O ¿Pezão¿ do nome do vice-governador Luiz Fernando de Souza tem razões óbvias. Ele calça sapato 47, o que já lhe rendeu momentos curiosos com eleitores e mesmo com políticos. Foi o caso do prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, que ficou encantado com o apelido que Luiz Fernando de Souza adotou como sobrenome político.

Em junho de 2009, numa cerimônia de assinatura de carta-compromisso do governador Sérgio Cabral e do prefeito do Rio, Eduardo Paes, para a Copa do Mundo de 2014, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, fez uma brincadeira: deu a Pezão uma escultura em formato de pé, comprada nas Bahamas, onde o cartola participara do Congresso da Fifa que anunciara as 12 cidades-sede da Copa. Pezão se acostumou e gosta das piadas com o apelido.

Com ele não tem cotidiano, é sempre um imprevisto, conta um dos principais auxiliares de Pezão, o subsecretário de Obras, Vicente de Paula Loureiro. A disposição para a conciliação e para o bom humor ajuda a quebrar as tensões de uma rotina complicada, elogia Loureiro. A rotina pesada, aliás, fez Pezão abdicar das caminhadas matinais na orla do Leblon e Ipanema.

O subsecretário destaca como característica do vice-governador a sua conhecida ansiedade. Ou senso de urgência, como define o próprio Pezão. Essa ansiedade, aliás, é citada por outro auxiliar como qualidade mas também como defeito. Ele cobra em excesso. Antes mesmo do previsto acha que as coisas já deverão ocorrer. Os atrasos são a maior fonte de irritação do vice-governador, sobretudo o descumprimento de prazos de concessão de licenças ambientais para as obras.

De Piraí

Essa ansiedade vem desde os tempos de Piraí, pequeno município localizado a 70 quilômetros da capital. Foi ali que Pezão ingressou na vida pública, no início da década de 80. E desde então ¿ raridade na política nacional ¿ milita no mesmo partido: o PMDB. Eleito vereador em 1982, exerceu dois mandatos até tentar ser prefeito em 1990. Perdeu e voltou à Câmara Municipal dois anos depois. Eu era muito novo e inexperiente, lembra. Em 1996, elegeu-se prefeito, com 75% dos votos válidos. Reeleito em 2000, com 86% dos votos válidos, Pezão dividia a gestão na prefeitura com o comando da Associação de Prefeitos dos Municípios do Estado do Rio de Janeiro ¿ graças a essa função tornou-se um articulador respeitado. Não à toa, ao deixar a prefeitura, atendeu ao convite da então governadora Rosinha Garotinho para ser o subsecretário de governo. Assumiu a secretaria quando o titular, o marido de Rosinha, Anthony Garotinho, se desincompatibilizou para disputar a eleição presidencial.

Hoje Garotinho é o principal adversário ¿ e um dos críticos mais ferozes ¿ do governo Cabral. Nesta sexta-feira, o ex-governador escreveu no seu blog: Cabral está desanimado. (...) Só quer saber de viajar ou então de descansar. Pezão já foi tachado por Garotinho de traíra.

Foi em Piraí que Pezão conheceu a mulher, Maria Lucia de Souza, com quem está casado há 16 anos. Ele era vereador, ela secretária de Fazenda do município. Com um detalhe: Maria Lucia ocupa o posto desde 1984. Manteve-se como secretária na gestão de Pezão. O nepotismo explícito só não se tornou um problema maior porque ela já passara por três prefeitos, inclusive adversários de Pezão. No serviço público há muitas ideias, o que falta é perseverança e determinação para pôr em prática. As pessoas acabam desanimando com a lentidão. Para ela, Pezão é exceção.

O perfil de técnico e articulador político, forjado ainda em Piraí, garante-lhe hoje o papel estratégico que tem para Cabral. Ele e o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, foram escolhidos pelo governador para comandar uma caravana às cidades fluminenses para seduzir prefeitos e vereadores. O grupo tem como argumento principal os próprios cofres: as obras de infraestrutura nos municípios do interior e da Região Metropolitana do Rio.

São obras, convém lembrar, tocadas por Pezão. Candidato à reeleição ao lado de Cabral em 2010, ele garante não ter aspirações políticas para além disso. Já cheguei longe demais. De coração lhe digo que já me sinto no limite. Dois mandatos já serão demais, afirma. Pezão justifica: Você é muito cobrado no Rio. É uma coisa muito estranha. O cansaço, ele vai aplacar com a ida a um spa, para onde vai no próximo domingo. Estou mal, anuncia. Preciso cuidar um pouco mais de mim. O descanso, porém, não será completo: ele o interromperá na quarta-feira para ir a Brasília discutir com o presidente Lula uma agenda externa, que vai dos recursos emergenciais contra as enchentes aos planos para as Olimpíadas de 2016.

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