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Padre Cícero não era um místico tresloucado

Aos 45 anos e autor das biografias da cantora Maysa e do ex-presidente Castello Branco, o jornalista Lira Neto rejeita a imagem de líder místico de padre Cícero. Para ele, padre Cícero soube fazer alianças suficientes para resistir ao tempo e à punição da Igreja Católica. Em entrevista ao iG, o autor de Padre Cícero ¿ Poder, Fé e Guerra no Sertão sublinha que foi essa capacidade que o fez resistir aos adversários e aos líderes messiânicos que surgiram no fim da Monarquia e no começo da República.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

Divulgação
Jornalista Lira Neto

Jornalista Lira Neto

iG - O que há de novidade no seu livro em relação à bibliografia existente sobre o padre Cícero?

Lira Neto - Nas últimas décadas há uma boa quantidade de livros acadêmicos sobre padre Cícero, vertente inaugurada nos anos 70 pelo brasilianista Ralph Della Cava ao escrever Milagre em Juazeiro. Afora os livros mais acadêmicos, toda a bibliografia disponível peca por dois extremos: ou é uma literatura ingênua, devocional, ou de desconstrução do personagem. Faltava um registro mais equilibrado. E, mesmo na produção acadêmica, os autores não tiveram a oportunidade de descer às fontes primárias. O mérito do livro é resultar do acesso a uma documentação rara, os documentos que resultaram na suspensão eclesiástica do padre, no Vaticano. Me passaram esses documentos de uma maneira muito generosa.

iG - Você fala em equilíbrio. Acha que há no Brasil uma visão caricatural dele?

Lira Neto - Acho. O pior erro que se pode cometer em relação a ele é julgá-lo um místico tresloucado, caricato e ensandecido. Ele é muito mais complexo do que isso, tanto que sobreviveu não só a todos os seus adversários políticos e religiosos, mas a todos os líderes messiânicos que surgiram no fim da Monarquia e no começo da República. Enquanto Antônio Conselheiro teve a cabeça decepada pelo governo, padre Cícero soube, de maneira muito astuta, estabelecer alianças com as elites. Tinha inclusive boas relações com a alta cúpula do governo federal. Engana-se quem acha que o padre Cícero era um sujeito tosco, primitivo, mais um dos tantos beatos da história brasileira. Tinha capacidade de se reinventar continuamente.

iG - Era astuto e contraditório, ambíguo, pelo que se lê no seu livro.

Lira Neto - O padre Cícero tem uma coleção de contradições. É interessante perceber que, ao mesmo tempo, era considerado fruto de um gerador do atraso e levou a cabo um processo civilizatório de modernização ¿ modernização conservadora, mas modernização ¿ no sertão do Ceará. Juazeiro era uma aldeia com poucas taperas e se transformou num dos maiores aglomerados urbanos. Outra espécie de ambiguidade do padre que me fascina foi essa dicotomia que norteava a ação dele como líder religioso. Era um sujeito formado num seminário rigoroso, em que a rigidez canônica era pedra de toque, mas tinha um olhar muito próprio do catolicismo popular, mais primitivo. 

Foto do enterro de padre Cícero/ Reprodução

Foto do enterro de padre Cícero/ Reprodução

iG - Até pelas circunstâncias do local e da época.

Lira Neto - Certamente. Mesmo padre, ele nunca abandonou sua natureza sertaneja, que era dada a visões de almas penadas, de visões, de crenças nos sonhos. E a maior de todas as ambiguidades era exatamente esta: um homem que tinha uma profunda compreensão da fala e da escuta sertaneja, que sabia falar a língua do seu povo como ninguém, mas também um político que soube usar a política de forma muito astuta, permeada de ambiguidades.  

iG - Os milagres são o ponto mais polêmico da vida de padre Cícero. Mas você não se coloca categoricamente contra ou a favor, embora cite a possibilidade de o sangue ser resultado de algum truque químico. Por quê?

Lira Neto - Para mim permanece o enigma sobre o que aconteceu naquele momento entre a beata e o padre. Depois de consultar todos os documentos, posso lhe dizer de uma forma muito tranquila que não há uma explicação razoável para o fenômeno. O fato de o Santo Ofício ter condenado, e entre as penas ter sido queimar todas as provas, torna impossível resolver esse enigma. O corpo da beata desapareceu. Foi roubado do seu túmulo. Com ele, teríamos condições hoje, até científicas, de fazer um comparativo entre o material genético da beata e o sangue que diz estar naqueles poucos paninhos que sobraram à fúria do fogo lançado por ordem da Igreja. 

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