Em vídeos, comerciante da Rocinha diz que PMs não estupraram mulher que a furtou

iG teve acesso a vídeos para a TC Rocinha e para inquérito da PM que aumentam polêmica em caso que contrapõe versões de presa a policiais e vítima de furto

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

A comerciante da Rocinha Francisca Souza e seu marido, Francisco Peres Lopes, afirmaram, em vídeos aos quais o iG teve acesso, que os policiais militares que prenderam Eduarda Souza Martins , 36 anos, detida por furtar bolsa e dinheiro de Francisca, não cometeram abuso físico ou sexual contra a presa. Em depoimento para a TV da Rocinha, Francisca acusa Eduarda Martins de mentir e inventar que foi vítima de tortura e abuso sexual.

"Eles não triscaram um dedo nela! Eu estava com ela o tempo todo", disse Francisca.

Os vídeos são mais um elemento de polêmica no caso que contrapõe versões de Eduarda, de um lado, aos PMs, Francisca e seu marido, Francisco Lopes, do outro.

Três PMs do Batalhão de Choque foram indiciados pela Polícia Civil, denunciados pelo Ministério Público e estão presos desde o dia 21 , acusados de crime de tortura contra Eduarda, após exame de corpo de delito positivo para lesão no ânus. Francisca também foi indiciada por falso testemunho. O perito legista do IML também deu laudo positivo para “lesão corporal e ato libidinoso diverso da conjunção carnal”. Segundo ela, os policiais lhe teriam dado socos e enfiado os dedos no ânus, em 18 de abril, após a prenderem.

Eduarda afirmou à Polícia Civil ter sido agredida na sua própria casa, após os PMs encontrarem os pertences de Francisca. Segundo Eduarda, “os PMs solicitaram a Francisca que aguardasse em local mais afastado”, a levaram para dentro da casa, “retiraram das fardas as respectivas identificações e passaram a agredi-la com socos e molestá-la, colocando os dedos dentro de sua vagina e ânus, afirmando que Eduarda podia ter droga escondida em seu corpo”.

Em depoimento à TV Rocinha e à PM – no inquérito policial-militar que apura a participação dos PMs no episódio –, Francisca a contesta e diz que esteve o tempo todo ao lado dos agentes na casa. Para a TV Rocinha, Francisca declara ter acompanhado os policiais o tempo todo na casa onde presa disse ter sido abusada. De acordo com ela, Eduarda ficou algemada, sentada em um colchão no chão, e respondeu onde estava o dinheiro que furtara, cerca de R$ 320. Segundo a comerciante, os PMs “não triscaram um dedo nela!”

Após recolher seus pertences, acompanhou os PM no camburão até a 15ª Delegacia Policial (Gávea), onde não ficaram, porque a central de flagrantes era na 14ª DP (Leblon). Só então Francisca se separou dos policiais e, acompanhada do marido, Francisco, foi de táxi até a outra unidade, a 2,1 km dali. Segundo o casal, os PMs chegaram cerca de cinco minutos depois. “Foi só a hora que eles ficaram sozinhos com ela foi essa hora. Aí não posso afirmar, nem dizer que não (houve abuso) porque foi a hora em que eu não estava com ela”, disse.

Eduarda diz ter sido abusada em casa; Francisca afirma que estava lá e nada ocorreu

“Mas ela diz lá na 14ª que eles tinham estuprado ela dentro de casa... Que me botaram para fora, e ela ficou junto com eles, e eles fizeram e aconteceram com ela e eles fizeram isso e aquilo outro... E eles não fizeram nada disso. Eles não triscaram um dedo nela! Eu estava com ela o tempo todo. Eu acompanhei, junto, até chegar à 15ª (Delegacia, na Gávea) eu acompanhei. E eles não triscaram um dedo nela, a não ser a algema, que é o trabalho deles. Só isso, algemaram e pronto. E eu não vi eles tocarem um dedo nela, fazer assim, meter um tapa”, afirmou Francisca.

Em depoimento, os PMs dizem que o carro foi direto para a DP da Gávea, “como pode ser constatado por verificação do GPS do carro” e que “toda a ação policial de sua equipe foi monitorada via Nextel com o supervisor tenente Henry, do BPChoque”, segundo depoimento do sargento Cid Lima à Polícia Civil.

O marido de Francisca, Francisco Lopes, dá a mesma versão. Ele diz ter visto “até o momento que entregaram ela (Eduarda) presa, sem um arranhão, sã” e sem marcas na delegacia do Leblon. Ouvido em 21 de abril no inquérito policial-militar da PM, ele diz que Eduarda estava “em perfeitas condições físicas, sem nenhuma lesão, marca nem mancando ou com qualquer outro machucado”.

Os PMs também afirmam no IPM que Francisca os acompanhou o tempo todo, que entregaram Eduarda “sem nenhuma lesão”, em “perfeito estado físico” e que as acusações são falsas e caluniosas”. O cabo Rodrigo Bernardo Almeida – um dos acusados – disse que a delegada e o inspetor que os atenderam “em nenhum momento” disseram que Eduarda estava com lesão. “Nenhum policial civil falou, reclamou ou insinuou que Eduarda apresentava algum tipo de marca ou lesão física e nem mesmo Eduarda alegou que houvesse sido agredida pela guarnição”, disse o soldado Renan Souza, em depoimento ao IPM.

Segundo Francisca, os PMs chegaram até a impedi-la de agredir Eduarda. “Eu é que quis dar um tapa nela e eles seguraram meu braço. Disseram: ‘Não faça isso!’. Eu peguei a mão e ia enfiar nela. ‘Não faça isso!’ Seguraram o meu braço para não agredi-la. Porque se eu fosse agredir, estava errada. Eles não deixaram eu agredir. Como é que uns policiais desses vão agredir uma mulher dessas se eles não deixaram eu, que era a vítima, agredir? Que a pessoa fica injuriada, não fica? A minha vontade era de quebrar ela todinha”, afirmou a comerciante.

Segundo eles, na chegada à delegacia do Leblon, não se falou em tortura nem havia marcas de espancamento. “A delegada não falou nada, delegado não falou nada, o careca (provavelmente algum policial) não falou nada... Se tivesse acontecido alguma coisa, a própria delegada chegava para a gente e falava”, disse Francisca.

“Não estou defendendo ninguém, que nem gostar de policial eu gosto!”

Alguns dias após o furto de que foi vítima, Francisca foi chamada de volta à delegacia do Leblon, desta vez para depor sobre suposto estupro dos PMs. “Quando cheguei lá, falaram que era para prestar depoimento, que os PMs tinham estuprado a tal da Eduarda dentro de casa. Ai eu disse que era mentira, que não tinha acontecido nada disso, que eu estava junto o tempo todo. A delegada veio dizer que teve uma testemunha que diz que os policiais estupraram ela na casa dela... Isso é mentira! Quem vem dizer que eles estupraram ela dentro de casa pode prender porque está mentindo.”

Neste ponto, segundo Francisca, foi confrontada pela delegada Alessandra Leal Brasil, que a ameaçou de prisão por estar “defendendo” os PMs. Francisca disse ter respondido, indignada: “Eu nem gosto de polícia! Eu corri atrás porque era meu o que estava em jogo! Não estou defendendo ninguém, não, que nem gostar de policial eu gosto!

“Quem está dizendo isso pode botar na cadeia! É mentira dela (Eduarda) e mentira da testemunha! Sou mulher evangélica, não posso mentir! Como é que vou inventar mentira? E não quero mais ser incomodada. Porque eu não estou mentindo, estou falando a verdade! E ó, o resto não quero saber, não!”, afirma.

Eduarda relata agressões e ameaças a seu filho

Eduarda foi presa cinco outras vezes, desde 2007, por furto, e condenada em duas ocasiões – a dois meses e 20 dias de reclusão e regime aberto, e a quatro meses de reclusão –, em ambos os casos substituídas por outra pena.

No registro de ocorrência, de 1h26 do dia 19, Eduarda afirma ter sido agredida fisicamente elos PMs e foi submetida a exame de corpo de delito. Ela contou ter levado tapas, chutes, socos no rosto e golpes de toalha molhada. Segundo ela, o soldado Renan Ribeiro de Souza “retirou sua calcinha e enfiou os dedos no seu ânus, girando-os com muita força” e disse que iria “rasgá-la”. Um dos PMs, Cid Lima, também teria ameaçado matar seu filho, portador de síndrome de Down.

A delegada Alessandra Leal Brasil pediu a decretação da prisão temporária dos PMs por estupro e tortura. Eduarda foi levada ao Miguel Couto e seguiu para o IML, após o médico plantonista sugerir que a vítima fosse encaminhada a consulta com médico proctologista, “tendo em vista a extensão das lesões detectadas em seu ânus e reto”. Segundo o laudo do IML, “há lesões violentas e há também vestígios de lesões compatíveis com aquelas relacionadas ao atentado violento ao pudor”.

No pedido de prisão dos PMs, a delegada afirmou que Eduarda corre risco porque policiais da Corregedoria e do Batalhão de Choque foram à delegacia pedir informações sobre investigação contra eles.

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