De unidade de combate, Bope se transforma em tropa de pacificação

Perfil de operações muda e maioria hoje é sem tiros, em favelas pré-UPP. Após tomar área, tropa de elite atua como “prefeitura”: regula mototáxi, controla festas e faz até cultos

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Cléber Júnior/Agência O Globo
Bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro hasteadas na Rocinha, após ocupação
Conhecido e temido pelo combate em áreas de conflito, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) exerce cada vez menos esse papel de guerreiro que o notabilizou e assume uma função paradoxalmente oposta, a de “pacificador”.

Leia também: Ação do Bope em favelas é tendência de Forças Especiais dos EUA no Iraque

Raphael Gomide
Reunião do Bope em quadra da Rocinha, após ocupação, teve cerca de mil pessoas
Essa mudança de perfil da unidade vem ocorrendo desde a implantação do programa das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), no fim de 2008, mas se intensificou a partir de 2011, capitaneado pelo atual comandante da unidade, tenente-coronel René Alonso. Ao assumir em 28 de dezembro de 2010, Renê afirmou ao iG que sua prioridade seria a pacificação de favelas .

A maior parte das operações da unidade desde então tem sido em áreas de pacificação, seja na tomada ou na manutenção do controle do território, de favelas como a Rocinha e o Complexo do Alemão . Os confrontos não acabaram - e o Bope ainda é chamado para emergências violentas -, claro, mas hoje a maioria de suas ações é sem tiros.

Após assumir o controle das comunidades antes dominadas pelo tráfico, os integrantes da tropa de elite ainda atuam provisoriamente – até a implantação das UPPs – como espécies de “prefeitos”, cuidando do ordenamento do local, organizando o transporte irregular, regulando serviços antes informais e impondo novas condições de bailes e festas.

Em suma, atuam como garantidores da segurança e como pacificadores.A decisão estratégica de ter o Bope como primeira tropa no terreno das futuras UPPs foi tomada pela Secretaria de Segurança e o comando da PM, tendo em vista o expertise dos “homens de preto” em áreas de risco, o prestígio do Bope e a maior capacidade de dissuasão dos criminosos, do ponto de vista do efeito moral sobre os adversários.

AE
Bope, na UPP do Morro São João, área central do Rio
“O Bope é uma tropa que tem boa fama, tida como disciplinada e confiável. Naquele momento histórico, encarnava a representação simbólica da confiabilidade, ainda que também tivesse a imagem de tropa de combate”, explicou ao iG o subcomandante da unidade, tenente-coronel André Silva. “Somos uma tropa confiável e provada no terreno”, resumiu o comandante, coronel René.

Embora inicialmente as ações tenham enfrentado a resistência de traficantes, logo os criminosos passaram a optar por abandonar o local após o anúncio das datas de ocupação. Isso poupou a unidade de tiroteios e reduziu os riscos de “efeito colateral”, morte e ferimentos de inocentes atingidos por balas perdidas. Hoje a maior parte das ações da unidade transcorre sem tiroteios.

“O cenário mudou e hoje o Bope cumpre o protocolo de forma mais confortável. Quem tinha condição de entrar? A unidade entrava, fazia dois ou três dias de operações, buscas prisões, passava um tempo lá e entregava efetivamente a outro”, disse Silva.

Com soldados flexíveis, nova atuação do Bope é tendência mundial entre Forças Especiais

Em seguida à tomada, cabe ao Bope manter as áreas dominadas por alguns meses, até a instalação definitiva da UPP. É principalmente nessa fase que os policiais da tropa de elite desempenham essa atuação de pacificadores. Realizam tarefas de ordenamento do local e assumem uma função de “prefeitos” da região, organizando o transporte irregular, impondo novas condições de bailes e festas.

Site do Exército dos EUA
Forças especiais dos EUA atuam em contato com a população local, de modo semelhante ao Bope nas favelas do Rio
A nova forma de atuação do Bope, de pacificação, mais voltada para o contato com a população do que para o confronto, tem semelhança com a adotada pelo Exército Brasileiro no Haiti e por tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. É uma tendência atual de forças de ocupação de forças especiais, pelo mundo . O perfil do soldado do Bope – mais pró-ativo, independente e flexível – é o mais adequado para esse tipo de atuação.

Logo ocupar a Rocinha, uma reunião do comandante do Bope com cerca de mil moradores em quadra antes dominada pelo tráfico estabeleceu o fim da cobrança de diárias aos mototáxis , entre outras novas regras de convivência após a tomada de controle da área.

O mototáxi é, em ocasiões, usado para práticas criminosas (transportar criminosos, armas e drogas) por sua mobilidade. Se fosse outro tempo, pararíamos tudo. Mas o que fazemos hoje é normatizar, organizar. Não enxergo isso acontecendo há 15 anos: antes era combater, combater, ‘joelho no pescoço’ e vamos embora! Hoje temos que sentar, reunir, dialogar, negociar”, disse o subcomandante Silva, que foi conselheiro policial na missão da ONU no Sudão e atuou no Batalhão de Campanha da PM na Força de pacificação no Alemão/Penha.

Agência O Globo
Bope checa documentação de moto no Complexo São Carlos
Bope faz reunião com a comunidade e procura escolas e igrejas como interlocutores

Nos lugares onde entra, o Bope faz uma reunião geral e contato com escolas e igrejas locais, para se aproximar da comunidade e estabelecer comunicação com disseminadores e formadores de opinião internamente. Foi assim na Rocinha e está sendo assim no Alemão, onde a Tropa de Elite ocupa, desde 27 de março, as áreas antes mantidas pela Força de Pacificação do Exército.

Frequentemente, a ação é fruto da iniciativa do policial da ponta. Um sargento, pastor evangélico, viu um jovem casal, de 19 e 17 anos de idade, em uma casa no Alemão, vivendo com um bebê em ambiente sujo e bagunçando.

Usando da autoridade “moral”, o policial deu algumas horas para que o casal banhasse a criança, a arrumasse e limpasse a casa, senão ele chamaria o Conselho Tutelar. Segundo o subcomandante, a ação do policial foi apoiada pelos vizinhos e funcionou.

Também de forma não-institucional, policiais do Bope individualmente celebram cultos evangélicos semanais em áreas ocupadas.

“A guerra não pode ser o objetivo final: a meta é a paz”, diz chefe do Estado-Maior da PM

Agência O Globo
Para Pinheiro Neto, a guerra não pode ser o objetivo, mas o meio para obter a paz
Para o chefe de Estado-Maior operacional da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto, comandante do Bope em 2007 e 2008, a mudança de atividade da tropa é uma nova realidade à qual os próprios policiais – habituados ao confronto – precisam se adaptar.

“A paz é o objetivo do nosso trabalho. Ninguém pode querer guerrear por guerrear. A guerra não pode ser o objetivo final: a meta é a paz. E o policial precisa se adaptar a essa nova realidade”, afirmou o coronel Pinheiro Neto.

Nas comunidades ocupadas pelo Bope, é comum ouvir comentários temendo por quando a equipe saísse. “Enquanto o Bope, com fama de incorruptível, está aí, está uma maravilha. Mas depois, quando vierem os PMs normais, só Deus sabe!”, disse ao iG um motoboy da Rocinha.

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