Publicidade
Publicidade - Super banner
Brasil
enhanced by Google
 

Reestruturação de papéis: ela provê e ele cuida do lar

Reestruturação de papéis: ela provê e ele cuida do lar Por Marcela Rodrigues Silva São Paulo, 11 (AE) - Às 6h30, Mauro Correa Filho, de 29 anos, acorda junto com a mulher Tatiana, 29 anos, e os dois filhos, Gabriella, de 3 anos, e Mauro Neto, de 6 meses. Tatiana leva a filha à escolinha e segue para o trabalho, numa instituição financeira.

Agência Estado |

Por opção, o marido assumiu a administração da casa. É ele quem cuida do bebê: troca a fralda, faz dormir, dá banho e mamadeira; e também da filha. Ele busca Gabriella ao meio-dia, serve o almoço, geralmente preparado por Tatiana, e brinca com os filhos. A emprega limpa a casa. Tatiana chega à noite, quando eles voltam a compartilhar as funções domésticas. E assim vivem felizes há três anos.

Relatório do Centro norte-americano de Pesquisas Pew, publicado em janeiro no jornal The New York Times aponta que em um quarto dos casais casados, as mulheres são as provedoras (22%). No Brasil, não há estudo similar. A novidade por aqui é que os homens, como Mauro, estariam aceitando com mais naturalidade a ascensão das mulheres e a reestruturação dos papeis: elas provedoras e eles cuidadores do lar.

"Logo após eu ter deixado de trabalhar como bancário para atuar como autônomo no setor de transportes, minha mulher engravidou da nossa primeira filha, mas ela queria continuar com a carreira." Como Mauro não confia em ninguém para cuidar dos filhos, preferiu abrir mão da profissão para administrar a casa. "Ouvimos alguns comentários negativos no início, mas o nosso casamento continuou ótimo, foi uma decisão para o nosso bem."

Seria o fim do machismo ou Mauro, uma exceção? Para o psicobiológo Ricardo Monezi, pesquisador do Departamento de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele faz parte de uma nova geração que começa a surgir: menos preconceituosa e aberta à reestruturação de papeis. "Desde a criação, homem e mulher tiveram papéis definidos por suas características físicas. Ele, com músculos e agressividade, caçava; ela, com laços afetivos e sensibilidade, cuidava do lar."

Uma das justificativas dos machistas para manter a mulher no lar, segundo Monezi, sobretudo entre as décadas de 1940 e 70, foi de que ela era desequilibrada e emotiva demais, além de ter filhos para cuidar, o que impossibilitaria cargos de chefia. "O advento do contraceptivo, além de possibilitar a escolha de quando engravidar, equilibrou alguns hormônios femininos. Agora, com a nova demanda do mercado, que exige inteligência emocional, sensibilidade e flexibilidade, elas saem na frente."

INFÂNCIA

A professora de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) Heloisa Buarque de Almeida diz que esta reestruturação pode demorar mais no Brasil. "Não podemos nos iludir e pensar que estas mudança já aconteceram na maioria dos lares. Na Europa e nos EUA é natural que os casais partilhem tarefas da casa. Mas o Brasil ainda feminiliza estas atividades."

"Já tive contato com famílias em que o homem cuidava da casa e gostava deste papel, mas não assumia, temendo a reação dos amigos", conta Heloisa, que acredita que o primeiro passo para a igualdade deve ocorrer ainda na infância, para que uma nova geração se desenvolva com novos paradigmas. "Quantas mães pedem ajuda às filhas para lavar a louça, mas praticamente proíbem os filhos de mexerem na cozinha? A igualdade deve começar aí", sugere.

Entre as década de 1940 e 80, as mulheres eram vistas como incapazes de liderar empresas. E quem fosse, seja por necessidade ou opção, era alvo de comentários maldosos. A empresária Diva Delfini, de 64 anos, é "mulher que trabalha fora" há 30 anos e sentiu de perto as mudanças de comportamento da sociedade.

Diva começou a trabalhar em empresas de eventos em 1979 para ajudar na educação dos filhos. Três anos depois, quando o marido perdeu o emprego, ela passou a ser a única provedora. "A família questionava nossa atitude. Não dei ouvidos e mergulhei na carreira, tanto que hoje possuo minha própria empresa e pudemos garantir a educação que tanto quisemos para nossos três filhos", conta ela, lembrando que o relacionamento acabou passando por alguns abalos. "Não falhei como mãe, mas não foi nada fácil manter a vida conjugal. Entre alguns conflitos, conseguimos nos manter em união até hoje."

Para a psicanalista Belinda Mandelbaum, professora e coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Instituto de Psicologia da USP, as famílias de Mauro e Diva são exemplos para que a sociedade compreenda a nova realidade que vem surgindo, mesmo que lentamente. "Estas mudanças só atrapalham onde não há compreensão e flexibilidade."

Para Belinda, as formas de atividades mudam mais rápido que os valores, por isso as pessoas demoram em se desprender de certos modelos. "É preciso olhar para outras realidades, ver que os fatos que implicam na reestruturação de papéis, não são exclusivamente pessoais, mas sim sociais, como caso de desemprego ou mesmo da facilidade da mulher de se manter no mercado de trabalho. Vendo dessa maneira, o homem não precisa se sentir um fracassado".

Leia tudo sobre: iG

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG