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Tenho vergonha do descaso social , diz ex-moradora de rua

Aos 20 anos, Maria Eulina Hilsenbeck, saiu do Maranhão e veio para a capital paulista sem o consentimento dos pais. Queria ¿crescer¿. Sem ser aceita pela prima de São Paulo, foi parar nas ruas, onde ficou por quase dois anos. Hoje, aos 58 anos e presidente da Organização Não Governamental (ONG) Clube de Mães do Brasil, ela protesta: ¿tenho vergonha do descaso social. As pessoas não olham para o morador de rua e, as que olham, fazem isso com pena¿.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Filha de uma família de classe média alta, Maria Eulina já sabia que não teria volta para a casa dos pais quando veio para São Paulo, em 1971. Só não pensava que iria dormir na rua. Achei que seria bem tratada, ia arranjar um emprego, mas o esposo da minha prima colocou minha mala na rua, diz. Sem dinheiro e com medo de contar o que acontecera a sua família, Maria foi viver sob pontes e marquises.

Lecticia Maggi
Castelinho onde funciona parte dos trabalhos do Clube de Mães

Na rua, diz que criou regras próprias de sobrevivência. A primeira delas foi dormir durante o dia e andar à noite. Tinha pavor da noite, medo de alguém me atacar, confessa. Por isso, diz que passava as noites em locais movimentados, próximo a praças e pontos de ônibus. Quando o dia amanhecia, dormia debaixo de um banco no Parque Dom Pedro II, na Sé.

"Já abri muito saco de lixo para comer"

Entre os limites que se impôs, estava não usar drogas, roubar, se prostituir ou pedir. Sabia que eu estava ali em condições de miséria, mas não era miserável, diz. Para se alimentar, procurava o final de feiras livres, onde conseguia frutas e legumes. Cansei de comer coisas que não tinha como lavar, mas era o de menos. Já abri muito saco de lixo para comer, conta.

Segundo ela, em São Paulo só passa fome quem é preguiçoso, já que no final de feiras há comida suficiente para alimentar famílias. Mas, a maior fome de Maria não era a de estômago, era de cidadania. De justiça social, completa. Para se manter sã, lia jornais, livros e revistas que encontrava jogados no lixo.

"O seu instestino funciona como de qualquer um e você precisa procurar um lugar para fazer as necessidades"

Diferentemente de hoje, na década de 70 não havia albergues públicos, tão pouco banheiros para moradores de rua. E era disso que ela mais sentia falta. Querendo ou não seu intestino funciona como o de qualquer ser humano e você precisa procurar um lugar para fazer suas necessidades, diz. 

Das violências e agressões que sofreu na rua, Maria Eulina lembra de um episódio específico, quando foi empurrada para fora de um ônibus em movimento pelo cobrador. Ela caiu, ralou os joelhos e cotovelos. Ninguém apareceu para ajudar, recorda.

Um dia, porém, alguém a enxergou. Em um sábado, uma jovem começou a chutar seu veículo após ele quebrar próximo ao local onde Maria estava. Eu falei: olha você deve ter a minha idade e está tão brava só porque seu carro quebrou, imagina se estivesse na minha situação?, conta. A abordagem deu certo e, após contar sua história, Maria foi levada para morar na casa da motorista Vânia, onde ficou por nove meses.

"Dizia que ia estudar e ia para a favela do Jaguaré"

Neste período, conheceu o seu marido, o alemão Alexsander Hilsenbeck, que era superintendente da empresa em que ela trabalhava, e já tinha uma vida financeira estabilizada. Nesta época, Alex, como o chamava, queria que ela fosse estudar, mas Maria desejava fazer um trabalho social. Para não brigar, dizia que ia para um cursinho e ia para a favela do Jaguaré, afirma. Lá, ensinava cursos de tricô e crochê para as moradoras.

A história que uma mulher dava aulas se espalhou e, em pouco tempo, Maria Eulina visitava diversas favelas da capital. Em 1993, resolveu brigar por uma sede própria para os seus cursos. O espaço escolhido foi o prédio do castelinho, na Avenida São João, no centro. Quando eu morava na rua, às vezes, pedia para o segurança para dormir lá. Quando caia a noite, pensava: um dia você vai ser meu, diz.

"Pensei 'tenho que colocar as mãos na educação'"

Com a ONG montava e a posse do prédio, Maria diz que firmou uma parceria com o SENAI e, entre os anos de 96 e 2000, capacitou 96 mil moradores de rua nas áreas de construção civil, elétrica e mecânica. Contudo, no Natal deste mesmo ano percebeu que deveria focar em outro grupo: as crianças. Todos os anos, a ONG oferecia uma ceia para moradores de rua, mas, em 2000, ninguém apareceu. Sempre era lotado, mas, naquele ano, para a minha surpresa, só veio criança drogada. Elas nem conseguiam comer, lamenta. Era o alerta que faltava. Pensei tenho que colocar as mãos na educação, diz. 

Hoje, o Clube de Mães oferece cursos de informática, capoeira e teatro de segunda-feira a sábado para 60 crianças entre 6 e 12 anos. O critério é que elas estejam na escola, mas morem em lugares precários, como favelas e cortiços, correndo o risco de irem para as ruas. Achei que não adiantava trabalhar a criança que já está na rua porque essa já se contaminou. Preferi pegar a criança de alto risco, considera Maria.

A ONG também dá almoços para os moradores de rua que procuram o local e disponibiliza um banheiro para que possam tomar banho e lavar roupas. Com isso, a conta de água chega a mil reais. A de luz, em torno de R$ 400 mensais. As parcerias, no entanto, ainda são poucas. Maria quer apoio para reformar o castelinho e montar um centro de educação ambiental para crianças no local. Enquanto isso não acontece, diz que leva a vida no sufoco. Vamos lutando assim, sempre no vermelho, afirma.

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