Escutas da PF flagram negociações entre presos do Rio e traficante paraguaio

O iG teve acesso às transcrições de conversas entre os suspeitos. Nelas, eles falam sobre o envio de cocaína para o Brasil

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Escutas telefônicas feitas pela PF (Polícia Federal) revelaram que presos do sistema penitenciário do Rio de Janeiro negociavam diretamente, via telefones celulares, com um suposto traficante paraguaio o envio de cocaína e maconha para o Brasil.

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As investigações foram feitas entre 2009 e 2010 e culminaram, em janeiro deste ano, com a condenação de seis acusados de participar do esquema pela Justiça Federal pelos crimes de tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico. O iG teve acesso ao processo que traz trechos de interceptações telefônicas que mostram as negociações.

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O paraguaio que falaria nas escutas seria, segundo a Justiça Federal, Juan Arnaldo Céspedes Amarilla, o Nando, que viveria entre Coronel Sapucaia (MS) e Capitán Bado (Paraguai). O suspeito é o mesmo que, em 2009, teria sido o pivô da prisão de dois agentes federais brasileiros no Paraguai.

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Na época, os policiais teriam invadido o país vizinho em perseguição a Juan, que teria pedido ajuda à polícia local e a dupla acabou indevidamente presa. Foi paga uma fiança e os agentes liberados. O paraguaio continua solto com um mandado de prisão pendente. Ele não foi condenado porque houve desmembramento do processo.

Em interceptações feitas entre os dias 7 e 8 de março de 2010, um preso, cujo nome não é citado na sentença, fala com Nando sobre um carregamento de drogas que saiu da cidade de Caarapó (MS) com destino a Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.

Nas conversas, os suspeitos usam códigos para falar das drogas. Ao ser perguntado sobre quanto viria de drogas, o paraguaio afirma que seriam 12 de B e 53 do verde. De acordo com a Justiça, B significaria cocaína e verde, maconha. Os números correspondem a quantidade de quilos de cada entorpecente. Confira os principais trechos das conversas entre eles sobre a chegada do carregamento:

O carregamento citado na conversa foi interceptado pela PF no dia 8 de março de 2010. Na ocasião, foi apreendida a quantidade quase exata mencionada pelos suspeitos durante a conversa (12 kg de cocaína e cerca de 50 kg de maconha). Quatro pessoas foram presas na época. Pouco depois do fato, a PF flagrou o mesmo preso comentando sobre a apreensão com o paraguaio. Acompanhe os trechos:

Encomenda antes do Carnaval

No dia 31 de janeiro de 2010, a polícia já havia interceptado uma conversa de um preso (cujo nome também não foi divulgado na sentença) e o mesmo paraguaio em que eles falam sobre o envio de 25 kg de cocaína e de 100 kg de produtos químicos para serem misturadas na droga.

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Novamente, os bandidos falaram em códigos. Eles se referem a B como sendo cocaína e usam a palavra bolo para os dois (a cocaína e as substâncias para a mistura).

O paraguaio também afirmou que faria duas viagens para a entrega do material acertado. O preso questiona se as drogas chegariam antes do Carnaval. Veja os principais trechos da conversa:

Uma outra interceptação, feita em outubro de 2009, mostrou uma conversa do preso Marcelo Santos Silva, o Carlão, com o paraguaio Juan Arnaldo sobre a chegada de produtos químicos para se misturar com a cocaína

Carlão era o segundo na hierarquia da quadrilha no Brasil e o encarregado de fazer a ponte com o paraguaio. Ele estava abaixo apenas de Luiz André Ribeiro Fiúza, o Pastor, que na época das investigações estava preso no presídio Plácido Sá Carvalho, no Complexo Penitenciário de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro.

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Na conversa, o paraguaio falou que teria enviado para o Rio uma mistura de benzo e chelocaína. De acordo com a polícia, se tratavam na verdade de benzocaína e xilocaína.

Troca de carros por drogas

As investigações feitas pela PF na época revelaram que o fornecedor paraguaio exigiria o envio de carros para a fronteira como forma de pagamento pelas drogas.

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Interceptações feitas em dezembro de 2009 flagraram Nando supostamente questionando um suspeito brasileiro conhecido como Coquinho, filho do traficante Pastor, sobre o envio de uma picape.

Na conversa, ele disse a Coquinho que comparsas no Paraguai aguardavam pelo veículo. O brasileiro respondeu dizendo que ficaria na porta da casa de uma pessoa para roubar uma Hylux preta e que, para efetuar o roubo, teria um “brinquedo” (arma).

Em outras conversas gravadas, os suspeitos chegaram a comentar sobre o envio de uma Pajero e de um Palio Weekend para o Paraguai em troca de drogas.

Mulheres

Segundo as investigações, Pastor e Carlão também usavam suas respectivas mulheres para realizar as negociações. A companheira de pastor, por exemplo, foi flagrada em uma escuta telefônica negociando com uma pessoa não identificada a venda de uma pistola 9 mm ao preço de R$ 4.500, além de uma metralhadora ponto 40 (arma antiaérea).

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Há também uma conversa em que Carlão fala para uma das mulheres que atuava no grupo que poderia trazer para o Brasil fuzis calibre 762 ao preço de R$ 28 mil.

Pastor foi condenado a 17 anos e seis meses de prisão pelos crimes de tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico. Carlão foi sentenciado a seis anos e três meses por associação ao tráfico.

Outras quatro pessoas também foram condenadas no processo. Todas elas foram presas durante a apreensão do carregamento de drogas enviado à quadrilha no dia 8 de março de 2010.

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