Avenida Brasil da vida real: histórias muito além da novela da TV Globo

Nos 58 km da via carioca, iG viu contrastes que vão da violência de favelas a avançados centros de pesquisa. Veja galeria de fotos

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Paulo Marcos
Avenida Brasil: 17% da população do Rio vive em seu entorno
É nome da atual novela das nove da TV Globo . Mas tem histórias e personagens para muitas outras novelas. Com 58 quilômetros de extensão, a Avenida Brasil, inaugurada em 1946, é a maior avenida em extensão do Brasil e o maior trecho urbano da BR-101, ligando a BR-101 norte (Ponte Rio-Niterói e Rodovia Rio-Vitória) à BR-101 sul (Rodovia Rio-Santos). Para esta reportagem, foram percorridos os 58 km da via, nos dois sentidos, para mapear seus principais pontos. Em duas comunidades (Vila Kennedy, na zona oeste, e conjunto habitacional Amarelinho, na zona norte), jovens pediram à equipe do iG que se retirasse da localidade. Na praça do Amarelinho, há uma placa com os dizeres: “É proibido usar maconha neste local. Cocaína também”.

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A avenida corta 27 bairros, alguns deles com péssimos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). A maioria de suas favelas é fruto de uma ocupação desenfreada de terrenos abandonados ou de programas de habitação mal executados ainda nos anos 50. A via que se inicia na Rodoviária Novo Rio e segue até o bairro de Santa Cruz, no final da zona oeste, tem diversos pontos curiosos, muitos deles desconhecidos até por quem passa por ali diariamente. E não são poucos. Pelos cálculos da prefeitura, são 250 mil carros por dia.

Na galeria de fotos no final da matéria, imagens de lugares e de personagens que vivem diariamente a realidade de uma das mais importantes vias expressas do País.

Paulo Marcos
Inscrições do Profeta Gentileza no começo da Av. Brasil, em frente à rodoviária Novo Rio

Poesia no concreto

O marco zero é a rodoviária Novo Rio que, há dois anos, passou por ampla reforma, incluindo a expansão da praça de alimentação, agora com 600 metros quadrados e capacidade para 200 pessoas. Pelo seu terminal circulam cerca de 50 mil pessoas por dia, triplicando em feriados prolongados.

Colado à rodoviária, inaugurado em agosto de 2011, o Instituto Nacional de Traumatologia Ortopédica (Into), ocupa as instalações da antiga sede do Jornal do Brasil , edifício de nove andares em concreto armado de autoria do arquiteto Henrique Mindlin. Há 23 centros de tratamento específico, 21 salas cirúrgicas, três dedicadas ao hospital-dia e duas para o acompanhamento remoto das intervenções medicas. A isso se somam 64 consultórios e 400 leitos.

São nestes metros inicias da avenida que estão as marcas poéticas deixadas por José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza , que ficou conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições sob o viaduto do Gasômetro, no acesso ao centro. No alto de 56 pilastras, que vão do Cemitério do Caju até a rodoviária, numa extensão de 1,5 km, Gentileza pintou inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica ao mundo. “Gentileza gera gentileza” é sua frase mais conhecida. Gentileza morreu em 1996, mas as pilastras foram tombadas pelo Patrimônio Municipal.

Paulo Marcos
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz): excelência reconhecida mundialmente

Entre o progresso e a história

A avenida Brasil abriga tesouros pouco conhecidos dos cariocas. O prédio no bairro do Caju onde funciona o Museu da Limpeza Urbana é um casarão do início do século 19. Entrou para a história quando D. João VI, após a chegada da família real à cidade, passou a frequentá-lo para tomar banhos de mar na região por recomendação médica. Cronistas da época diziam que o bairro tinha paisagem natural impressionante, com areias brancas banhadas por uma Baía de Guanabara ainda limpa. Em 1938 o casarão foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e só em 1996 foi restaurado.

Mais à frente está a Refinaria de Manguinhos , símbolo do segundo governo Vargas, com a campanha “O petróleo é nosso”. Seus principais produtos são gasolina, óleo diesel, gás liquefeito de petróleo, e óleos combustíveis, além de comercialização e distribuição de derivados de petróleo.

Vizinho a Manguinhos se encontra a imponente Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) . Construída em estilo neomourisco em 1900 pelo sanitarista que dá nome ao local, é a mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina. Além do desenvolvimento de novas tecnologias para a fabricação em larga escala das vacinas contra febre amarela e varíola, foi na Fiocruz que foi feito o isolamento do vírus da Aids em circulação no Brasil.

Isabela Kassow
Favela de Parada de Lucas: palco de chacina no começo dos anos 90
Da violência à pacificação

Estas diferenças sociais que fazem da Avenida Brasil uma via de contrastes perversos também se espelha na realidade de quem vive junto ao movimento intenso de seu trânsito.

Surgido nos anos 50, o Complexo da Maré é um bairro da zona norte do Rio que tem a avenida como acesso principal. O agrupamento de várias favelas e conjuntos habitacionais, com cerca de 130 mil moradores, se estende por 800 mil metros quadrados. Possui um dos maiores índices de violência da cidade e o quinto mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano do município. Próximo dali está o conhecido Parque Ambiental da Praia de Ramos , com uma praia artificial de água salgada. Inaugurada em dezembro de 2001, a piscina pública é enchida regularmente com água tratada da Baía da Guanabara. Em dias de verão, o piscinão chega a receber 60 mil pessoas em um único fim de semana.

Palco de uma das maiores chacinas do estado, em agosto de 1993, Vigário Geral ganhou destaque na mídia internacional quando foi invadida por um grupo de extermínio de 36 homens encapuzados, que arrombaram casas e executaram 21 moradores. Assim como Vigário, Parada de Lucas , comunidade vizinha, registra alto índice de violência. Hoje se destaca no local a atuação do Grupo Cultural AfroReggae, oferecendo aos aulas de circo, artes plásticas, teatro e percussão.

Mas é na mesma avenida que está um exemplo de realidade contrária a esta onda de violência que perpetua em diversas comunidades carentes. Desde fevereiro de 2009, a favela do Batan, em Realengo, na zona oeste, tem uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) . Em 2008, jornalistas do jornal O Dia foram feitos reféns e torturados por milicianos da área. Bem diferente de outros tempos, quando confrontos violentos entre as facções criminosas não davam sossego aos moradores, o clima atual é de tranquilidade. A “pedra abençoada”, antigo ponto de observação dos traficantes, agora recebe evangélicos que sobem o morro para orar tendo a Avenida Brasil ao longe. “Este lugar é abençoado. Esta pedra tem a energia de Deus. Aqui a gente sente a presença Dele”, diz ao iG o diácono José Everaldo da Silva, da Assembleia de Deus.

Isabela Kassow
Mais de 250 mil carros passam por dia na via

Diversão da classe C

Há dois grandes shoppings na Avenida Brasil. O principal – e maior deles – é o shopping Via Brasil, no bairro de Irajá, zona norte da cidade, que sofria com a escassez de entretenimento, desde abril de 2011. Possui três pisos de lojas e cinco de estacionamento coberto. São 220 lojas, seis salas de cinema multiplex digitais (sendo duas com tecnologia 3D), quatro pistas de boliche infantil e 40 máquinas de diversão eletrônica. Há estudos para a implantação de um teatro.

Inaugurada em maio passado, a quadra da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel , na zona oeste, pretende fazer do próximo carnaval algo bem diferente dos anos passados. Com localização facilitada, à beira da Avenida Brasil, a quadra já é chamada de “Maracanã do samba”, com capacidade para 8 mil pessoas e estacionamento para 2 mil carros. Uma curiosidade: A Avenida Brasil foi tema da escola em 1994, com o enredo “Avenida Brasil - Tudo Passa, Quem Não Viu?”.

Já quase no final da via, antes de Santa Cruz, há a entrada para o Complexo Penitenciário de Gericinó , antigo Complexo Penitenciário de Bangu, que mudou toda a região do bairro da zona oeste. Nas ruas ao redor, o comércio é voltado para atender as pessoas que visitam os detentos dos 26 presídios. O complexo surgiu em 1987 e tem 44 postos de observação policial. Por lá já passaram bandidos famosos, como Fernandinho Beira-Mar e o Nem da Rocinha , que, ao longo dos últimos anos, foram transferidos para outros presídios de segurança máxima no interior do País.

Veja a seguir fotos de curiosas localidades que fazem da Avenida Brasil, mais do que apenas cenário de novela, protagonista na vida dos cariocas e de quem cruza a cidade.

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