Desespero da abstinência: cheirar cimento alivia viciados em crack no Rio

Nos Centros Especializados da prefeitura, crianças chegam a esburacar paredes em busca de algum pó que lembre a droga e tentam reaprender a brincar

Valmir Moratelli iG Rio de Janeiro |

J.Egberto
Nos Centros Especializados da prefeitura, crianças voltam a brincar

Um menino de 14 anos se aproxima e pede para que o repórter segure sua pipa, ajudando-o a soltar o brinquedo no ar. “Tio, preciso de ajuda. Segura alto a pipa, por favor. Só solta quando eu falar”. O garoto (aqui não identificado para preservar sua privacidade, assim como todos os demais internos) não tem os dentes da frente, os lábios são queimados e a ponta dos dedos está gasta. As marcas físicas do consumo do crack mascaram o sorriso de quem reaprende a ser criança.

Mais: Crack: Os dramas de dependentes químicos ricos e pobres

São 50 jovens no Centro Especializado de Atendimento à Dependência Química Ser Criança, em Guaratiba, afastado bairro da zona oeste do Rio. As paredes e degraus coloridos, uma ampla piscina, campo de futebol e quartos com quatro leitos distribuídos em duas casas de dois andares. Em nada aquele ambiente lembra a miséria e degradação na qual as crianças estavam inseridas.

J.Egberto
Cinquenta jovens no Centro Especializado de Atendimento à Dependência Química Ser Criança, em Guaratiba, zona oeste do Rio

A reportagem do iG chega ao local no começo da tarde, logo após o almoço, quando um grupo está soltando pipa e jogando bolas de gude, enquanto outro grupo se divide numa animada partida de futebol. Cozinheiras estão descascando batatas já para o jantar. Todos os internos são do sexo masculino. Todos são dependentes do crack. Todos têm menos de 18 anos.

Abrigamento compulsório

O local não é chamado de clínica, porque, apesar de um acompanhamento médico semanal, tem como foco o trabalho social. O processo até chegar nestes abrigos é longo.

Após serem retirados das chamadas cracolândias, os jovens são encaminhados a uma das Centrais de Recepção Carioca, onde passam por uma triagem para avaliar o grau de comprometimento com o crack. Se for identificada necessidade de abrigamento compulsório, eles seguem para a rede especializada. As demais crianças geralmente são encaminhadas para unidades da rede acolhedora ou, após terem suas famílias localizadas, retornam para os lares de origem.

Logo que chegam às unidades especializadas como o Ser Criança, os menores de 18 anos passam por uma avaliação psicológica do estado emocional, sua socialização com o grupo, detectando possíveis traumas e o envolvimento com drogas. Também é realizada uma avaliação clínica sobre o estado nutricional e se possuem alguma doença infectocontagiosa. Durante o abrigamento, a reaproximação com os pais acontece por meio de visitas semanais. “Nos três primeiros dias eles passam dormindo direto, repondo o que passaram acordados nas ruas fumando crack. A medicação é para tranquilizá-los. Depois começamos o tratamento de integração social com as demais crianças”, explica Vatusy Ramos, coordenadora do Ser Criança.

Eles só retornam para casa após estarem comprovadamente matriculados na escola e em alguma atividade complementar, no turno inverso à escola. Além da reintegração familiar, psicólogos trabalham junto às famílias a importância da continuidade do tratamento contra a dependência química no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo à residência.

Mas nem sempre esta reinserção é tão fácil. C., 13 anos, está no abrigo pela segunda vez. Sua irmã está presa, o irmão mais novo também é usuário de drogas, não tem pai. Sua única responsável é a avó, de 87 anos. Ele é morador da favela do Jacarezinho, zona norte do Rio , onde se localiza uma das maiores cracolândias da cidade. “Não sei para onde vou. Eu gosto daqui. Tenho muita comida todo dia”, diz.

J.Egberto
Uma partida de futebol agita os garotos na parte da tarde

Fumando papel higiênico

As crianças ficam tão fissuradas nas drogas, que desenvolvem distúrbios psicológicos para saciar a vontade durante o período de abstinência. Assim como em clínicas particulares , algumas precisam ser contidas nas camas, amarradas para evitar que se machuquem ou agridam os demais.

Vatusy Ramos, coordenadora do Ser Criança, relata que a primeira reação dos jovens é enrolar um pedaço do papel higiênico como se fosse um baseado e esquentá-lo na lâmpada. “A gente pega alguns deles fumando um cigarro de papel higiênico, sem nada dentro. É a necessidade que o cérebro cria para matar esta vontade, este hábito já impregnado neles”, diz. Outros vão além. Há quem raspe pedaços da parede para cheirar o pó do cimento. E os que afinam no chão o cabo da escova de dente para servir de arma e atacar os colegas. “Vários enfermeiros já foram agredidos. Isso é normal para quem trabalha com esta realidade”, continua.

J.Egberto
Não há fechaduras para evitar que os internos se tranquem dentro dos quartos

Trabalho nas cracolândias

A Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) realiza, diariamente, o trabalho de acolhimento da população em situação de rua e combate ao crack na cidade. Nas cracolândias localizadas em territórios que ainda não foram pacificados, as operações da SMAS são semanais e em conjunto com órgãos de segurança pública. Desde 31 de março do ano passado, a SMAS realizou 4.496 acolhimentos, sendo 3.853 adultos e 643 crianças e adolescentes. As operações são realizadas em parceria com a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente e com os Batalhões da Polícia Militar das localidades. “Eles me pegaram e me trouxeram para cá. Era ajudante do tráfico, peguei só uma vez numa arma. Prefiro ficar aqui, porque posso brincar”, relata P., 13 anos.

Para o abrigamento compulsório de crianças e adolescentes, a SMAS disponibiliza hoje 178 vagas em cinco Centros Especializados de Atendimento à Dependência Química (CEADQs), localizados na zona oeste, e a unidade municipal Casa Viva, em Laranjeiras, na zona sul do Rio. Atualmente, 120 crianças e adolescentes estão abrigados involuntariamente.

Desde 2011, a SMAS trabalha com uma nova forma de abordagem social que determina o abrigamento compulsório de crianças e adolescentes com alto grau de dependência química. A decisão de abrigar os jovens é aplicada para aqueles que, na avaliação de especialistas, estiveram comprometidos com o uso do crack e de outras drogas. Todas as crianças e adolescentes acolhidos só poderão deixar os abrigos após terem os responsáveis identificados e com a anuência de órgãos como o Conselho Tutelar e as Varas da Infância.

J.Egberto
As crianças ficam tão fissuradas nas drogas, que desenvolvem distúrbios psicológicos para saciar a vontade durante o período de abstinência

“Zirre” e “Merla”

No abrigamento compulsório, nos CEADQs, os usuários são atendidos por equipes multidisciplinares, compostas por médicos, enfermeiros, psicólogos, educadores, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais, dentre outros profissionais. Segundo dados da assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Assistência Social, o município conta hoje com 178 vagas em quatro unidades especializadas no atendimento à dependência química e há 120 crianças abrigadas compulsoriamente atualmente.

Mais: Veja como é o tratamento de dependentes do crack em uma clínica particular

Do total, 60% são do sexo masculino. Desses, 50% têm entre 13 e 15 anos, 35% têm entre 16 e 17 anos e 15% têm até 12 anos. O crack é a droga mais mencionada pelas crianças abrigadas, seguida pelo cigarro, maconha e cocaína. Apenas um adolescente afirmou ter utilizado heroína, e muitos utilizam o “Zirre” (crack com maconha) ou “Merla” (droga derivada da cocaína que é utilizada pura ou adicionada a cigarros de tabaco ou maconha).

Ainda de acordo com a SMSA, 40% das crianças e adolescentes acolhidos nas ruas e nas cracolândias foram efetivamente encaminhados para a rede de proteção social. Aproximadamente 60% das crianças e adolescentes acolhidos são oriundas de outros municípios e encaminhados para Conselhos Tutelares de suas regiões. Das crianças e adolescentes acolhidas compulsoriamente, 24% são reincidentes, ou seja, foram localizadas nas ruas por mais de uma vez. Ao longo do último ano, 31% das crianças e adolescentes acolhidas compulsoriamente não receberam uma única visita familiar.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG