Favela no quintal da Rio+20: degradação ambiental

Quatro mil moradores da Vila Autódromo devem ser removidos até 2013 para obras das Olimpíadas. Veja galeria de fotos e comente

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Paulo Marcos
Entrada da favela: grafia errada ao homenagear o piloto canadense Gilles Villeneuve

Cerca de 200 metros além dos pavilhões do Riocentro, do outro lado da Avenida Salvador Allende, zona oeste do Rio, está situada a favela Vila Autódromo, comunidade surgida nos anos setenta e que hoje conta com mais de quatro mil moradores. Ali temas como meio ambiente, mudanças climáticas, preservação ambiental e sustentabilidade passam às margens da realidade. Localizada entre o autódromo Nelson Piquet e o Parque dos Atletas (ou Cidade do Rock, local que durante a Rio + 20 sediará debates e exposições paralelos à conferência), a favela não tem água encanada, o esgoto corre a céu aberto, o mau cheiro da lagoa atrai ratos e muito mosquito.

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Já existe o plano da prefeitura de remover os moradores para novas habitações que estão sendo erguidas em um terreno na estrada dos Bandeirantes, a um quilômetro do local atual. O espaço atualmente ocupado pela Vila Autódromo será para uso de expansão do parque olímpico, maior concentração de instalações esportivas para os Jogos Olímpicos de 2016 . A localidade ganhou, em março, destaque no jornal americano The New York Times . Para a publicação, a comunidade “desafia a organização do grande evento a ser realizado no Rio de Janeiro dentro de quatro anos”.

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Uma lan house às margens da lagoa poluída é diversão dos jovens da favela


Lagoa transbordando

A reportagem do iG passou um dia na Vila Autódromo, conversando com moradores e vendo de perto a realidade de quem não tem a menor vontade de deixar suas casas. Nenhum dos moradores ouvidos se mostrou feliz com os planos de remoção. Menos ainda com algum tipo de interesse pela a Rio+20 , que mobiliza a cidade de 13 a 22 de junho. 

A cada chuva nossas casas se enchem de água podre, porque a lagoa transborda”

“Isso é evento para gringo. É bonito falarem de despoluição e meio ambiente. Mas olhe ao redor dessa lagoa. Quantos prédios de luxo estão deixando construir? A cada chuva nossas casas se enchem de água podre, porque a lagoa de Jacarepaguá transborda”, reclama o aposentado Antonio Silva. Nem por isso ele pensa em deixar sua construção de dois andares e garagem. “Vivo aqui há trinta anos. Querem nos levar para apartamentos de 40 metros quadrados, sem elevador. Não vou sair mesmo”, diz, convicto. 

Ainda não há um prazo estipulado pela prefeitura para que as pessoas deixem suas casas. A expectativa é que até o começo de 2013 a favela deixe de existir. Segundo informou a assessoria de imprensa da secretaria de Habitação do município, a comunidade será reassentada assim que estiverem prontos os apartamentos do Parque Carioca. “Elas não terão que pagar nada pelos imóveis, dos quais serão proprietárias”, completa a assessoria.

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Pelos planos da prefeitura, o condomínio na estrada dos Bandeirantes terá apartamentos de dois e três quartos com parque, área de lazer, equipamentos públicos como creche e escola e espaço para implantação de atividades comerciais. Já na Vila Autódromo, alguns imóveis são de aparência humilde, de madeira improvisada. Mas há também casas de classe média, erguidas à beira da Lagoa, com ar condicionado, varanda, dois e três andares.

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Vila Autódromo: ruas sem asfalto

“Welcome, Bienvenidos”

Logo na entrada principal da comunidade, uma placa dá boas vindas em português, inglês e espanhol: “Bem vindo, Welcome, Bienvenidos. Uma comunidade pacífica e ordeira desde 1967”. A rua Beira Rio, que corta um canal poluído que desemboca na lagoa, não é asfaltada. Perpendicular a ela, a rua Gilles Villeneuve, em homenagem a um dos pilotos que fizeram história no autódromo ao lado, quando o Rio sediava as corridas de Fórmula 1 no Brasil. 

Não tenho como pagar outro aluguel nesse valor para ficar perto da Barra”

Os moradores contam que não há tráfico ou qualquer tipo de violência no local. “Num final de semana esqueci a chave de casa no portão e viajei para Rio Bonito. Voltei para casa e a chave, que pensei ter perdido, estava lá no mesmo portão. Em que outro lugar encontro sossego assim?”, questiona a pensionista Nila Pereira, que conta ter gastado R$ 3 mil só com a reforma do portão de ferro, agora com controle remoto. 

Outros vivem de aluguel. É o caso de Maria de Fátima Silva, que paga R$ 300 por um quarto e sala. O proprietário, ela diz, mora em outro local. “Não tenho para onde ir. O governo não vai me dar casa, porque não tenho posse do terreno. E não tenho como pagar outro aluguel nesse valor para ficar perto da Barra, onde trabalho. Não sei o que vou fazer da vida”, diz.

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Maria de Fátima Silva paga R$ 300 por um quarto e sala

Lan house improvisada

O mercadinho Mãe Estrela, três igrejas evangélicas e uma oficina mecânica também ocupam a área. Uma lan house improvisada em lonas de plástico à beira da lagoa serve de diversão para os jovens que não estão na escola. Descalços, eles convivem com o esgoto a céu aberto e não se incomodam com o odor. Mais à frente, donas-de-casa ficam no portão fazendo unha e batendo papo. Nazaré Gonçalves mora com dois filhos na comunidade. “Deixa que façam as Olimpíadas. Mas deixem também a gente continuar morando em paz onde sempre esteve”, pede a desempregada que sustenta a casa com ajuda do Bolsa Família. 

A prefeitura está conduzindo o reassentamento com amplo apoio dos moradores”

O programa social do governo, aliás, é motivo de desconfiança por parte dos moradores. Alguns alegam que a prefeitura teria feito o cadastramento de forma forçada, enganando-os de que se tratava de cadastro do Bolsa Família. A secretaria de Habitação, entretanto, se defende. 

“A prefeitura está conduzindo a questão do reassentamento da Vila Autódromo com amplo diálogo com os moradores. As famílias têm total conhecimento do plano de reassentamento, cujo objetivo é oferecer melhores condições de vida para os moradores. O secretário municipal de Habitação, Jorge Bittar, já se reuniu inúmeras vezes com os líderes comunitários da região. Em outubro do ano passado, o secretário apresentou o projeto do Parque Carioca em evento aberto, para o qual a comunidade foi convidada. O cadastramento dos imóveis foi realizado dias depois deste evento aberto”, informa a assessoria de imprensa.

O investimento na região do autódromo será de R$ 1,4 bilhão. Segundo o edital de licitação, as instalações necessárias para receber as 15 modalidades esportivas que serão disputadas no Parque Olímpico deverão ser concluídas até agosto de 2015, um ano antes do início dos Jogos. Os investimentos preveem construção do centro olímpico de tênis, um parque aquático, além de ginásios, um hotel com 400 quatros e do centro internacional de transmissão do evento. A concessionária também terá que fazer obras de adaptação no Parque Aquático Maria Lenk e na arena multiuso, ambos construídos na época do Pan-Americano, em 2007.

Enquanto as obras no autódromo não chegam, os moradores locais se preparam para faturar com a Rio+20. Assim como aconteceu durante o Rock in Rio, em setembro passado, muitos fazem planos para trabalhar como ambulantes e oferecer aluguel de banheiros a quem passar pelas ruas interditadas em dias de evento. “Temos que tirar proveito de alguma coisa dessa Rio+20”, diz o pedreiro Marivaldo Santos.

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