Como a cidade com um dos piores IDHs do estado se tornou referência do esporte de elite entre jovens carentes

Cristian Barcelos, 17 anos: esperança de futuro do golfe brasileiro
Isabela Kassow
Cristian Barcelos, 17 anos: esperança de futuro do golfe brasileiro

Por esta nem Nelson Rodrigues esperaria. É verdade que a “pátria em chuteiras” continua cheia de garotos que lutam diariamente para ser estrelas do futebol. Mas um projeto desenvolvido em Japeri, na baixada fluminense, prova que hoje há paixões em outros campos que também alimentam o sonho de jovens carentes. Em uma localidade deste pobre município fluminense, localizado a 64 quilômetros da capital, o gramado é verdíssimo, bem cuidado, aparado diariamente, mas a bola que a garotada coloca para rolar é a de outro esporte: o ainda elitizado golfe .

O único campo público do esporte no Rio ocupa uma área de mais de 510 mil hectares. Quase dois Maracanãs. Há uma vasta área de planície e, ao redor, desníveis, pequenos morros, muitas árvores e até um lago. Ali jovens de 8 a 17 anos vestem camisa polo, luvas e bonés de marcas estrangeiras e aprendem a gostar de um esporte que, na maioria das vezes, é associado às classes mais abastadas.

Crianças de 8 a 17 anos têm aulas no campo público
Isabela Kassow
Crianças de 8 a 17 anos têm aulas no campo público
Fazenda abandonada

O projeto, inteiramente gratuito, é organizado pela Federação de Golfe do Rio e conta com apoio de sócios de clubes nobres, além de algumas empresas privadas. Tudo começou em 2006, de maneira tímida, com apenas 16 alunos. A turma era formada por “caddies”, encarregados de segurar os equipamentos de jogadores em campos nobres, como o Golf Club da Gávea e o Itanhangá Golfe Clube, em São Conrado, ambos da zona sul do Rio. À época a iniciativa não era exclusiva para crianças e jovens. Jair Medeiros, hoje com 43 anos, foi daquela turma. “Começamos a usar este terreno para praticar o esporte perto de casa. A prefeitura nos ajudou com a compra do espaço, que era uma fazenda abandonada, e a Federação de Golfe do Estado veio em seguida para dar todo o suporte necessário”, relembra Jair, que hoje é instrutor.

Vicky Whyte, diretora do Golfe Público de Japeri e ex-presidente Federação de Golfe do Estado
Isabela Kassow
Vicky Whyte, diretora do Golfe Público de Japeri e ex-presidente Federação de Golfe do Estado
Seis anos depois daquela tacada inicial, já são 120 jovens envoltos na oportunidade de aprender um novo esporte, além dos benefícios diretos que a atividade propõe. Vicky Whyte, diretora do Golfe Público de Japeri e ex-presidente Federação de Golfe do Estado do Rio de Janeiro, lista os diversos benefícios trazidos pelo golfe. “É um esporte que exige muito da concentração do atleta, além de ser uma atividade agradável, sem o contato físico”, diz ela que, apesar do nome, é brasileira – filha de pai americano.

Leia também: Barra Mansa, a cidade com 22 mil alunos de música

Os jovens têm aulas duas vezes por semana, às terças e quintas ou quartas e sextas, em dois turnos. Há uma longa fila de espera de crianças que querem desvendar os mistérios deste esporte tão pouco difundido no País. Todos os inscritos no projeto ganham cesta básica mensal, têm acompanhamento de reforço escolar, precisam estar matriculados na escola, recebem tratamento dentário e fazem uso de computadores na própria sede do clube. Os alunos não pagam nem o uniforme: bermuda um pouco acima dos joelhos, camisa polo sem nenhum amasso, boné, luvas, meias brancas, sapatos antiderrapantes, além das bagagens com, no mínimo, nove tacos e bolas, muitas bolas.

Esporte de rico?

É de se louvar que, mesmo com um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do estado, a cidade esteja na rota internacional do golfe. Japeri ocupa a amarga 78ª posição, entre os 91 municípios fluminenses no ranking do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Muitas das ruas não são asfaltadas, o esgoto corre a céu aberto em várias delas, há lixo espalhado pelas calçadas do entorno do clube, e a violência ainda é uma realidade.

Mas é pelo projeto com o golfe que Japeri ganha atenção no exterior. “Sou chamada quase todo mês para viajar em congressos, para explicar o que é isso aqui, como conseguimos nos tornar referência. É um ‘case’ de sucesso, assim entendido pela R&A, a entidade máxima do golfe internacional, que também é nossa apoiadora”, conta Vicky. Para ela, este é um esporte elitista na América do Sul porque não há campos públicos disponíveis para a população. “Na Europa e nos Estados Unidos, em quase todo bairro tem um campo para crianças e adultos praticarem. Precisamos expandir estas áreas de prática esportiva pelo Brasil”, continua.

Mesmo com todos os benefícios que o esporte propõe a seus praticantes e o apoio dado pelo clube aos jovens, é surpreendente o interesse real que se criou em torno do golfe. “Saio da escola e venho direto para cá. Por mim treinava até de noite. Gosto muito”, conta a pequena Lívia Maria, de 10 anos. Entre um turno e outro, se percebe o vai e vem de crianças pela cidade, em bicicletas, rumando para as partidas de golfe. Há uma grande mobilização, no primeiro sábado de cada mês, para que os pais vejam seus filhos competirem em torneio local.

Uma favela é vista entre as árvores, ao fundo do campo de golfe
Isabela Kassow
Uma favela é vista entre as árvores, ao fundo do campo de golfe

Rio 2016 no horizonte

Ainda faltam quatro anos, mas é inevitável que, em se tratando de esporte, se faça algum plano para as Olimpíadas do Rio. O papo que mais se ouve entre os futuros atletas é que não vão demorar a aparecer campeões como o americano Tiger Woods . Realidade que, para os entendedores do assunto, ainda está longe do gramado verde de Japeri.

“Todo mundo sonha com as Olimpíadas do Rio, em 2016. Mas sabemos que não dá para sonhar com tanto e tão depressa. Em 2016 eles serão observadores e voluntários. Só em 2020 pretendemos ter algum representante de Japeri no torneio olímpico”, diz o professor Tiago Silva, 28 anos, quarto no ranking brasileiro de profissionais de golfe. “É um esporte democrático, sem a pressão da idade. Não há limite de faixa etária para o atleta. Eles terão muito tempo para aprender e se desenvolver”, completa.

Vicky se enche de orgulho ao relatar um episódio recente, ocorrido entre seus pupilos. “Perguntei a um aluno dia desses qual era seu maior ídolo. Pensei que ele falaria que é o Tiger Woods, o melhor do mundo na atualidade. Mas não, ele disse que é o Cristian. Olha que lindo!”. O Cristian que a diretora do clube cita é Cristian Barcelos, de 17 anos, cria do projeto e segundo no ranking estadual juvenil. Promessa de futuro brilhante confirmada pelo professor Jair Medeiros. “Precisão, firmeza e concentração nas tacadas. Ele é muito bom”, afirma.

“Não me pergunte por que o golfe e não o futebol. É paixão, coisa de paixão”, diz Cristian, exibindo um corte de cabelo a la Neymar. Jeito e visual de craque. Independentemente do tipo de gramado.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.