Ação do Bope em favelas é tendência de Forças Especiais dos EUA no Iraque

Chefe de Estado-Maior da PM, Pinheiro Neto tem no gabinete manual de Contrainsurgência americano, que expõe doutrina de general Petraeus e prega “conquista de corações e mentes”

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

EFE
General David Petraeus (C) cumprimentando o presidente afegão, Hamid Karzai, formulou a doutrina de contrainsurgência dos EUA empregada no Afeganistão e no Iraque
A nova forma de atuação do Bope, de pacificação, mais voltada para o contato com a população do que para o confronto , tem semelhança com a adotada pelo Exército Brasileiro no Haiti e por tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. É uma tendência atual de forças de ocupação de forças especiais, pelo mundo.

Raphael Gomide
Bope faz reuniões com os moradores
Leia também: De unidade de combate, Bope se transforma em tropa de pacificação

Os profissionais do Bope (unidade de operações especiais como os Forças Especiais dos EUA), têm características mais adequadas que a tropa convencional para esse tipo de missão – como flexibilidade, adaptabilidade, iniciativa.

É da essência das operações especiais o perfil de soldado independente, mais pró-ativo, lançado antes do resto da tropa no terreno, para fazer a ligação com forças locais.

No Afeganistão, por exemplo, pequenas guarnições de Forças Especiais dos EUA fizeram a ligação com generais afegãos da Aliança do Norte para, a cavalo, combater os talebãs. Com apoio, dinheiro e tecnologia, poucos soldados ajudaram os opositores a derrubar o regime talebã.

Pinheiro Neto tem manual de contrainsurgência dos EUA no gabinete

Agência O Globo
Pinheiro Neto tem o manual de contrainsurgência dos EUA no gabinete
Curiosamente, o coronel Pinheiro Neto (ex-comandante do Bope e “Caveira 41”) mantém, em seu gabinete no quartel-general da PM, o manual de Contra-Insurgência do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.

O documento expõe a doutrina norte-americana de operações de guerra assimétrica contra guerrilhas e planos de ocupação das áreas, dando vital importância às ações no “campo humano”.

Lá como aqui, um dos principais objetivos da doutrina é “conquistar corações e mentes” , ganhar a confiança dos moradores, para que eles apoiem o trabalho das autoridades e as municiem com informações para o combate dos criminosos.

O autor do trabalho é o general-de-exército norte-americano da reserva David Petraeus, diretor da CIA (Central Intelligence Agency) desde setembro de 2011 e ex-comandante das tropas da OTAN e das forças do Exército dos EUA no Afeganistão.

Exército dos EUA/Divulgação
Militares das Forças Especiais dos atuam com base no manual de contrainsurgência
De acordo com a doutrina, uma campanha de contrainsurgência é um misto de operações ofensivas, defensivas e de manutenção de estabilidade, conduzidas por múltiplas linhas de operação. Cenário parecido com o do Rio de Janeiro, sendo os traficantes as tropas de “contrainsurgência”.

O trabalho americano diz que a tarefa “exige soldados para empregar uma conjunção de tarefas de combate comuns e habilidades mais comumente associadas a agências não-militares, com equilíbrio entre elas variando do da situação local”. Segundo o trabalho, os soldados devem estar prontos para “serem saudados com um aperto de mãos ou uma granada de mão”.

“Conduzir uma campanha de contrainsurgência, portanto, requer uma força flexível, adaptável liderada por líderes ágeis, bem informados e culturalmente astutos.”

Exército dos EUA/Divulgação
Soldados das Forças Especiais dos EUA falam com dono de loja no Iraque
Petraeus foi o principal doutrinador da estratégia americana de contrainsurgência no Afeganistão e no Iraque.

O foco passou a ser a proteção de civis, em vez de matá-los, assumir mais riscos e usar força mínima, não máxima – no que parece ter sido a decisão do governo do Rio também, ao avisar com antecedência a data das ocupações, para minimizar os “efeitos colaterais” e "conquistar corações e mentes".

Para o general diretor da CIA, o terreno decisivo dessa batalha é o “terreno humano”. “Conquistar a confiança das pessoas, falar com elas, fazer perguntas e aprender sobre sua vida. Ouvir, aprender e se adaptar”, diz o manual norte-americano, que, de alguma maneira, vem sendo aplicado no Rio pelo Bope e pelas UPPs.

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