Preço do crack está mais baixo para traficantes cariocas

Com anúncio da proibição da venda da droga no Jacarezinho, fornecedores que trazem o crack de SP cobram menos dos chefes do tráfico no Rio

Mario Hugo Monken iG Rio de Janeiro |

Divulgação/Rio de Paz
Placa na favela do Jacarezinho indica proibição da venda do crack

O anúncio feito em junho por traficantes da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, de que a venda do crack seria proibida fez baixar o preço da droga vendida por fornecedores que adquirem o produto em São Paulo. A comunidade era considerada a maior cracolândia da cidade.

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Segundo informações que chegaram a um agente da Dcod (Delegacia de Combate às Drogas), no Rio de Janeiro, no atacado, o quilo do crack puro custava R$ 11 mil e com mistura R$ 9 mil. Após o anúncio de que a venda seria proibida, o preço teria caído para R$ 9 mil e R$ 7 mil respectivamente.

O policial explicou ao iG que traficantes "intermediários" adquirem o quilo do crack em São Paulo por R$ 5 mil a R$ 7 mil. Quando repassam o produto para criminosos do Rio, vendem cada quilo com um "ágio" de R$ 1.000 se o pagamento for à vista ou R$ 2.000, se for parcelado, como normalmente acontece. A droga chegaria em tabletes nas favelas.

De acordo com o agente, em favelas do Rio, para cada quilo vendido do crack nas bocas de fumo (varejo), seja ele puro ou misturado, os traficantes arrecadariam R$ 30 mil, tendo um lucro de quase R$ 20 mil. Nas bocas de fumo, a pedra mais barata de crack custaria R$ 5 e a mais cara, R$ 50.

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A fonte da polícia disse ao iG ter informações de que, por mês, os traficantes venderiam cerca de meia tonelada de crack em favelas de todo o Estado. Só o Jacarezinho e Manguinhos seriam responsáveis por, pelo menos, 100 kg.

Divulgação
Fiscais da Secretaria Municipal de Assistência Social recolhem usuários de crack no Jacarezinho

Cartazes

A polêmica em torno da proibição da venda do crack começou na segunda quinzena de junho quando apareceram no Jacarezinho cartazes e placas anunciando que a comercialização seria proibida. Na ocasião, a ONG Rio de Paz, que descobriu os cartazes, revelou ter recebido informações de que a proibição se estenderia para as comunidades vizinhas da Mandela e de Manguinhos e que poderia se espalhar também por outros redutos da facção criminosa Comando Vermelho (CV).

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Passado um mês do início da polêmica, o crack continua sendo apreendido no Jacarezinho e pessoas continuam sendo vistas consumindo a droga nos arredores da favela. A delegada Valéria Aragão, titular da Dcod, afirmou ao iG que a proibição da venda ainda não é algo totalmente confirmado e questiona se os traficantes vão cumprir o que anunciaram. Ela disse investigar se o crack que continua sendo apreendido na comunidade faria parte de algum estoque ou seria distribuído para outras favelas do CV.

Uma investigação recente feita pela 81ª DP (Itaipu, Niterói) captou uma conversa entre um traficante do Jacarezinho e um comparsa em que o primeiro fala sobre a proibição da venda do crack na comunidade e o plano de se tornar abastecedor da droga para outras favelas.

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De acordo com o agente da Dcod ouvido pelo iG , o anúncio para a proibição teria chegado também ao morro da Mangueira, na zona norte, que está ocupado por uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), em comunidades da Tijuca e em favelas da zona sul, inclusive da facção Amigos dos Amigos (ADA), rival do CV. Afirmou ainda que as pessoas que ainda consomem a droga nos arredores do Jacarezinho, comprariam o crack em Manguinhos, que estaria no estoque final.

Estratégia

Para a delegada Valéria Aragão, o anúncio da proibição da venda do crack pode ser uma estratégia do tráfico para diminuir o número de operações policiais nas favelas como também evitar transtornos que os usuários do crack provocariam aos traficantes. Segundo ela, os consumidores furtam até armas dos bandidos para vender e conseguir dinheiro para comprar droga.

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"O crack dá muito lucro aos traficantes. Na favela, não existe cocainolândia, mas existe cracolândia porque o usuário consome muito mais droga. E isso traz muito mais visibilidade ao local, pois vira alvo de ações para acolhimento dos usuários sempre acompanhadas de aparato policial. E com a presença da polícia na comunidade, os consumidores de outras drogas podem deixar de ir comprar", afirmou a delegada.

Um representante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, que pediu para não ser identificado, disse ao iG que moradores do Jacarezinho procuraram os traficantes para reclamar sobre problemas que estariam sendo causados por usuários de crack. Segundo ele, antes do anúncio da proibição, os traficantes teriam prometido aos moradores vender o crack somente em determinados horários.

Divulgação/ONG Rio de Paz
Faixa da Rio de Paz na orla da zona sul carioca alerta sobre a migração dos usuários de crack

Migração

Com o anúncio de que a venda do crack estaria proibida no Jacarezinho, a ONG Rio de Paz alertou as autoridades para a possível migração dos usuários para outras regiões da cidade. De acordo com fontes da polícia, a suspeita é de que a venda da droga tende a aumentar na zona oeste da capital, Baixada Fluminense e Niterói.

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“Milhares de maltrapilhos, imundos, alucinados, pobres, invisíveis urbanos, que vivem da mendicância e prostituição vão vagar pelas ruas em busca da droga”, diz Antônio Carlos Costa, presidente da Rio de Paz. “O que tememos? Os milhares de consumidores da droga não vão permanecer nas áreas onde a venda será proibida. Haverá uma migração. Certamente, não serão bem recebidos onde quer que cheguem, correndo o risco de viver em crises de abstinência em locais públicos, e até mesmo morrer ao ter que buscar as pedras de crack em favelas onde não são conhecidos", completa Costa.

O presidente da Rio de Paz revelou a situação de três crianças do Jacarezinho que recebiam cestas básicas da ONG. Segundo ele, toda vez que a entidade visitava a comunidade, as encontrava com fome. Posteriormente, foi descoberto que os menores de idade vendiam os alimentos e o dinheiro era usado para comprar crack.

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A Secretaria Municipal de Assistência Social, que vem realizando um trabalho de recolhimento de usuários de crack, tem um mapeamento informal sobre as cracolândias na cidade. Segundo a pasta, além do Jacarezinho e de Manguinhos, existiriam pontos de consumo nas comunidades Parque União (Complexo da Maré), Cajueiro e Patolinha (Madureira, zona norte), e nos bairros da Ilha do Governador, Tijuca, Vila Isabel e Lins de Vasconcelos, na zona norte, Catete, na zona sul, e Lapa, na região central da capital.

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