Remédio direto ao cérebro

Nanotecnologia descobre como levar medicamentos de forma mais eficiente direto ao cérebro

Chris Bertelli, iG São Paulo |

A descoberta de nanopartículas, 90 mil vezes menores do que um fio de cabelo, abriu um cenário totalmente novo para a pesquisa na área da saúde.

Esses veículos para a administração de remédios e princípios ativos estão em escalas tão pequenas que, segundo novas descobertas, podem vencer e barreira hematoencefálica, uma estrutura que atua principalmente para proteger o Sistema Nervoso Central (SNC) de substâncias químicas presentes no sangue.

O novo método pode ser utilizado principalmente no tratamento de doenças do SNC e de problemas ortopédicos. Nestes casos, essas partículas funcionariam como cavalos de tróia.

“Você esconde o medicamento dentro do que chamamos de nanocarreador (molécula em escala nanométrica que carrega o fármaco) a substância que quer colocar dentro do cérebro, que reconhece o carreador como parte do organismo e deixa que ele penetre”, explica Antonio Claudio Tedesco, coordenador do centro de nanotecnologia da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.

Uma vez lá dentro, o fármaco é administrado no local específico, com mais penetração e eficiência, diretamente nas células doentes. Na administração convencional, muito do remédio se perde porque é impedido pela barreira hematoencefálica de entrar.

O sistema também pode ser utilizado para tratamento de casos de câncer no cérebro de difícil acesso: o nanocarreador levaria quimioterápicos até as células cancerígenas, que seriam eliminadas no local. Os testes estão sendo realizados em animais.

As nanopartículas também permitiram um grande avanço no ramo da ortopedia. “Descobriu-se que existe uma porosidade grande nesse sistema. O que estamos fazendo é enriquecer nanopartículas com fator de crescimento e colocá-los dentro de uma veia removida do próprio paciente. Isso é suturado nas duas pontas de um nervo que foi rompido acidentalmente. Esse fator de crescimento e a estrutra porosa criam um trilho no qual o nervo pode crescer novamente, ou seja, ser reconstruído”, diz Tedesco.

“Se pudermos fazer isso para quem perdeu o nervo de um dedo, por exemplo, no futuro poderemos restabelecer terminações nervosas maiores”, acredita.

Estudos

O Centro de Nanotecnologia e Engenharia Tecidual foi aberto em março deste ano, mas as pesquisas sobre o tema no Brasil já têm 15 anos. Antonio Tedesco coordena os estudos desenvolvidos no local e fecha parcerias para que as pesquisas clínicas sejam realizadas em diversos Estados. “Vou montando uma rede de cooperação e continuo sempre abrindo novas frentes de pesquisa”, afirma ele.

Um dos exemplos é a parceria firmada com o ambulatório de dermatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde são atendidos pacientes com casos de câncer de pele tratados com nanotecnologia e fotoativação. “Em geral, montar uma estrutura como essa custa 100 mil reais e R$ 70 para o tratamento de cada lesão.” Fora esse ambulatório, existe mais um em Brasília, em parceria com a UnB, e um segundo que está prestes a ser inaugurado, em Manaus.

Por enquanto, pesquisas com resultados satisfatórios, como a do tratamento de câncer de pele com fotoativos, que alcançou um índice de 95% de cura nos pacientes tratados, ainda não foram negociadas. O problema, explica o coordenador, é a falta de interesse em investir.

“Os laboratórios querem a tecnologia, buscar o registro na ANVISA, ir atrás da legislação, para colocar o produto na prateleira. Eles não querem parceria, você tem de passar a tecnologia sem ônus, sem obrigação de que haja investimento na produção do remédio. Porque a mesma tecnologia pode ser utilizada para estética, que é onde se ganha milhões”, afirma.

Apesar das dificuldades enfrentadas, as descobertas feitas pelo centro têm obtido reconhecimento mundial. “Em muitas áreas, nós estamos na frente da França, dos Estados Unidos, ou de países da América do Sul”, relata.

A famosa marca de cosméticos francesa Dior escolheu o centro brasileiro para desenvolver suas novas pesquisas utilizando a nanotecnologia em prol da beleza. O objetivo é desenvolver estudos na área de prevenção do envelhecimento.

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