Quanto mais eu misturar coisas, mais me sinto feliz , defende Felipe Hirsch - Brasil - iG" /

Quanto mais eu misturar coisas, mais me sinto feliz , defende Felipe Hirsch

Felipe Hirsch não para. Se a estreia simultânea do filme ¿Insolação¿ e da peça ¿Cinema¿ sugeria que ele pudesse dar um tempo para respirar e divulgar seus trabalhos, não é bem por aí. Hirsch trabalha as noites e madrugadas inteiras (¿durmo das 6h às 11h¿) e conversa sobre seus próximos projetos, música e a paixão pela arte com profundidade e desenvoltura, como se estivesse falando de algo trivial. Pura rotina.

Marco Tomazzoni, enviado a Curitiba |

AE

Felipe Hirsch: A arte precisa ser
tão importante quanto a vida

Rotina esse que segue em alta rotação. As peças do repertório da Sutil Companhia ¿ Não Sobre o Amor, Viver Sem Tempos Mortos, Avenida Dropsie ¿ seguem viajando pelo Brasil e o mundo, e outras três devem ser remontadas. A ópera O Castelo do Barba Azul, do compositor húngaro Béla Bartok, volta em maio; a primeira parte de Os Solidários, com Marco Nanini, deve retornar como Pterodáctilos; e o primeiro grande sucesso da carreira de Hirsch, A Vida É Cheia de Som e Fúria, baseado em Alta Fidelidade, de Nick Hornby, pode ser remontado em função de seu aniversário de 10 anos.

Meu desafio é tirar as pessoas da frente da televisão, afirma o diretor em entrevista ao iG , que também serve para ilustrar sua polivalência. Afinal de contas, não é qualquer um que tem no currículo espetáculos com Fernanda Montenegro e até um show com Roberto Carlos e Caetano Veloso, no ano passado, em homenagem a Tom Jobim. Na entrevista abaixo, o diretor continua falando de como foi trabalhar com esses grandes nomes da música e da dramaturgia, da vontade de dirigir um musical e da necessidade de lotar os teatros. A arte precisa ser tão importante quanto a vida, defende.

Como foi dirigir o show do Caetano e do Roberto?
Fui lá por dois motivos. Porque tenho um carinho imenso pela [produtora] Monique Gardenberg, e logicamente uma admiração imensa pelo Caetano e pelo Roberto, mas fui muito porque sou um alucinado pelo Tom Jobim. Lembro do meu pai escutando Tom, tocava muito na minha casa. Tom é o símbolo de um Rio de Janeiro que eu conheço e partilhei ¿ sou de lá, apesar de sair muito cedo. Foi um processo intenso pelas características e visibilidade da coisa toda, mas acho que fomos muito atentos para que fosse íntegro. É muito fácil em projetos desse tamanho que a coisa se corroa por dentro, já que existe uma quantidade de vaidades, de interesses, fúteis ou não, muito grande, não só dos artistas. O tempo conta as coisas melhor. Acho que quando a gente escuta um disco do Chico Buarque e Caetano em 1972, a gente tem toda a memória para criar junto. Hoje quando a gente vê um encontro desses, as coisas são mais distantes umas das outras do que próximas. Não sei como esse trabalho ficará no tempo. Tenho muita curiosidade de olhar para trás e ver o que aconteceu.

Para mim era improvável que você acabasse trabalhando com esses medalhões da MPB.
Eu também achava improvável, mas por isso aceitei. Admiro muito o Caetano, mas ele se dirige, seus shows são lindamente dirigidos. Se ele me chamasse pra dirigir um show dele, diria que de jeito nenhum faço melhor do que aquilo. O Roberto também tem o show dele para o público dele, que é muito bem realizado para o que interessa a ele e a esse público. Foi uma situação única e por isso me uni a ela porque gosto de estar nesses lugares improváveis. Quanto mais eu misturar coisas, mais me sinto feliz.

Você também já trabalhou com grandes nomes da dramaturgia brasileira: Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Marieta Severo. Como é sua relação com eles?
O bonito dessa história toda é quando você desperta neles uma paixão infantil, que é o que fez eles começarem. Você tem que se relacionar com isso, e não com o que eles se tornaram, de toda essa trajetória de vaidade. Quando você desperta aquilo, você percebe que eles são uns meninos, garotos lunáticos que conseguiram passar a vida inteira fazendo isso aqui [aponta para o teatro]. Eles são realmente irresponsáveis, curiosos. Você vê que eu trabalhei com o Paulo [Autran, em O Avarento] e ele nunca falou eu sei fazer isso ou isso eu já fiz muito. Paulo era uma criança, realmente. Fernanda [Montenegro, em Viver Sem Tempos Mortos] é também. É isso que você acessa neles, a paixão. E acho que por isso também de alguma maneira eles gostam de trabalhar comigo, porque não sento na frente deles para ficar cultuando. Sento pra dizer, escuta, também sou um garoto maluco, mas comecei depois de vocês. Existe um jogo infantil nisso tudo.

Divulgação

Fernanda Montenegro: "ela é uma criança"

O programa de rádio que você participa, Rádiocaos, está agora sendo transmitido também no Rio de Janeiro. Você está tocando algum outro projeto relacionado à música?
Queria muito me dedicar ao Rádiocaos. Se eu tivesse grana, só faria isso: escrever sobre música, ter um programa de rádio, amaria fazer isso por um tempo. Mas infelizmente não consigo me dedicar só a isso. E não só por grana, mas também por todas essas ideias perturbadas que você está ouvindo (risos). O fato é que eu não consigo parar a minha vida para fazer um programa de rádio. Eu adoraria fazer um musical. Mas o meu musical não ia ser muito para o [teatro] Alfa (risos).

O que você está achando dessa febre de musicais que chegou ao Brasil?
Eu adoro, não tenho preconceito com teatro nenhum. Eu quero é teatro lotado, de qualquer tipo. Posso não me interessar artisticamente, mas daí a ficar queimando, tendo preconceito... Meu desafio é tirar as pessoas da frente da televisão. Não vou atacar quem está fazendo algo diferente. Existe teatro para 100 pessoas, 200 e para mil. E aí? Também acho que os bombeiros deviam liberar as escadas, porque se alguém está arriscando a vida, é porque tem alguma coisa que preste lá dentro (risos). A Vida É Cheia de Som e Fúria tinha 70, 100 pessoas nas escadas. Quero 200 pessoas nas escadas! É o seguinte: quanto mais deixarmos a relação com a arte essa massa chata, careta, que em parte também se deve aos artistas, mais a gente vai ser jogado a um canto. Quero teatro lotado, duas mil pessoas vendo Paulo Autran fazendo Molière. É uma coisa linda! Quero a Praça Roosevelt lotada. Não preciso admirar artisticamente tal espetáculo ou outro: quero discutir esse espetáculo, porque isso com certeza vai gerar outros maravilhosos. Arte não é para mesquinhar. Arte é para dominar, precisa ser tão importante quanto a vida, não é supérflua.

Vou falou do sucesso de Som e Fúria. Você espera repetir algo tão fenomenal em relação a público no futuro?
Não, nem nunca me preocupei com isso. Aliás, sou um mal acostumado: em qualquer lugar que a gente vá, temos público. Formamos esse público, graças a deus, que não é só de classe, é um público de arquitetos, designers, jornalistas. Desperta o interesse porque fazemos as coisas de alma aberta, acertando e errando, e a gente dá muita importância para o erro. Nunca foi o ponto fazer uma coisa mais ou menos popular, embora eu goste muito da relação do público com a casa cheia. Gosto muito de briga na porta, é um ingrediente muito importante (risos).

E vai ter algo para lembrar os 10 anos do Som e Fúria em 2010?
Estamos negociando direitos. Em 2006, quando paramos de fazer o espetáculo, os direitos foram vendidos pela Touchstone Pictures para um musical que faliu em 14 dias na Broadway. O problema é que a partir dessa venda, mudou muito o caráter de liberação envolvendo essa obra. Agora a negociação é com a Disney, para você ter uma ideia. Mas estamos tentando seriamente, temos até um patrocínio para fazer isso.

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