Raposa Serra do Sol opõe ministro da Justiça ao governo de Roraima

BRASÍLIA - Xingamentos, provocações e muita tensão marcaram o encontro do ministro da Justiça, Tarso Genro, com o governador de Roraima, José Anchieta Júnior (PSDB), na audiência conjunta das comissões da Amazônia e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, para falarem sobre a situação de Raposa Serra do Sol (RR). A demarcação das terras indígenas de Roraima será julgada dentro de 20 dias pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que já soma 33 ações relativas ao mesmo processo.

Regina Bandeira - Último Segundo/Santafé Idéias |

Logo no começo da reunião, lotada, o governador José Anchieta, que defende a demarcação das terras em ilhas, criticou a postura dos policiais federais que estão na região para retirar os não índios da reserva. Segundo ele, se o governo local não tivesse entrado com uma ação no Supremo suspendendo as ações policiais, teria havido uma tragédia. O presidente Lula deveria me agradecer por não ter havido uma tragédia de grandes proporções em Raposa. Morreriam índios, mas também muitos policiais, disse.

O grupo de seis arrozeiros que ocupa a reserva desde a década de 80 se recusa a sair do local. E, em abril, a Polícia Federal suspendeu as ações de retirada dos invasores por ordem do STF, a pedido do governador de Roraima.

Irritado, o ministro Tarso Genro devolveu ao governador que as ações da PF no Estado buscam pacificar e tranqüilizar a região que é instável e tensa, e que diversas vezes os agentes se deparam com grupos violentos tendo atitudes terroristas, destruindo pontes e atacando (com armas de fogo e bombas) os índios.    

Mentiroso

A fala de Tarso Genro acirrou os ânimos dos parlamentares, e provocou várias discussões paralelas e até bate-bocas. Entre os que mais se alteraram, Jair Bolsonaro (PP-RJ) chegou a xingar o ministro Tarso de mentiroso e terrorista. Um líder indígena que estava presente reagiu, jogando água no parlamentar e seguranças foram chamados para intervir.

Tarso Genro respondeu à provocação do deputado Bolsonaro na saída. Ele pensa estar ainda na ditadura militar. Se não tive medo de olhos arregalado e grito na ditadura, imagine se teria medo agora, pontuou.

Durante as quase cinco horas de duração da reunião, o ministro Tarso defendeu a posição favorável à demarcação contínua das terras indígenas de Roraima. Temos de seguir a Constituição. Se ela for aplicada de acordo com os precedentes históricos, a demarcação irá ser mantida pelo STF e os índios ficarão com sua terras, inclusive as de fronteira, disse.

O governador José Anchieta defendeu os arrozeiros da região, que representam 6% dos PIB do Estado e argumentou que as áreas de fronteira deveriam ser povoadas por não índios para que narcotraficantes de outros países não entrem com facilidade no Brasil. Se a área da fronteira ficar com os índios, a soberania estará em risco, argumentou.

Uma nova reunião está marcada para o dia 28, entre o ministro Tarso Genro, o governador de Roraima, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger.

Sucessão de Marina Silva

Questionado por jornalistas, o ministro da Justiça disse não saber quem o presidente Lula escolheu ou convidou para suceder Marina Silva no Ministério de Meio Ambiente. Ele tem dois nomes muito bons, que são aceitos na classe política e ambientalista (Carlos Minc e Jorge Viana).

Raposa Serra do Sol

Com relação à demarcação das terras indígenas, Tarso Genro reafirmou que a posição do governo federal é de que ela ocorra e seja de forma contínua, mas disse estar preparado para uma decisão judicial diferente. Seja qual for a decisão do STF, nós a respeitaremos. O importante será como a intrusão (retirada dos intrusos) ocorrerá. Essa é uma questão muito complexa. Os debates foram muito tensos, em vários momentos, declarou o ministro Tarso Genro.

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