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Tive alucinações aos 15 anos com minha imagem no espelho

Tive alucinações aos 15 anos com minha imagem no espelho Por Giuliana Reginatto São Paulo, 25 (AE) - A seguir, o relato da professora Mônica Xavier, 28 anos, que trata o transtorno dismórfico corporal (TDC) há 13 anos. Assim como ela, a maioria dos pacientes espera em média dez anos entre o início da doença e um diagnóstico correto.

Agência Estado |

- O que incomoda você?
MÔNICA XAVIER - Não gosto do nariz. Tive alucinações a partir dos 15 anos com minha imagem no espelho. Eu me lembro de pegar um espelho menor e ir para a frente de um espelho grande. Ficava me observando de todos os ângulos, durante horas, perdi muitos dias assim, prestando atenção nos defeitos. Acabei me enxergando várias vezes como uma pessoa monstruosa, com um nariz gigantesco, de mãos e pés estranhos.

- As pessoas também acham que você tem todos esses defeitos?
MÔNICA XAVIER - Eu sei que é uma coisa minha. Meu namorado, no começo, achava que eu estava brincando quando dizia que me sentia feia. Às vezes, ele reclama quando fico perguntando coisas do tipo: ‘o que está olhando?’ou ‘tem alguma coisa errada?’ Demorou para eu ver que alguém poderia gostar de mim. Sempre me senti muito pouco para as pessoas. Quando os meninos me chamavam para namorar, eu sempre fugia.

- Você acha que as pessoas compreendem o TDC como doença ou confundem com vaidade?
MÔNICA XAVIER - A maioria não entende, acha que é frescura, que reclamo à toa. Uma vez uma colega de escola me chamou de narcisista e egocêntrica, por achar que todos estavam sempre olhando para mim. Na faculdade, eu deixava de ir ao banheiro fazer xixi porque tinha vergonha de levantar e de que ficassem olhando muito para mim. Até hoje, eu odeio que fiquem me olhando muito.

- Isso prejudicou a vida social?
MÔNICA XAVIER - Deixei de ir a milhões de festas de família e escola porque achava que iriam reparar nos meus defeitos e me criticar. Percebi que era um problema porque falavam que eu estava ficando paranoica. Meus pais me viam chorando por me sentir inferior a todos, então fui buscar ajuda.

- Você está em tratamento?
MÔNICA XAVIER - Tratei de depressão, primeiro aos 15 anos, mas não era o tratamento correto. Fiz terapia por anos e, aos 18, comecei um tratamento de verdade, que ajudou muito. Passei por vários médicos, agora estou com o mesmo há três anos, que acertou o meu remédio e que também trata o transtorno bipolar do meu pai há mais de 30 anos.

- E agora, a sua relação com o espelho melhorou?
MÔNICA XAVIER - Olha, meu nariz, dependendo do ângulo, me incomoda muito. Ele é grande, torto. É que não dá para ver nas fotos ... Eu sempre tiro as fotos do mesmo jeito, porque tem um ângulo em que o nariz fica normal, mas é um truque. Já fiz três bioplastias no nariz, mas o resultado vai saindo. Estou tentando que meu pai me ajude a pagar a plástica.

- Você sabia que o TDC pode levar o paciente a perder a identidade ao se submeter a muitos procedimentos estéticos?
MÔNICA XAVIER - Eu sei. Foi assim com o Michael Jackson, por exemplo. É por isso que me identifico tanto com ele. Foi o maior exemplo de TDC e as pessoas não o entendiam. Eu entendo isso, porque sofro da mesma forma. Mas não é só a questão do nariz. Eu também me acho muito magra, me sinto inferior por causa disso. Acho que isso tudo aconteceu porque na adolescência as pessoas faziam piadas da minha aparência. Até hoje, se fazem comentários, vou para o fundo do poço. Quando era mais nova tomei de tudo para engordar. Uma vez, foi um remédio sem receita que me deu um problema para a vida toda. Tive hiperprolactinemia (excesso de prolactina, hormônio que estimula a produção de leite na gravidez). Começou a sair leito dos meus seios, tive dor de cabeça, atrapalhou a menstruação. Até hoje esses hormônios estão desregulados.

- Você acha que a época de carnaval estimula a insatisfação das pessoas com a aparência?
MÔNICA XAVIER - Com certeza. É cruel o que a mídia faz com as mulheres. A maioria delas tem silicone, cirurgias no rosto, lipoaspirações, inúmeros tratamentos estéticos. Essas mulheres ficam quase perfeitas e isso mina a autoestima das mulheres comuns. O Brasil cobra muito de suas mulheres. E eu me sinto inferiorizada.

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