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Ser zen é se transformar em um ser humano livre e responsável

Ser zen é se transformar em um ser humano livre e responsável Por Gilberto Amendola São Paulo, 21 (AE) - A monja Coen, 63 anos, missionária oficial da tradição zen budista no Brasil, abriu as portas de seu templo, no Pacaembu, em São Paulo, para a reportagem. Ela, que promove eventos para pregar a paz, garante que é possível ser zen no caos de uma grande cidade.

Agência Estado |

Hoje solteira, mas não celibatária, a monja relembra histórias de amores, uso de drogas e até de uma tentativa de suicídio. Sua vida é tão intensa que virou uma biografia romanceada, "Monja Coen - A Mulher nos Jardins do Buda" (Ed. Mescla, R$ 53), escrita por Neusa Steiner. Como a conversa a seguir mostra, nem era preciso romancear.

AGÊNCIA ESTADO - Em meio ao trânsito, às inundações, ao caos de São Paulo, é possível ser zen?
MONJA COEN - É o lugar ideal. Todas as provocações para nossa prática estão aqui. A gente tem impressão de que a prática budista tem que ser feita na montanha ou no mato, longe da cidade. Não é verdade. A cidade é a nossa casa. Eu nasci aqui. Não temos que sair de São Paulo para sermos felizes. Dalai Lama disse: "Que maravilhosa oportunidade de treinar a paciência, a tolerância e a solidariedade".

- Haja paciência...

MONJA COEN - No trânsito, por exemplo. Em vez de querer ultrapassar outro carro, eu preciso desenvolver um olhar maior. Estamos todos engarrafados. Como fazer para fluir melhor? Só vai fluir bem para mim se fluir para todos.

- Se as pessoas seguissem os ensinamentos do budismo, talvez a gente precisasse de menos leis.

MONJA COEN - Concordo. Ser zen é ter ética. Ser zen é se transformar em um ser humano livre e responsável.

- Livre do tipo "pode tudo"?
MONJA COEN - Não. As pessoas fazem confusão. Dizem: "Eu sou livre, então eu jogo papel na rua". É o contrário: "Eu sou livre. Eu não jogo papel na rua". Com a cidade sufocada de enchente, tem gente que ainda joga papel na rua. Somos analfabetos em formação ambiental. Nós somos sujos. Não é o prefeito que é sujo. Não são os garis que são insuficientes. Nós é que somos sujos. Nós não sabemos lidar com nosso lixo.

- Ser zen é ser passivo?
MONJA COEN - Nada. O budismo é engajado. Não podemos ficar à parte do cotidiano. Temos que levar a prática zen para o local de trabalho. Buda disse: "Nada é estável neste mundo". A vida é instável. Podemos morrer a qualquer instante. Mas não deixamos de fazer coisas porque sabemos da morte, não é? É divertido estar vivo.

"TUDO O QUE FAÇO E DIGO TEM UMA REAÇÃO EM CADEIA.

BUDISTA NÃO DEVE BRIGAR OU GRITAR.

VOCÊ PODE ATÉ FALAR ALTO COMO RECURSO,
MAS NÃO PORQUE ALGUÉM O TIROU DO SÉRIO. "

- O budista é bonzinho?
MONJA COEN - Falo em não-violência ativa. Coloco a palavra ativa para que as pessoas não entrem na passividade. Tudo o que faço e digo tem uma reação em cadeia. Budista não deve brigar ou gritar. Você pode até falar alto como recurso, mas não porque alguém o tirou do sério.

- Isso não exclui as grandes paixões e emoções?
MONJA COEN - Não é se tornar uma pessoa amorfa - uma pessoa que só está contemplando o mundo. Já pensou se estão matando alguém na minha frente e eu fico lá contemplando? Eu tenho que interferir...

- Não só meditar...

MONJA COEN - Sabe de uma coisa? Tenho um seguro saúde barato. Então, quando vou me consultar, os médicos nem olham na minha cara. Isso é violência! Sistema judiciário moroso é violência. Vivemos em uma sociedade de violência. Mas acredito no DNA humano, nosso DNA quer sobreviver e vai fazer tudo para mudar as coisas. É a sobrevivência da espécie. É instintivo.

- Você tem uma carreira como jornalista e assinava reportagens no ‘Jornal da Tarde’ como Cláudia Batista.

MONJA COEN - Sabe, eu casei cedo. Tive uma filha aos 17, mas casei aos 14. Só tomava conta dela. Mas daí meu pai veio e perguntou o que eu queria fazer da vida. Estudar ou trabalhar? Pensei em Filosofia ou Teologia, mas meu pai não queria que eu fosse professora. Então, cheguei a fazer Direito no Mackenzie e na PUC. Não era o que eu queria. Um dia, em meados de 1967, durante uma sessão de terapia com o Gaiarsa (o famoso psicólogo José Ângelo Gaiarsa), ele me falou de uma vaga no Jornal da Tarde.

- Lembra-se de sua primeira reportagem?
MONJA COEN - Era uma matéria sobre fantasias de carnaval. Entrevistei alguns estilistas, entre eles o Clodovil. Ele foi bastante simpático. Lembro que ele parecia um Beatle com aquele cabelo e aquelas calças justas. Tão magrinho. Aprendi jornalismo na prática. Fui formada pelo pessoal do Jornal da Tarde.

- Foi uma boa experiência?
MONJA COEN - Foi intensa. Como jornalista a gente lida muito com a dor. Lembro de ligar para uma senhora e dizer que o marido tinha sido assassinado e que a gente precisava de uma foto dele. Era tão embaraçoso que eu ria de nervoso, não sabia lidar com isso.

- Como suportou?
MONJA COEN - A gente bebia muito. Saía para jantar e bebia. Bebia porque não sabia lidar com a dor. Namorei vários jornalistas. Os que achava interessantes e inteligentes.

- Alguma lembrança dessas noites de bebedeira?
MONJA COEN - Eu bebia muito e saía dirigindo. Um dia combinamos de ver o pôr do sol no cemitério do Morumbi, diziam que era deslumbrante. Sofremos um acidente de carro no caminho, capotei. Quase fui parar, de fato, no cemitério. Fiquei um tempo afastada do jornal.

- Repensou a carreira, a vida?
MONJA COEN - Neste período, fiquei próxima do meu primo, Serginho (Sérgio Dias), dos Mutantes. Eu andava de moto com ele na garupa. O Sérgio tinha um olhar diferente. Ele não bebia e não fumava. Me seduziu a alegria que ele tinha de viver. Lembro dele de branco, com fitas coloridas amarradas na cintura.

- Foi ele quem a incentivou a desistir do jornalismo?
MONJA COEN - Não. Aconteceu muita coisa. Comecei a ficar chateada quando os editores mudavam minhas matérias. Reescreviam coisas e colocavam meu nome. Também tive uma tentativa de suicídio neste período. Tinha um relacionamento de amor e ódio com um colega de jornal. Ele (que já é falecido) tinha me traído. Pensei: "Minha vida não está boa, está chata, não quero mais". Tomei vários remédios, mas me acharam a tempo. Fizeram uma lavagem e fui salva.

- Chega de jornal para a senhora, então, monja.

MONJA COEN - (Risos) Fui para a Inglaterra estudar inglês. Só que um pouco antes de ir embora experimentei LSD. Na época, eu saía com um ilustrador que dizia que LSD era melhor que o álcool. Porque a bebida entorpecia e o LSD abria canais de percepção. Experimentei e no dia seguinte fui fazer uma matéria sobre planadores. Voei junto (risos).

- A experiência foi boa?
MONJA COEN - Foi interessante. Abri canais de percepção. E comecei a questionar o que era real. O que era realidade? Quis estudar a mente humana.

- Então, veio Londres.

MONJA COEN - Encontrei uma turma que gostava de LSD. O nosso questionamento era: o que é Deus?O que é vida? O que é morte? Quem sou eu? Me envolvi com um rapaz que queria vir para o Brasil. Mas para conseguir dinheiro para a viagem, ele tentou traficar LSD para a Suécia. Foi preso quando desceu do navio. A droga estava comigo. Ele admitiu que era dele. Admiti que sabia. Na época, declarei que o LSD poderia baixar a taxa de suicídio na Suécia. Foram quase seis meses de cadeia.

"POXA, A CADEIA NA SUÉCIA TEM CELAS INDIVIDUAIS,
DISCOS PARA OUVIR, BANHO DE SOL,
UM TEMPO PARA BORDAR, BOLO E CHAZINHO. EU ERA FELIZ. "

- Como foi a cadeia na Suécia?
MONJA COEN - Quando fui presa foi bom. Poxa, a cadeia na Suécia tem celas individuais, discos para ouvir, banho de sol, um tempo para bordar, bolo e chazinho. Eu era feliz. Mas, na cadeia, comecei a meditar - mesmo com a facilidade de conseguir haxixe e LSD por lá. Ali, comecei a mudança na minha vida.

- Largou as drogas?
MONJA COEN - Primeiro voltei para o Brasil. Me aproximei dos Mutantes outra vez. Uma noite, estava com eles assistindo, do backstage, a um show do Alice Cooper. Acabei ficando com o iluminador do show. A gente teve uma história e nos apaixonamos. Ele me convenceu a ir para os Estados Unidos com ele. Foi um período fascinante. Eu o ajudava enrolando cabos elétricos em shows de grande porte, como os de David Bowie. Nosso relacionamento foi se desgastando porque ele ainda estava nessa de maconha e eu já havia parado. Me dedicava à meditação e ao budismo. Fazia balé também. Eu tinha entendido que não precisava de maconha, haxixe ou ácido. Meditação era o grande barato. Eu virei monja.

- Começa aí, em 1983, a sua história no Japão?
MONJA COEN - Sim, saí dos Estados Unidos e fui para uma sociedade em que a posição da mulher não era fácil. Fui para um mosteiro feminino. Fiz voto de castidade. Achei uma delícia. Quando você se propõe a não ter relação com ninguém todos ficam iguais. O sexo cria ansiedade e conflitos. Mas essa paz durou até eu conhecer um monge aprendiz que era 18 anos mais novo do que eu. Me casei de novo. Trabalhamos em templos no Japão até voltar para o Brasil e desenvolver nosso trabalho.

- A senhora não se arrepende de nada do que fez na vida?
MONJA COEN - O passado não é feio e nem absurdo. Todas as nossas experiências estão ligadas e interconectadas. A meditação me ajuda a olhar de cima da montanha a minha vida. Depois dos 60 anos você é livre. Não tem que provar mais nada para ninguém. Hoje, falo o que acho, sou mais livre. Antigamente, não contava metade das histórias que contei aqui pra você.

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