A Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos pontos turísticos mais visitados do Rio de Janeiro que há décadas sofre com os problemas ambientais, finalmente está apresentando melhoras significativas, após um árduo trabalho de pelo menos 10 anos.

Situada entre os bairros que compõem a área mais nobre da cidade, a lagoa tem um espelho d'água de 2,2km² e profundidade média de 3 metros. Em seu entorno há três parques interligados por 7,8 quilômetros de ciclovia, além de clubes, bares e restaurantes - infraestrutura frequentada tanto por moradores quanto por visitantes.

A ocupação desregrada e a degradação ambiental causada pelo crescimento da cidade, no entanto, têm causado sérios problemas ao ecossistema da Lagoa Rodrigo de Freitas, cuja área total já foi reduzida em cerca de 50% ao longo dos anos devido aos sucessivos aterros.

Em 2009, a melhoria das condições da água surpreederam de forma agradável os cariocas, já acostumados a ver toneladas de peixes mortos flutuando.

Segundo dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), dos 16.000 coliformes fecais por 100 mililitros de água aferidos em 2006, a lagoa hoje registra apenas 1.300 - 300 a mais que o nível mínimo para que a água seja considerada boa para o banho.

A imprensa local destacou a "volta à vida" da lagoa, e todos comemoraram quando o grupo empresarial EBX anunciou que investiria 28 milhões de reais (15,39 milhões de dólares) num projeto em parceria com o governo para revitalizar a área.

No entanto, o biólogo carioca Mario Moscatelli, que desde 1989 realiza um trabalho independente de recuperação da vegetação original da lagoa Rodrigo de Freitas, afirma que o fenômeno não aconteceu da noite para o dia.

"O nosso paciente está sendo tratado pelo menos desde 2000. Eu, pessoalmente, estou nesta luta há 20 anos. A lagoa não melhorou do ano passado para este", enfatizou Moscatelli.

Os registros de mortandades de peixes na lagoa datam de 1854, mas a situação atingiu um ponto crítico entre o fim dos anos 90 e o início desta década.

Só em fevereiro de 2000, 140 toneladas de peixes morreram devido à falta de oxigênio na água. Entre 2001 e 2002, a prefeitura recolheu quase 300 toneladas de peixes mortos.

Segundo Moscatelli, a crise das mortandades fez com que a população e o Ministério Público pressionassem as autoridades, que então se viram obrigadas a agir após décadas de omissão, descaso e desculpas descabidas.

"É muito simples: basta parar de jogar lixo e esgoto na lagoa para ela ficar boa", indica Moscatelli, que passou anos denunciando as centenas de ligações clandestinas de esgoto que despejavam detritos na água sem qualquer tipo de tratamento.

Em 2001, a Cedae (empresa estadual responsável pelo fornecimento de água e pelo tratamento de esgoto) começou finalmente a empreender obras para renovar o sistema de drenagem da lagoa, além de apertar a fiscalização sobre os despejos clandestinos.

De acordo com a Comlurb, empresa municipal responsável pela limpeza urbana, a quantidade de lixo recolhida diminuiu expressivamente desde abril de 2009, depois de ter registrado um pico entre fevereiro e novembro de 2008.

"A situação está estabilizada, o investimento privado é bem-vindo, mas a melhora será temporária na medida em que as autoridades e a sociedade não se engajarem na manutenção das medidas de preservação", estima o biólogo carioca.

Mario Moscatelli explica ainda que o mais forte indício de que a Lagoa Rodrigo de Freitas está de fato se recuperando é o retorno da fauna, um processo lento e que exige uma preservação continuada do ecossistema em questão.

"Estamos vendo espécies de aves, crustáceos e peixes, por exemplo, que não frequentavam a lagoa há 10 ou 20 anos. Isso indica que o ambiente se estabilizou", relata o biólogo.

"É a variedade de espécies, e não a quantidade de indivíduos, que indica a melhoria do ecossistema", conclui.

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