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Ouvi um estrondo e olhei pra dentro da igreja sem acreditar no que via

SÃO PAULO ¿ ¿A tragédia poderia ter sido muito pior.¿ Esta é a frase que mais se ouve entre os fiéis da igreja Renascer. ¿Se o teto tivesse caído 10 minutos antes, ou 10 minutos depois, centenas de pessoas poderiam ter morrido¿, afirma Bruna Rocha, em referência ao horário em que o teto da igreja Renascer do Cambuci desabou, por volta das 18h50 do último domingo, pouco depois do término do culto das 17h e minutos antes do início do das 19h. ¿A igreja tem capacidade para 2 mil pessoas, imagina se estivesse lotada¿, diz Bruna.

Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo |


A personal trainer Alessandra Vieira estava na frente da igreja, vendendo artigos religiosos, quando o teto desabou: ouvi um estrondo e olhei pra dentro da igreja sem acreditar no que via. Só pensava nas pessoas que estavam lá dentro. Muitos estavam no saguão ou se acomodando na plateia quando o teto caiu. Alessandra relata que, logo após o barulho, pessoas feridas começaram a sair do local. Entrei para tentar ajudar as vítimas e levantei sozinha uma tubulação de ar do caminho para as pessoas passarem. Nessas horas você acha forças onde não tem, diz.

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Vista aérea do desabamento do teto da igreja Renascer

Alessandra afirma que a demora do resgate foi angustiante. Primeiro mandaram apenas duas viaturas pra cá. A gente ligava pra emergência pedindo ajuda e só depois de 15 minutos é que chegaram mais carros. Pessoas com fraturas expostas, braços quebrados, ferimentos na cabeça ficaram no chão esperando atendimento. Tinha muita gente machucada, conta. Visivelmente nervosa, e há mais de 12 horas em frente à igreja, Alessandra resume seu estado: Estou anestesiada, não consigo nem chorar.

Moradora da rua lateral da Igreja Renascer, Odília ouviu um barulho que parecia o de uma explosão e correu para a janela. Vi uma fumaça preta subir da igreja, como se estivesse queimando alguma coisa lá dentro. Durante instantes tudo ficou silencioso, até que as portas da saída de emergência se abriram e dezenas de pessoas feridas saíram. Muitas com sangue na cabeça e nos braços, conta. Odília relata que seu marido entrou na igreja para ajudar a resgatar as vítimas quando uma estrutura caiu bem próxima a ele. Morri de medo e não deixei ele voltar lá.

Marina Morena Costa/iG
Interior da igreja Renascer do bairro do Cambuci

A gente nasceu de novo, diz uma vítima que preferiu não se identificar. Com os braços arranhados e o rosto machucado, Sílvia* conta que, na hora do desabamento, as pessoas que estavam na plateia se protegeram debaixo das cadeiras. Ela comemora o fato do Setor Infantil ¿ espaço localizado atrás do altar, onde os fiéis deixam as crianças enquanto participam do culto ¿ não ter sido atingido e finaliza a breve conversa com a reportagem: Estou muito abalada emocionalmente.

Às 2h10, mais de 7 horas depois do desabamento, Priscila chega à base do Corpo de Bombeiros solicitando uma ambulância. Integrante do coral da Renascer, Priscila estava dentro da igreja quando o teto desabou e foi atingida por uma viga nas costas. Saiu do local em estado de choque e não percebeu a gravidade do machucado. Horas depois, sentiu tanta dor que não conseguia andar. Casos como este, quando a pessoa percebe que está ferida muito tempo depois, tornam impossível precisar neste momento a quantidade de feridos, afirma o Tenente Miguel Jodas.

Nas ruas inúmeras luvas cirúrgicas denunciam o cenário de socorro às vítimas. Bombeiros com os rostos cansados e sujos de fuligem descansam sentados no asfalto. Voluntários distribuem copos de água, barrinhas de cereal e água. Fazem o possível para confortar as vítimas.

Igreja Universal

Por todos os lados, há pessoas com coletes verdes reforçando os cordões de isolamento fixados pela Polícia e pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). É a Força Jovem Brasil da Igreja Universal, que segundo seu coordenador, Jean Madeira, está de prontidão para ajudar no que for necessário.

Marina Morena Costa/iG
Cordão de isolamento da igreja Universal
De acordo com Madeira, 300 jovens se voluntariaram para colaborar com a polícia e os bombeiros distribuindo água, alimentos e isolando inclusive os jornalistas de se aproximarem do local da tragédia. Neste momento não existe igrejas e sim seres humanos, afirma.

Rejane da Silva Félix, de 29 anos, define a Força Jovem Brasil como uma comunidade de ajuda espontânea. Olhamos para as pessoas como almas, e estamos aqui para ajudar, diz. Kedenilson Bezerra de Carvalho, de 27 anos, também integrante da Força, relata que os voluntários foram bem recebidos pelos fiéis da Renascer: Várias pessoas vieram me agradecer e dizer que bom que você está aqui. Segundo os dois jovens, não há inimizade entre os integrantes da igreja Universal e da Renascer.

(* O nome foi trocado a pedido da entrevistada)

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