Rituais do Daime escondem uso de drogas

Presidente da Federação Nacional da Ayahuasca admite que uso de drogas está disseminado em rituais do Daime e defende repressão

Severino Motta, iG Brasília |

O presidente da Federação Nacional da Ayahuasca - mais conhecida como Santo Daime -, Emiliano Dias Linhares, disse nesta segunda-feira, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que o uso de drogas como a maconha e a cocaína estão presentes em diversos templos religiosos. Segundo ele, caso não exista uma forte repressão, a proposta do deputado Paes de Lira (PTC-SP), que quer proibir o chá, ganhará força e a religião fundada no início do século 20 pode acabar.

“Hoje há uma banalização no uso do chá. A mistura com drogas está acontecendo em larga escala. Há quem o misture com a Santa Maria (maconha), com a Santa Clara (cocaína) e mais recentemente com crack, e deram nome de São Pedro para ele. Isso é um absurdo que tem que acabar. Eu prefiro ver o Daime proibido a isso seguir assim, com gente dando droga até para crianças”, disse.

A audiência pública realizada nesta tarde foi feita a pedido do deputado Paes de Lira, que quer proibir o uso da bebida alucinógena no Brasil desde março, quando o cartunista Glauco foi assassinado por Carlos Eduardo Nunes, adepto da igreja de Daime, Céu de Maria, fundada pelo artista.

“O uso do chá pode levar a surtos psicóticos ou ao consumo de outras drogas. Hoje tivemos denúncias graves do uso de drogas junto com o chá. Precisamos analisar melhor o tema e a liberação do uso da Ayahuasca”, disse Lira.

A igreja fundada por Glauco chegou a ser citada por Emiliano. Durante exposição na audiência pública o presidente mostrou um documento enviado por ele à Polícia Federal onde constava o nome da Céu de Maria na lista de igrejas em que ele acusa de haver uso de drogas paralelamente ao Daime.

“Nós entregamos documento para o Conad [Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, e para a Polícia Federal], mostrando os pontos de narcotráfico. E um deles era lá [no Céu de Maria]. Quinze dias depois o Glauco morre”, disse.

Além do uso de entorpecentes, que potencializam o efeito do chá, Emiliano também criticou a comercialização da Ayahuasca. De acordo com ele, qualquer um pode comprar os ingredientes do chá pela internet ou indo a alguns dos templos que desrespeitam a Lei.

“E compram para usar com maconha, com anfetamina, nas festas raves e nos prostíbulos”, disse.

O presidente da Federação sugeriu que o governo crie um órgão para fiscalizar o uso do Santo Daime no Brasil, fechar casas e prender os responsáveis em locais onde seja identificado o uso de drogas junto ao chá.

Briga

Durante a audiência pública Emiliano bateu boca com o presidente da União Brasileira do Vegetal - um dos maiores grupos do Santo Daime – Flávio Mesquita da Silva. Emiliano cobrou um posicionamento forte por parte da seita no combate às drogas. Ainda criticou um vídeo exibido por Flávio mostrando a cultura do Daime.

“A situação comprovadamente é que chegou um ponto que o Estado precisa sim agir. Se atentar à realidade é momento de ação. Não adianta colocar vídeo e mostrar coisa bonita enquanto gente é aliciada e tem tráfico dentro dos rituais Santo Daime. Muitas coisas foram ditas e poucas resolvidas”, disse.

Flávio, por sua vez, disse que o controle na União do Vegetal é rígido, mas que não estava ali para entrar em polêmicas pois há mais de 20 anos luta pela legalização da Ayahuasca, e que Emiliano não sabia disso “pois começou a tomar há pouco tempo e não conhece a história” do chá.

Ele ainda entregou uma petição extra-judicial para que Emiliano a assinasse. A intenção é impedir que Emiliano use o nome da União do Vegetal em sua Federação da Ayahuasca.

Protesto

Cerca de 500 pessoas participaram de um protesto em frente à Câmara pouco antes da audiência pública, que começou às 15h. Adeptos do Daime, pediam para que os deputados não apoiassem o projeto de Paes de Lira, que proíbe o chá no país.

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