéticas.

“Antes, cansei de dar soro fisiológico como mamadeira, ou até improvisar soro caseiro, para eles reporem as energias”, conta a médica Aleluia.

Grupamento Paramédico de Combate já socorreu criminosos

Além da medicina preventiva, uma área grande do grupo é composta pelos paramédicos da unidade, 17 PMs sob o comando do tenente Gustavo Lopes. Eles dão apoio a operações regulares, a instruções do batalhão e a ocorrências com reféns, quando há chance de múltiplos feridos. “Já entrou até vagabundo (sic) na ambulância do Bope para ser atendido, como cidadão, como aconteceu em Padre Miguel (após ser baleado, um assaltante tomou um refém, dia 22) ”, disse Lopes.

Como a ambulância – também preta – não é blindada, fica nos arredores da operação e vai entrando à medida que a força progride. Os médicos não trocam tiros, mas vão de fuzil e colete. Em breve, todos os policiais terão um kit de primeiros-socorros, no padrão de infantaria americana. Na prática, os “caveiras” já fazem o primeiro atendimento.

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Bope está fazendo a identificação odontológica de todos os PMs da unidade

“Um PM salvou a vida de um tenente de 2m de altura, ferido na perna, em combate. Ele o puxou para uma casa, e sem material específico, improvisou uma tala com o estrado da cama, lençóis e cobertor para imobilizar e salvar a vida do tenente”, contou Aleluia.

A equipe de paramédicos acompanha os desgastantes treinamentos, como o COEsp (Curso de Operações Especiais e o CAT (Curso de Ações Táticas), onde já houve dois casos de morte.

Só nas ocorrências com reféns os médicos e paramédicos trocam a farda preta pelo branco tradicional, por uma questão tática. “A presença de um médico pode servir como consolo psicológico para o criminoso. Em Padre Miguel, o cara disse: ‘Se vier a ambulância eu me entrego’. E fez assim”, contou Lopes.

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